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Entrevista

Omelete entrevista: Gonçalo Júnior, autor de <i>A Guerra dos Gibis</i>

Omelete entrevista: Gonçalo Júnior, autor de <i>A Guerra dos Gibis</i>

Romeu Martins
02.02.2005
00h00
Atualizada em
07.11.2016
08h06
Atualizada em 07.11.2016 às 08h06
A Guerra dos Gibis - A formação do mercado editorial brasileiro e a censura aos quadrinhos, 1933-1964
Gonçalo Júnior
- Cia das Letras
448 páginas - R$ 52,00
5 ovos

Nota máxima

O Estado de S. Paulo enviou Euclides da Cunha para cobrir uma confusão envolvendo o exército e um grupo de revoltosos no interior do Brasil e o resultado foi o monumental Os Sertões, uma obra-prima e a melhor reportagem já feita neste país. Muitos anos mais tarde, Assis Chateaubriand, o dono dos Diários Associados, mandou um jovem repórter chamado Joel Silveira para Europa, com a missão de escrever sobre a II Guerra Mundial, algo que foi cumprido com talento e que marcou época. Mais umas décadas depois, o Brasil contava com um jornalista de primeira cobrindo o conflito do Vietnã, José Hamilton Ribeiro, que perdeu uma perna na aventura mas não deixou de fazer uma das mais dramáticas matérias já publicadas na revista Realidade. Nessa tradição de correspondentes de guerra, o país acabou de revelar mais um talento na área: Gonçalo Junior, um jornalista baiano radicado há alguns anos em São Paulo. A Guerra dos Gibis - A Formação do Mercado Editorial Brasileiro e a Censura aos Quadrinhos, 1933-64 é o seu testemunho, livro lançado no final de 2004 pela Companhia das Letras, e também a melhor obra sobre quadrinhos já feita no Brasil.

Gonçalo Junior teve uma desvantagem em relação a seus colegas citados acima, aos 37 anos ele é muito jovem para ter acompanhado as batalhas que narrou, iniciadas há mais de sete décadas. Mas, compensou isso com uma exaustiva pesquisa que durou mais de dez anos e por fim, como escreveu Sérgio Augusto na apresentação do livro, o autor "soube historiar como se tivesse testemunhado de uma ou várias trincheiras". Formado em Jornalismo e em Direito, Gonçalo começou a escrever sobre quadrinhos em fanzines, ainda em Salvador, nos anos 80. Na década seguinte, já em São Paulo, passou a ser conhecido nacionalmente, e fora do restrito círculo dos fãs de quadrinhos, ao integrar a equipe do caderno Fim de Semana da Gazeta Mercantil. Produzido por um batalhão de excelentes jornalistas, como Daniel Piza, Marcelo Rezende, Alessandro Greco, Orlando Margarido, Luís Antônio Giron, Ivan Lessa e muitos outros, aquele suplemento, no seu auge, tinha tanta qualidade que chegou a ser vendido nas bancas separadamente do jornal (algo que, salvo engano, não acontecia desde o tempo do Suplemento Infantil, de Adolfo Aizen, um dos personagens principais de A Guerra dos Gibis).

Nesta entrevista, o autor, que também escreveu País da TV (Conrad, 2001) e Alceu Penna e as Garotas do Brasil (Cluq, 2004), detalha algumas passagens do seu livro, analisa o mercado nacional de quadrinhos, fala de projetos futuros de livros, e até de alguns roteiros de quadrinhos. O que é melhor: assim como em seu último livro, Gonçalo não faz média com ninguém e não poupa críticas, por exemplo, à postura de alguns autores de quadrinhos: "parte dos quadrinhistas brasileiros é arrogante, acha-se auto-suficiente. Para a maioria, a figura do roteirista é totalmente dispensável. Desprezível, até". E chega a fazer uma provocação: "proponha uma pesquisa para listar dez grandes obras dos quadrinhos brasileiros de todos os tempos. Se chegar a cinco, é muito". Pelo jeito, a adrenalina de cobrir uma guerra ainda não baixou. Vamos à entrevista:

Você informa que antes dos suplementos de Adolfo Aizen houve experiências pioneiras com a publicação de quadrinhos estrangeiros no Brasil. Mais exatamente desde 1929, com A Gazetinha , em São Paulo, e O Mundo Infantil , no Rio. Qual foi o critério que você adotou para não aprofundar informações sobre esse material e sim seguir a trajetória de Aizen como o pioneiro na área?

