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Morre o quadrinista brasileiro Claudio Seto

Criador do personagem Samurai foi pioneiro na estética do mangá no Brasil

Érico Assis
21.11.2008
01h00
Atualizada em
07.12.2016
13h06
Atualizada em 07.12.2016 às 13h06

O ano não está favorável para os nomes clássicos da HQ nacional. Depois de Eugênio Colonnese e Gedeone Malagola, temos que escrever mais um texto com o título "Morre o quadrinhista brasileiro...".

Claudio Seto, criador do personagem Samurai (um precursor do Lobo Solitário) e considerado o primeiro autor de mangás brasileiros, faleceu no último dia 15 de novembro, aos 64 anos. O motivo foi um acidente vascular cerebral.

claudio seto

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Os mais jovens não devem saber, mas Claudio Seto foi o primeiro artista brasileiro a utilizar o traço característico do mangá em publicações nacionais. Isso ocorreu na década de 60. Natural de Guaiçara (SP), aos nove anos ele foi estudar num mosteiro zen no Japão e nos finais de semana visitava o estúdio de Osamu Tezuka, o "pai" do mangá. Após voltar ao Brasil, Seto foi contratado no final dos anos 60 pela editora Edrel, de São Paulo, onde publicou histórias de samurais e ninjas, numa época em que ninguém sabia direito o que significavam esses termos.

Na década de 70 ele mudou-se para Curitiba e foi trabalhar na Grafipar, uma editora que, apesar de sua curta duração, marcou época. Ali, além de escrever e desenhar, foi editor e reuniu o melhor time de roteiristas e desenhistas brasileiros já presentes numa editora: Flavio Colin, Julio Shimamoto, Mozart Couto, Watson Portela, Rodval Matias e Franco de Rosa.

Seto estava afastado dos quadrinhos, mas não parou de desenhar, publicando charges nos jornais Tribuna do Paraná e O Estado do Paraná. Este ano, recebeu uma grande homenagem do prêmio HQ Mix - a estátua do prêmio representava seu personagem Samurai. No mesmo evento, foi exibido o documentário O Samurai de Curitiba, de Rober Machado, que trata da carreira de Seto (e pode ser assistido aqui).

O Cozinheiro do Omelete José Aguiar conviveu com Seto e deixou sua mensagem:

"Acabo de ligar a internet e a notícia chegou: Cláudio Seto se foi. Assim, de repente, mais um dos grandes nomes dos quadrinhos brasileiros nos deixa. Eu, que sempre tive orgulho de ser uma das crias da Gibiteca de Curitiba, fui também uma das crias de Seto. Nos anos 90 eu era apenas um dos adolescentes que frequentavam as oficinas nas catacumbas do Solar do Barão e Seto por um bom período foi nosso professor. Na época eu nem suspeitava da importância dos quadrinhos daquele silencioso professor de quem tanto gostávamos e atormentávamos com nosso garranchos que sempre recebia com um monossilábico "bom" ou "legal". Seto não preparava aulas, nos deixava à vontade, criando nossos quadrinhos, e dava dicas. Muitas vezes chegava atrasado, trazendo a tiracolo trabalhos do jornal. Mas isso não queria dizer que não nos dava atenção. Ele publicou nossas tiras no suplemento infantil do extinto jornal Correio de Notícias, a "Turminha do Seto", e ainda recebia a turma em sua casa para distribuir um artigo ainda raro no Brasil naqueles dias: mangás.

Hoje, mais que nunca, me arrependo de não ter ido com meus amigos às excursões de pilhagem. Lamentavelmente CDF, eu não matava aula para visitar o mestre. Com o tempo eu o vi cada vez menos, tanto que dele eu só sabia de relatos de outros colegas e amigos que tiveram oportunidade de trabalhar e conviver com ele nos jornais de Curitiba e nas Editoras Grafipar e Edrel. Até que um dia fomos convidados para um mesmo programa na rádio CBN. Foi um reencontro muito bacana, pois agora eu era o representante da nova geração, formada por ele direta e indiretamente.

Nessa fase eu já havia lido muitos dos quadrinhos que ele publicara nos anos 80 e entendia o quanto significava seu trabalho. Foi uma das vezes em que pude atormentá-lo um pouco para que republicasse seus quadrinhos. Mas ele parecia resistir à idéia. Numa mesa-redonda na Gibiteca tive o prazer de vê-lo empolgado, conclamando os presentes a fazer quadrinhos, contente com a recepção do público com a exibição do filme Samurai de Curitiba, do meu amigo Rober Machado. Ele me convidou para criar os storyboards de animações que faríamos para seu curta. As animações não aconteceram e utilizaram imagens dos próprios quadrinhos de Seto, o que ficou infinitamente melhor. Tive o prazer de levar o filme para ser exibido na última edição do Troféu HQMIX em que Seto foi o grande homenageado. Inclusive o Troféu que recebi é a figura de um de seus personagens. Na ocasião eu disse e repito: 'Para mim foi muito especial receber o HQMIX no ano em que o homenageado foi meu antigo professor'.

Lá foi a última vez em que nos falamos. Fico com essa imagem dele guardada: feliz, muito emocionado com a homenagem e, como sempre, com uma certa pressa. Este foi um bom ano para ele, que, além dessa homenagem, recebeu outras aqui em Curitiba. Há anos eu dou aula na Gibiteca numa sala decorada com dois enormes painéis de Maria Erótica, uma de suas personagens mais populares. Mais do que nunca, sua presença será ainda maior por lá.

Descanse bem, Samurai de Curitiba."