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Artigo

O Super-Homem nos quadrinhos pré-Crise nas infinitas Terras

O Super-Homem nos quadrinhos pré-Crise nas infinitas Terras

Marcus Vinícius de Medeiros
10.07.2006
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h20
Atualizada em 21.09.2014 às 13h20

Action Comics 1

Joe Shuster

Jerry Siegel

Action Comics 2


Action Comics 23


Surge o Superboy...


... e Krypto, o Supercão


A Legião dos Superanimais


Legião dos Super-Heróis


Deve existir um Super-Homem?

Quando criaram a versão do Super-Homem que foi publicada na revista Action Comics em 1938, os jovens Jerry Siegel e Joe Shuster já haviam definido as bases daquele que se tornaria um dos mais poderosos mitos do século 20. Idealistas, imaginaram, além de uma fantasia de poder adolescente, a resposta aos maiores desejos da humanidade no período da Grande Depressão. Seu herói lutaria por tudo o que é correto, derrotando qualquer forma de maldade no mundo, incorporando elementos de personagens históricos, mitológicos e literários. Com o passar das décadas, o Super-Homem cresceu além das definições iniciais de seus criadores, tornando-se cada vez mais relevante e encantador.

Action Comics 1 foi lançada em junho de 1938, apresentando os conceitos essenciais do super-herói. Na primeira página da história, é apresentada a origem e a explicação científica dos poderes do Homem de Aço. Ele era o único sobrevivente de um planeta avançado, que fora enviada para a Terra por seu pai. Desde a infância, manifestou poderes fantásticos e decidiu usá-los em defesa dos oprimidos. Clark Kent era capaz de saltar arranha-céus, erguer pesos monumentais e correr mais que um trem. Dois quadros significativos mostram a analogia com as formigas e insetos que realizam feitos notáveis, comprovando a viabilidade de superseres em nosso mundo. Nota-se nestas primeiras aventuras a preocupação social, o caráter mais agressivo e o bom-humor do personagem, elementos pouco lembrados nos dias atuais. Sua primeira missão foi resgatar uma prisioneira condenada injustamente à cadeira elétrica. Em seguida, enfrenta um homem que espancava a esposa, sem os modos de "escoteiro". Ainda mais reveladora é a história de Action Comics 2, na qual o Super-Homem põe fim a uma guerra entre dois países fazendo que se confrontem seus governantes, afirmando que os interesses por trás do conflito eram comerciais. Estava formado também o triângulo amoroso mais ilustre da história, com a introdução da destemida repórter do Estrela Diária - depois rebatizado de Planeta Diário -, Lois Lane. Apaixonada pelo herói, desprezava seu alter ego desajeitado que a cortejava timidamente.

Essencialmente, o Super-Homem do período designado como "Era de Ouro" dos quadrinhos era um herói uniformizado, dotado de poderes sobre-humanos e uma identidade secreta que funcionava como elo de identificação com os leitores, mas agia como fora-da-lei e não se preocupava com a sobrevivência de seus oponentes. Em meio à ação, o herói também não abria mão de suas observações irônicas, um tempero extra em sua personalidade. Nas revistas Action Comics 8 e 9, o Super-Homem é responsável pela demolição de áreas pobres, após tê-las evacuado, visando a construção de um ambiente melhor por parte do governo, que não corrompesse seus habitantes. Como conseqüência de seus atos, o herói passou a ser perseguido oficialmente pela polícia. Em boa parte das histórias do período, o caráter social era ressaltado. Em Action Comics 3, por exemplo, Clark Kent rouba a cena numa investigação sobre um desastre numa área de mineração. Trata-se de uma crítica à ambição do capitalismo que marcou o trabalho original dos autores. Mesmo quando foi introduzido o super-vilão Ultra-Humanóide, em Action Comics 13, o foco estava em companhias de táxis e sabotagem. Visando um apelo maior junto a crianças e a evitar problemas com a censura, o editor Whutney Ellsworth determinou que o Super-Homem não faria mais uso de força excessiva em suas histórias. Assim, uma nova direção para o personagem estava sendo preparada.