Gonçalo Junior - Durante muito tempo Adolfo Aizen foi citado como "pioneiro" dos quadrinhos no Brasil de uma forma mais ampla. Para muitos, nada aconteceu antes dele. Nem mesmo os quadrinhos infantis e cômicos de O Tico-Tico, revista fundada em 1905. Como você mesmo disse, é preciso explicar melhor isso, pois tivemos tablóides antecessores ao Suplemento Infantil. Não considerei O Tico-Tico como marco porque era uma publicação que não trazia só quadrinhos, mas diversão, educação escolar, etc. Não seria errado, porém, dá-lhe o título de primogênita. Minha preocupação caminhou no sentido de explicar o papel histórico de Aizen. Ele foi pioneiro sim em duas coisas: por introduzir na imprensa brasileira os cadernos diários, que realmente não existiam; e por trazer os modernos heróis de aventura. Mérito que teria, de novo, em 1967, ao lançar no país os super-heróis criados por Stan Lee para a Marvel Comics. Enfim, ele modernizou os quadrinhos com os heróis de aventura. O que não é pouco.

É preciso registrar que seu livro deixa o leitor com vontade de saber ainda mais sobre o assunto, pois, como diz o subtítulo, você se concentrou no período entre 1933-64 e no último capítulo, antes do epílogo, acaba com um trecho digno das melhores séries continuadas: "E a guerra contra os gibis se estenderia por muito tempo, com novos personagens, num contexto diferente, porém mais repressor. Essa, porém, é outra história". Você já começou o relato dessa "outra história" e já existe alguma previsão de data para a publicação?

GJ - Na verdade, o volume que você acaba de ler foi escrito depois de um outro que cobre todo período da ditadura militar. O que será a continuação de A Guerra dos Gibis, portanto, vai de 1964 a 1985. Como concluí o texto há 12 anos, quero reescrevê-lo ao longo de 2005 para oferecê-lo à Companhia das Letras no começo do próximo ano, que avaliará sua publicação ou não. Seria muito bom se a editora topasse e o editasse em 2006. A deixa no final do livro que você cita é proposital, quis criar uma expectativa no leitor e, ao mesmo tempo, explicar porque essa história termina em 1964.

Dessa vez, os personagens são outros, figuras quase anônimas em sua maioria. Pelo menos os protagonistas. Mas teremos autoridades como ministros da Justiça e presidentes da República metidos na história, mais uma vez. A Guerra dos Gibis 1 nasceu quando fazia a introdução desse trabalho sobre a ditadura militar. Deparei-me, então, com uma outra história que me impressionou muito e me levou a escrever outro livro com a saga de Aizen e Marinho.

Em suma, o Volume 2 foca a história de duas editoras que fizeram quadrinhos eróticos e de terror e foram muito perseguidas por isso. Uma delas teve até a sede invadida e um desenhista preso e espancado pelos torturadores do DOI-Codi. Trata-se das editoras Edrel (1964-75) e Grafipar (1975-85). Ambas tiveram como personagem importante Cláudio Seto, cuja vida transita em toda a narrativa. Como pano de fundo, conto o riquíssimo universo da imprensa erótica clandestina no período, que desafiou o regime e o moralismo estabelecido com a publicação de livros e revistas de sacanagem. Sem esquecer da produção de pornochanchadas para o cinema. Olha, tem todos os ingredientes para agradar tanto quanto o primeiro livro.

A Guerra dos Gibis relembra e detalha algumas passagens obscuras da história, como os projetos de nacionalização dos quadrinhos e a participação de alguns autores, como o Ziraldo, no Rio, e o Mauricio de Sousa, em São Paulo. Assusta, quem não conhecia todos os detalhes, algumas das exigências dos artistas, como a reserva de mercado de 70% para os quadrinhos brasileiros e a prerrogativa que esses autores queriam ter para censurar o material estrangeiro, com a alegação de que certas HQs seriam imorais, muito violentas... Pouco mais tarde, aquele mesmo Ziraldo, em O Pasquim, seria visto como um bastião da luta anticensura no Brasil, denunciando militares que cortavam charges, novelas, filmes, peças de teatro, matérias jornalísticas e tudo o mais, em nome do regime militar, da moral e dos bons costumes. Qual sua opinião sobre essas atitudes aparentemente tão desencontradas de uma mesma pessoa? Você chegou a entrevistar o Ziraldo sobre esse assunto em alguma oportunidade?

GJ - Já entrevistei o Ziraldo sim, mas não tive a oportunidade de cobrar dele uma declaração sobre essa postura incoerente porque procurei me restringir ao relato sobre o período mostrado, até 1964, uma vez que exigiria avançar na sua vida futura. Uma curiosidade interessante em relação a este livro foi que Mauricio de Sousa, depois de ler A Guerra dos Gibis, me procurou para dar uma versão mais completa de sua participação naquele movimento - eu já havia conversado com ele sobre isso quando escrevia o livro. É muito interessante e revelador o que ele diz e espero incluir isso numa futura edição.

Sobre o comportamento dos artistas ao usar a defesa da censura para conseguir reserva de mercado, é complexo formar um juízo a respeito. Se você perguntar a algum deles, certamente ouvirá que o ufanismo delirante da época os levou a isso. Uma reação a isso, deve-se lembrar, veio do crítico literário de O Estado de S. Paulo, Sérgio Milliet, que detonou a postura incoerente dos brasileiros [fato citado no livro]. De qualquer forma, procurei com isso fazer uma provocação no sentido de desmistificar um pouco a romantizada história dos nossos quadrinhos.

Aliás, não creio que tenha sido bonzinho com ninguém no livro. Também não quis fazer sensacionalismo com o papel de Marinho na história. Apenas procurei contar uma história, sem a preocupação de fazer média com qualquer pessoa. Aizen, por exemplo, sempre esteve atrelado ao poder e se deu bem com isso. Ele participou ativamente da campanha de idolatria de Vargas durante o Estado Novo e fez quadrinhos para ajudar Juscelino na construção de Brasília. Ganhou muito dinheiro com isso. Está tudo no livro.

Considerando que havia exageros em propostas como essas do projeto de nacionalização das HQs, e ainda que atitudes menos radicais, como a cooperativa de quadrinhos do Rio Grande do Sul (CETPA), também não deram o resultado esperado, qual seria uma solução para dar um novo gás e maior visibilidade para o quadrinho brasileiro?

GJ - Nos anos 80, quando comecei a fazer fanzines, militei pelos quadrinhos nacionais cegamente, torrava minha mesada na compra de tudo que era brasileiro porque achava que estava contribuindo para construir um espaço nosso. Com o tempo, percebi que não era bem por aí. Notei que havia uma manipulação da realidade para justificar certo comodismo e uma série de distorções. Há décadas, nossos artistas repetem o velho clichê de que são pobres vítimas do rolo compressor dos sindycates [as agências distribuidoras de quadrinhos e tiras dos EUA] e do imperialismo americano. Papo furado.

Sinceramente, esse papo de dizer que Deus é brasileiro só traz problema. Um deles é que muitos de nossos desenhistas se confundem com o próprio Todo Poderoso. Ou acham que foram presenteados com uma dádiva do céu, ao se tornarem autores de quadrinhos. Quer dizer, acreditam que nasceram com um dom, que sabem de tudo, inclusive criar histórias. Mas seriam sufocados pela máquina dos sindycates.

Esse é o maior problema dos nossos quadrinhos: não vendemos nas bancas porque não sabemos escrever histórias. Há 70 anos é assim, com raríssimas exceções. Tem desenhista que nunca leu um livro e viu não mais que meia dúzia de filmes. Jornal, então, nem pensar. Desprezam completamente esse suporte no processo de criação, tanto do argumento quanto dos desenhos, quando sabemos que a elaboração artística se dá num contexto de muitas referências: memória, vivência, conhecimento erudito e popular, leitura de livros e revistas, filmes, etc.