Action Comics 23 marcou a estréia de Lex Luthor, que se tornaria o arquiinimigo do Super-Homem e um dos vilões mais conhecidos do grande público. Inicialmente, contudo, Luthor era apenas uma variação do Ultra-Humanóide. Com o tempo, sua personalidade e gênio científico foram se estabelecendo. Entre os outros vilões criados na década de 1940, estão o Sr. Mxyztplk, um duende da quinta dimensão, e o Galhofeiro, mestre de truques e pegadinhas diabólicas. Em fevereiro de 1940, foi publicada a história "How Superman would end the war", na Look Magazine, uma produção de Siegel e Shuster em que o Super-Homem encerra a Segunda Guerra Mundial em apenas duas páginas, capturando Adolf Hitler e Joseh Stalin e levando-os a julgamento na Liga das Nações. A história não publicada "The K-Metal from Krypton" apresentou um protótipo da kryptonita, termo usado para qualquer fragmento do planeta krypton capaz de enfraquecer ou matar o Super-Homem. Em 1945 surgiu o Superboy, versão adolescente do Super-Homem, publicada sem o consentimento de seus criadores. Situadas na cidade de Smallville, as histórias do Super-Homem quando menino tinham como coadjuvante Lana Lang, seu interesse romântico, e Peter Ross, seu melhor amigo. Posteriormente, foi estabelecido que Lex Luthor também era amigo de infância de Clark, adicionando novas dimensões ao personagem. Bill Finger, reconhecido pelo seu trabalho em Batman, passou a explorar a origem e a herança alienígena do herói. Numa versão mais elaborada de sua origem, publicada em Superman 53, de 1948, conhecemos detalhes do planeta Krypton e dos pais adotivos de Clark. Na edição seguinte, o herói retorna a seu mundo natal como um fantasma, incapaz de mudar o rumo dos acontecimentos.

As décadas seguintes brilharam com a entrada de Mort Weisinger como editor do Super-Homem, responsável pela inclusão cada vez maior de elementos de ficção científica em sua mitologia e pela criação de uma inesquecível família de personagens. Como roteiristas de destaque da década de 1950, estiveram Otto Binder e Edmond Hamilton, e entre os desenhistas, se destacaram Wayne Boring e Curt Swan, ambos com traço mais natural e sofisticado. Em Adventure Comics 210, foi introduzido Krypto, o Super-Cão, mascote do Superboy. Em 1959, Otto Binder e Al Plastino presentearam o mundo com a Supermoça, a jovem prima do Super-Homem, ainda hoje uma das mais queridas super-heroínas dos quadrinhos. Após Krypto, a mitologia foi acrescida de Beppo, o Super-Macaco, Cometa, o Super-Cavalo, e Raiado, o Super-Gato. Juntos, formavam a Legião dos Superanimais de Estimação. Durante a "Era de Prata", o Homem de Aço era uma figura paterna, dotado de poderes quase ilimitados, com vilões bem caracterizados em aventuras cujo tom passava da ação dramática à comédia, sempre com riqueza de elementos criativos. Um dos mais admiráveis acréscimos do período foi a Legião dos Super-Heróis, grupo de jovens superpoderosos vindos do futuro, surgidos em Adventure Comics 247. Representantes de diversos planetas e com poderes variados, os legionários se tornaram tão populares que romperam o status de coadjuvantes do Superboy, tornando-se um fenômeno na indústria.

Jerry Siegel retornou em histórias contundentes como "Supermans Retuns to Krypton", que explorou com maestria a perda do herói. Ele reencontra os pais e vive uma paixão com Lyla Lerrol, uma bela atriz. O tema tornou-se recorrente, e o Super-Homem ganhou força também como personagem trágico. Uma história emblemática é "The Last Days of Ma e Pa kent", de Leo Dorfman e Al Plastino, que mostrou a impotência e o amadurecimento de Clark Kent/Superboy diante do destino final de seus pais adotivos. Coadjuvantes como Lois Lane e o fotógrafo Jimmy Olsen ganharam suas revistas próprias, expandindo a franquia. Pelo gibi Supermans Pal Jimmy Olsen, passou o gênio da Marvel Jack Kirby, numa seqüência de histórias inesquecíveis. Como vilões que entraram para a história, merecem ser citados o andróide Brainiac e a cópia imperfeita do Super-Homem, Bizarro. Este último chegou a ganhar uma série de 15 histórias cômicas, "Os Contos do Mundo Bizarro", escritas pelo próprio Siegel e publicadas em Adventure Comics. Como membro da Liga da Justiça, o Super-Homem estava em mais uma revista mensal, atuando ao lado dos maiores ícones da DC Comics, como Batman, Mulher-Maravilha, Flash e Lanterna Verde. A Era de Prata também conheceu magníficas histórias imaginárias, como A Morte do Super-Homem e Super-Homens Azul e Vermelho, que posteriormente seriam reaproveitadas. Neste ponto, foi estabelecido o Multiverso DC, fato que iria gerar a mais drástica mudança no universo desses heróis.

Antes, porém, foi a vez de uma reformulação orquestrada pelo novo editor Julius Schwartz, em 1971. Com texto de Denny ONeil e arte de Curt Swan, a Saga do Homem de Areia consistiu em mudanças como a redução no nível de poderes do kryptoniano e na quantidade de kryptonita presente na Terra. Além disso, Clark Kent passou de repórter do Planeta Diário a âncora de telejornal da Rede Galáxia. Na visão do roteirista, o grande problema nas histórias do Super-Homem era o fato do herói ter se tornado poderoso demais, de modo que nenhum desafio fosse realmente ameaçador. Com a saída de ONeil, todavia, o Super-Homem da "Era de Bronze" passou a contar com os versáteis Elliot S! Magin e Cary Bates, que acreditavam que a chave para boas histórias estava em dilemas morais e na dinâmica entre os personagens, não em confrontos com seres superpoderosos. Maggin brilhou na história "Deve existir um Super-Homem?", que questionava a interferência do Homem do Amanhã no desenvolvimento social da humanidade, na interpretação impecável de Lex Luthor, notável em "O Luthor que ninguém conhece", e no avanço do relacionamento com Lois Lane, que pôde ser visto em "The Dinner Date". O autor criou também o Superboy "Prime", versão do personagem existente no mundo real. Esta fase foi caracterizada também por um forte apelo mítico e quase religioso, pois estabeleceu o Super-Homem como uma força divina. Em várias histórias, foi mostrada a relação do super-herói com o Deus criador do universo.

Em 1985, a DC Comics iniciou a maxissérie Crise nas Infinitas Terras e apagou de sua história toda a cronologia do personagem, que reiniciaria do zero. O propósito da saga era simplificar o Universo DC para atrair novos leitores, eliminando o conceito das Infinitas Terras, ou Multiverso. Na época, estava estabelecido que os heróis que iniciaram suas carreiras na "Era de Ouro", inclusive o Super-Homem, habitavam a Terra-2, e que suas versões reformuladas estavam na Terra-1, caso do Super-Homem da "Era de Prata". Logo começaram a proliferar diferentes Terras e versões de personagens consagrados, que ainda migravam de uma Terra para a outra. Durante a Crise, a Supermoça foi morta, todas as Terras se mesclaram, e os heróis teriam suas origens recontadas por artistas de peso no mercado. O britânico Alan Moore foi encarregado do capítulo final na história do Super-Homem, a história em duas partes "O que aconteceu com o Homem de Aço?", que fechou com chave de ouro a trajetória do herói. Uma nova versão seria iniciada por John Byrne. Elementos que cativaram o público durante décadas estavam perdidos. No coração dos fãs, porém, eles continuavam vivos, e retornariam um dia com força ainda mais arrebatadora.

Especial Super-Homem