Deixe-me explicar melhor. Entre os anos de 1950 e 1970, tivemos produção suficiente para nos profissionalizar e criar uma estrutura competitiva contra os poderosos sndycates. A vinda de artistas italianos e argentinos - Nico Rosso, Eugênio Colonnese, Oswaldo Tallo e Rodolfo Zalla - foi muito importante nesse sentido. Eles trouxeram uma noção de produção profissional para o mercado e até foram combatidos por isso - uma das muitas sujeiras da história dos nossos quadrinhos jogadas debaixo do tapete.

Essa estruturação não aconteceu porque parte dos quadrinhistas brasileiros é arrogante, acha-se auto-suficiente. Para a maioria, a figura do roteirista é totalmente dispensável. Desprezível, até. Ignora-se qualquer tipo de noção de profissionalismo, acha que isso é fazer concessão em prejuízo da arte ou qualquer besteira semelhante. Por isso, não lê, não se informa, não estuda, não recicla? Não sei.

Um exemplo disso foi o fato de que, durante muito tempo, só aparecia nas revistas o nome do desenhista. Nunca se sabia quem bolava as histórias. Tanto que temos a cultura de pagar absurdos 10% ou 20% pelo roteiro. O resto vai para o "grande mestre" do traço. Está correto isso? Vale a regra do trabalho por tempo de serviço? O roteiro não é uma elaboração intelectual que exige, além do talento, trabalho de elaboração?

O resultado disso? Setenta anos de muitos trabalhos apenas medianos ou ruins, em sua maioria. Salvo raríssimas exceções como Mauricio de Souza, a geração pós-Balão [formada por gente como Laerte e os irmãos Paulo e Chico Caruso] de Circo Editorial [Laerte, de novo, Angeli e Glauco], formada por profissionais que têm essa mentalidade da informação, de buscar referências em outras artes como a literatura e o cinema. É preciso citar também exceções como Júlio Shimamoto, Flavio Colin e Rodolfo Zalla, que têm uma ampla cultura literária e cinematográfica. Por que Lourenço Mutarelli é um dos melhores autores de quadrinhos do mundo hoje? Por ter uma mentalidade semelhante a esses artistas que citei. O mesmo vale para Marcatti, uma vítima injustiçada do moralismo hipócrita reinante no país.

Temos uma tradição de um país produtor de gibis de terror, certo? Só que, se você for olhar as revistas feitas nos anos de 1950 e 1960, notará que quase nada se salva. Passamos vinte anos copiando descaradamente as revistas de horror da EC Comics. Inclusive as capas.

Proponha uma pesquisa para listar dez grandes obras dos quadrinhos brasileiros de todos os tempos. Se chegar a cinco, é muito. Enfim, está na hora de olhar para o próprio umbigo e parar com essa postura de geniozinhos injustiçados pelo Tio Sam. Não há governo que resolva esse problema. É preciso humildade e uma mudança de mentalidade no sentido de apostar mais nos roteiros, nos argumentos, na informação visual, etc.

Li em uma entrevista sua, certa vez, que na sua opinião muitos quadrinhistas brasileiros sofreriam de uma certa "Síndrome do Cinema Novo": eles se comportariam como gênios, que não precisam aprender mais nada, nem precisam trabalhar em equipe, e quando têm alguma revista cancelada a culpa é sempre do público, nunca deles. Na sua opinião esse quadro tem melhorado ou piorado ao longo dos anos? Entre autores novos e os mais experientes, quais não apresentam os sintomas dessa síndrome?

GJ - Falo do quadrinho nacional por ter consultado revistas e entrevistado autores de um período que chega a setenta anos de história. Nos últimos vinte anos, acompanhei de perto todas as iniciativas no sentido de se estabelecer revistas com material brasileiro. Como disse antes, além de Mauricio e Mutarelli, entre os que fogem à regra, temos a turma liderada por Toninho Mendes, um editor que ainda precisa ter seu verdadeiro valor reconhecido. Foi ele quem mostrou que quadrinhos brasileiros são viáveis e que é possível fazer algo de qualidade. Angeli, Laerte, Glauco explodiram por causa dessa mentalidade, guinchados por Toninho Mendes. Pelo menos essa é a minha opinião. Pena que não conseguiram ir adiante, fazendo coisas acima da média. Eles passam por uma crise de criatividade há mais de uma década. Não vejo neles a visão profissional de Toninho Mendes, infelizmente. Os caras vivem sentados nos louros do passado.

Entre os novos, repito, o problema é o absurdo descaso com a produção de roteiros. Por que ninguém escreve para a Marvel ou DC, só desenha? E não me venha com esse papo que roteirista ganha mal e migra para outros meios. Fora a literatura, sempre fomos fracos em histórias para cinema e televisão, por exemplo. Não incluo aqui adaptações cinematográficas boas de livros como Cidade de Deus ou peças de teatro - Eles Não Usam Black Tie.

Escrevi sobre TV e cinema para a Gazeta Mercantil durante seis anos e isso me permite concluir que nosso cinema hoje ainda é de quinta categoria. Pior, parte da crítica é comprometida com os cineastas. Muitos são amigos de diretores e produtores e não escrevem com a devida imparcialidade. Vira tudo amigo, freqüentam as mesmas festinhas. Sempre que vejo um filme nacional, noto que não é possível escrever uma crítica sem esbarrar em deficiências primárias de roteiro, direção e interpretação.

A tecnologia digital evoluiu muito nesses dez anos de "retomada" do cinema nacional, mas nossos filmes são ainda inócuos, tolos, vazios, mal escritos, dirigidos e interpretados. Não se vê nada de inteligente nesse vício até glamourizado do mundo cão da violência e da miséria - temática da maioria das produções recentes. Por outro lado, é preciso reconhecer, temos feito excelentes documentários. São a salvação da lavoura.

De todas aquelas revistas que você cita no livro, de editoras como Ebal, RGE, Cruzeiro, La Selva, Continental/Outubro, quais tinham uma penetração realmente nacional, para além do eixo Rio-São Paulo? A distribuição desse material, há meio século, era eficiente em todo o país?

GJ - Excelente pergunta. Tive a preocupação de deixar claro que nossa distribuição era precaríssima nos anos de 1930 e 1940, feita por caminhões, ônibus e até no lombo de mula em estradas esburacadas. As revistas levavam meses para chegar em alguns lugares. Muitas cidades nem recebiam. Pergunto quantos gibis a mais seriam vendidos se os editores contassem com boa distribuição? Muito, muito. O dobro, talvez o triplo. O Brasil tinha entre 40 milhões e 50 milhões de habitantes na época. Você sabia que as bancas de revistas são uma novidade da década de 30? Pois é, algumas surgiram nessa época, mas só se popularizam vinte ou trinta anos depois. As grandes editoras como Ebal, RGE e Cruzeiro chegavam principalmente na maioria das cidades litorâneas. Criou-se uma cultura de economia que era assim: as revistas não vendidas não eram devolvidas por causa do custo de transporte. O distribuidor só mandava o logotipo da capa recortado. Curioso, não?

No lado direito do ringue temos gente como o alemão Fredric Wertham, no esquerdo o chileno Ariel Dorfman. O que existe nos quadrinhos para gerar tanto ódio até mesmo em pessoas de quem se esperaria alguma reflexão científica antes de emitir opiniões, como psiquiatras, sociólogos e afins?

GJ - Os quadrinhos foram combatidos numa época de intolerância moral, religiosa e ideológica. Tempos da guerra fria, da delação, de oportunismo, de traição. Contraditoriamente também, de romantismo e certa ingenuidade para muitos, como mostram filmes na linha de American Grafitte, Fique Comigo e Nos Tempos da Brilhantina - gosto muito deles, por sinal. Não creio que quem tenha passado por aquilo sinta saudades hoje.

Por outro lado, como qualquer nova forma de comunicação, os gibis sofreram muito preconceito. A diferença foi que por um período maior do que todas as outras mídias. Tanto que isso ainda não acabou. Tem muita gente que acha quadrinhos coisa para pessoas com pouca instrução escolar, adolescentes que não gostam de estudar ou crianças em idade de alfabetização. É inadmissível, por exemplo, fazer referências aos comics como formas de arte. Essa mentalidade, aliás, está bem presente em muitas faculdades de comunicação. Quantas escolas têm matérias sobre o tema?

Conheço adultos que lêem quadrinhos às escondidas, não querem que os amigos saibam. Outro dia estava fazendo uma pesquisa que me encomendaram sobre a história dos suplementos culturais na imprensa e encontrei num jornal de 1920 um debate sobre os "últimos dias" do teatro, que estava prestes a ser morto pelo cinema. Esse é um exemplo de que cada nova mídia provoca um tipo de reação muito parecido.

Will Eisner dizia que a linguagem dos quadrinhos, depois de um século, ainda engatinha. Para ele, há muito ainda a ser explorado. E nos mostrou isso nos últimos 15 anos, quando essa forma de comunicação mergulhou numa longa e ameaçadora crise de criatividade que coloca o futuro do mercado em dúvida, sem considerar o fenômeno do mangá.

Eisner produziu várias graphic novels maravilhosas, como a recém-lançada no Brasil Avenida Dropsie, uma obra-prima inesquecível (leiam, leiam, leiam!) - veja como o último quadrinho desse álbum revela o verdadeiro propósito humanista do autor e reinventa por completo toda a história... Enquanto isso, como se publica lixo, não? É inconcebível para mim que elejam Origem, de Wolverine, a minissérie do ano. Nunca vi algo tão ruim, com uma trama tão insossa e cheia de buracos e incoerências. Por outro lado, algo me inquieta: por que Mauricio vende dois milhões de gibis por mês e os mangás são uma febre? O que está errado?

Seduction of the Innocent, depois de todo o estrago que causou na indústria dos comics, é visto hoje em dia como uma excentricidade, algo para se envergonhar (exceção feita àquelas pessoas de um conservadorismo mais radical). Por outro lado, um livro tão deturpado quanto, Para Ler o Pato Donald, ainda é de certa forma reverenciado por pessoas de esquerda, além de ser leitura recomendada em inúmeras faculdades, por exemplo de Jornalismo, país afora. O que leva a uma situação dessas, por que não foi feito o mesmo tipo de autocrítica entre os leitores do livro chileno que acabou sendo feito entre aqueles que levaram a sério o livro de Wertham?

GJ - Dorfman, se não estou enganado, deu uma entrevista recente na qual admitiu que carregou nas tintas, que forjou suas leituras e, com isso, tirou muito da credibilidade de seu livro. Antes de tudo, temos que considerar que Para Ler o Pato Donald foi editado em toda a América Latina e Europa. Seduction of the Innocent, não. Posso estar errado, mas só saiu nos Estados Unidos e na Inglaterra. Ou seja, estamos falando de um livro que todo mundo leu e de outro que ninguém leu. E isso é importante para responder sua pergunta.

Uma diferença em relação a Wertham foi que, enquanto Dorfman ficou no campo da subjetividade e do academicismo em sua leitura dos quadrinhos, o psiquiatra alemão tentou provar cientificamente suas conclusões com elementos falseados e até fraudados - como as ampliações de cenas nas quais ele enxergava mensagens sexuais. Mesmo assim, muita gente acreditou nele porque era uma dos mais respeitados psiquiatras de seu tempo nos Estados Unidos. No nosso caso, acho que Wertham, por outro lado, não tem mais seguidores porque seu livro nunca saiu no Brasil ou em língua portuguesa. Você conhece alguém que tenha lido Seduction of the Innocent?

A Guerra dos Gibis contextualiza o livro de Wertham e procura mostrar o absurdo de seus argumentos. Mas, quando observamos a aceitação tão presente ainda hoje do livro de Dorfman, é preciso destacar a necessidade de nos libertar dos vícios de se ver a história de forma passional e parcial, sem o devido distanciamento crítico. Creio que o seu livro persiste na defesa de uma tese centrada mais numa visão ideológica. A história também deve ser contada com documentos.

Você começou sua carreira editorial, ainda na Bahia, com elogiados fanzines nos anos 80, A Folha dos Quadrinhos, Quadrinhos Magazine, Baloon, entre outros. Como foi essa experiência e qual foi a contribuição dela para seu trabalho como jornalista?

GJ - Desde a década de 1970, os fanzines brasileiros foram perdendo sua função de revista de fã, embora esse formato nunca tenha acabado. Viraram um meio de expressão, de luta para promover desenhistas, roteiristas, poetas e bandas de rock. Os fanzines foram uma escola para mim porque tive de aprender a fazer tudo sozinho - entrevistar, escrever, criticar, diagramar, procurar gráfica, etc.

O diferencial que encontrei foi dar uma linha mais jornalística às minhas publicações. Então, levava aos leitores notícias quentinhas com os próximos lançamentos (não havia Internet), artigos e entrevistas que procuravam discutir os rumos dos quadrinhos e a memória. Tem uma história interessante nesse aspecto: havia um orelhão perto da minha casa, em Salvador, que ficou com um defeito durante mais de dois anos. Com uma única ficha você fazia ligação interurbana pelo tempo que quisesse. Então, eu montava todo o zine e um dia antes de mandá-lo para a gráfica, ligava para as editoras, editores e desenhistas para pegar as novidades. Uma semana depois, tava tudo fresquinho na casa da galera. Claro que não vou dizer aqui que usava aquele recurso de passar uma película de cola sobre o selo para reaproveitá-lo depois - ao colocá-lo na água, a cola saia juntamente com o carimbo. Alguns amigos meus faziam isso.

Você já pensou em deixar esse material à disposição na Internet para que novos leitores possam conhecer esse seu trabalho?

GJ - Não, pelo amor de Deus, não me peça isso. Morreria de vergonha. Talvez as capas e um pequeno histórico pode até ser. A única coisa que republicaria dessa época é Livre Cativeiro, uma revista em quadrinhos que fiz com dois amigos - Leônidas Greco e Sidney Falcão - bem dentro do clima do rock nacional mais contestador dos anos de 1980, quando ouvíamos muito Camisa de Vênus, Raul Seixas, Plebe Rude, Legião Urbana e Hanói-Hanói (essa banda fez um disco fantástico chamado Fanzine, o grande manifesto dos alternativos dos anos 80 que pouca gente conhece - procure nos sebos, você vai adorar. A letra da canção título diz assim: "Ninguém fica burro demais só porque viu TV/ as flores do mal são cogumelos de néon glacê/a juventude tem um tempo certo para se corromper/o anarquismo é o anjo da guarda de todo prazer/ e tome zine, zine, zine, zine em papel xerox/ vem do fanzine o novo papo, a nova onda, o novo abc"). E por aí vai. São histórias anarquistas, bem mais radicais do que se fazia na época, na linha Chiclete com Banana, só que com muita política. Sobraram dois volumes inéditos, num total de 200 páginas. Tenho muito orgulho desse material, foi produzido quando a Brasiliense e a L&PM inundavam o Brasil com os livros de John Fante, Jack Kerouac, Charles Bukowski, Allen Ginsberg, Carl Salomon, Neal Cassidy e Gregory Corso. Nós trucidávamos esses caras. Líamos todos. Também devorávamos qualquer livro sobre a ditadura militar e víamos os filmes de Peter Greenway, Jim Jamusch, David Linch, Luis Buñuel, Stanley Kubrick, Alfred Hitchcock, etc. Enfim, tudo isso influenciava nossas histórias (uma delas até chegou a sair na Chiclete com Banana, de Angeli).

Lembrando que uma outra especialidade sua é a televisão, seria possível fazer um paralelo entre a assustadora carga de ataques contra os quadrinhos que você relata em A Guerra dos Gibis e a mobilização atual sobre a baixaria televisiva? Não estamos repetindo erros do passado, sem utilizar um pouco de bom senso tanto da parte de quem reclama quanto do lado daqueles que têm uma concessão pública e parecem não se dar conta da responsabilidade que isso representa? Será que nenhuma lição foi aprendida daquele período nebuloso que você relatou em seu livro?

GJ - Concordo plenamente com você. Existe a responsabilidade cultural e social de quem faz TV. Por outro lado, a TV ainda é tratada com muito preconceito. Não temos uma crítica televisiva séria e respeitada, como acontece com cinema, teatro e música. Creio que a revista Bravo! tem tentado mudar isso. Quanto às lições do passado, é preciso em primeiro lugar identificá-las, admiti-las e reconhecê-las como erro. Acho que ainda não fizemos isso. Às vezes, fica a impressão de que o tempo parou para muitos, principalmente para nossa classe média, sempre medrosa e disposta a reagir para que nada mude. Basta lembrar que hoje a obscura Sociedade Brasileira da Tradição, Família e Propriedade (TFP), a mesma que levou multidões às ruas para derrubar João Goulart, continua na ativa e tem hoje mais de 400 mil filiados em todo país. E o que faz? Combate o MST e orienta os latifundiários a reagirem contra o movimento. Ninguém fala disso porque o jornalismo investigativo e denunciativo foi morto e cremado junto com Tim Lopes.

Naqueles fanzines já citados, você tinha trabalhos como roteiristas de HQs, como "Vampiros do Terceiro Mundo", "Baianos" e "As Bichas". Depois disso, roteirizou uma série de histórias ilustradas pelo grande Júlio Shimamoto (Claustrofobia, Devir). Ainda existem outros projetos de quadrinhos guardados na gaveta?

GJ - Nos anos 80, cheguei a publicar alguns roteiros na extinta Press Editorial. Claustrofobia faz parte de um projeto de histórias mudas, sem textos, inspiradas principalmente nos cinema expressionista dos anos de 1910 e 1920. São mais de 500 páginas já escritas. Tenho um álbum na mesma linha sobre guerra civil urbana no Brasil e um outro a respeito da bomba atômica de Hiroshima. Alguém se habilita a desenhar algo?

MD - Além de uma esperada continuação de A Guerra dos Gibis, que outros projetos você tem em mente? Lendo o livro ficamos com a impressão de que vários temas poderiam ter desdobramentos em outras obras, como a história de Alcides Caminha/Carlos Zéfiro, a cooperativa de quadrinhos gaúcha, além de necessárias biografias isentas de Ziraldo e Mauricio de Sousa. Podemos esperar que seu trabalho como pesquisador da história dos quadrinhos vá continuar?

GJ - Queria muito que A Guerra dos Gibis estimulasse alguns leitores a desenvolverem pesquisas e reportagens que resgatem a memória dos nossos quadrinhos. Ou que aprofundem tópicos como os que você listou.

Escrevi dois livros para a Opera Graphica em 2001 e 2003 e que vão sair este ano: Homem-Abril (A história da editora Abril contada por Cláudio de Souza, secretário particular de Civita e criador das principais revistas da empresa) e Tentação à Italiana, sobre os grandes mestres dos quadrinhos eróticos italianos - Manara, Crepax, Serpieri, etc. Neste, misturo dados biográficos com análise de praticamente tudo que eles fizeram até 2003 - está previsto para abril ou maio. Há seis anos escrevo um livro sobre O Grilo, a revista em quadrinhos proibida de circular pela ditadura militar em 1973.

Impossível entrevistá-lo e deixar de falar do caderno Fim de Semana da Gazeta Mercantil. Infelizmente a empresa está passando já há alguns anos por dificuldades financeiras graves, mas aquela sem dúvida foi uma das mais importantes experiências de jornalismo cultural do país. Como foi fazer parte daquela equipe e quais das matérias sobre quadrinhos que você fez para o caderno destacaria hoje?

GJ - Trabalhei no Fim de Semana de 1997 a 2003. Gostava muito da liberdade que tínhamos para escolher pautas e até de testar idéias. O Fim de Semana era um caderno de tendências, que procurava explicar ao leitor o que estava acontecendo, para onde estávamos indo. Das matérias de quadrinhos, destaco as duas que fiz sobre Will Eisner, quando tive a oportunidade de entrevistá-lo exaustivamente para ambas. Ele respondeu a mais de 110 perguntas, via fax, com uma paciência e humildade típicas dos verdadeiros gênios. Das outras, destaco duas: a entrevista com Walter Poyares, secretário pessoal de Roberto Marinho desde 1952 até 2003, que foi reproduzida no livro País da TV. Ali está o elo de ligação entre a Rede Globo e a ditadura militar que todo mundo procura. Tenho muito orgulho também da reportagem sobre os 100 anos de nascimento de José Lins do Rego. Esgotei ali todas as minhas possibilidades. E, como você sabe, a sorte favorece os perseverantes: a irmã mais velha dele, então com 94 anos, contou-me que, quando tinha 10 anos, Zé Lins matou sem querer o funcionário da fazenda da tia. E isso nunca tinha sido contado. É preciso lembrar que ele passou quase toda a vida escrevendo livros no qual reinventava a infância, de forma mais feliz.

* Romeu Martins é jornalista do Marca Diabo - um site bom pra diabo de uns malacos amigos nossos :-)