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Lá Fora Especial

Making Comics. a nova obra de Scott McLoud

Érico Assis
18.10.2006, às 00H00
ATUALIZADA EM 01.11.2016, ÀS 19H02
ATUALIZADA EM 01.11.2016, ÀS 19H02
As novidades nos quadrinhos norte-americanos.

Página 213, penúltimo quadrinho. A legenda diz que ali deveria haver um exemplo da arte de Demian 5, de When I Am King. Por erro no fechamento da página, tropeçada da revisão ou alguma intencionalidade do autor não captada por este leitor, o quadrinho está em branco. Alguém esqueceu de colar a imagem ali.

Este é o único problema de Making Comics: Storytelling Secrets of Comics, Manga and Graphic Novels (fazendo quadrinhos: segredos das narrativas de quadrinhos, mangá e graphic novels), nova obra de Scott McCloud. Com este ínfimo probleminha, a obra fecha a genial trilogia de teoria-dos-quadrinhos-em-quadrinhos que ele iniciou com Desvendando os Quadrinhos e continuou em Reinventando os Quadrinhos.

Primeiro McCloud desmontou a máquina da linguagem das HQs, analisou cada uma das pecinhas e explicou suas relações. Desvendando é absolutamente indispensável para quem faz gibi e extremamente agradável para quem só os lê.

Reinventando foi um risco: um apanhado de previsões (ou desejos) quanto ao futuro das HQs nos EUA. McCloud acertou na pluralização dos gêneros - as graphic novels que estão conquistando os leitores não-tradicionais vêm de gêneros como autobiografia, fantasia, comédia, policial, infantil... -, mas não foi tão feliz quanto ao potencial dos webcomics - que, segundo ele, seriam uma opção rentável para os criadores através do sistema de micropagamentos. Como tantas previsões internéticas, essa também (ainda) não aconteceu.

Depois de explicar a linguagem e de fazer previsões, McCloud quer mostrar como se faz quadrinhos? Não. Como se faz é muito pobre para definir a riqueza de Making Comics.

O novo livro é uma aula. Com o professor mais legal que você já teve. Que não quer impor um estilo, nem dizer é assim que se faz, nem propor uma lista exaustiva do certo e do errado nos quadrinhos. McCloud quer que você pense sobre sua prática. Que veja o estado atual da linguagem das HQs, observe como alguns artistas trabalham-na e reflita sobre qual será a sua contribuição.

São sete capítulos: escrevendo com figuras, histórias para humanos, o poder das palavras, construindo mundos, ferramentas, técnicas e tecnologia, seu lugar nos quadrinhos e fazendo quadrinhos. Em cada um o autor é exaustivo e didático - e, sem dúvida, estimulante - quanto ao que a linguagem das figuras-com-palavras demanda e permite.

McCloud recupera muito do que já explicou em Desvendando, mas o novo material é indispensável. O que considerar na criação de um personagem, onde colocar os balões, escolher e representar o ambiente adequado para sua história, a amplitude quase infinita de expressões faciais e corporais, a expressividade dos traços.

Para o capítulo sobre ferramentas, o autor entrevistou amigos desenhistas sobre os lápis, lapiseiras, canetas, pincéis e papéis que usam, sem buscar respostas como "certo" ou "errado" e sem desviar-se de questões importantes, como o preço dos materiais. Por fim, ele dá sua contribuição pessoal quanto a produzir direto no computador - há 10 anos, ele só desenha em mesa digitalizadora, fazendo apenas os rabiscos iniciais, a lápis, na prancheta. Mas ele ressalta que só há duas ferramentas realmente indispensáveis para se fazer quadrinhos: sua mente e sua mão.

Outro fator que torna McCloud um professor fantástico é o fato de ele conhecer tudo. Para exemplificar suas lições, ele busca quadros de todo o espectro das HQs, de Will Eisner e Art Spiegelman a Chris Ware e Craig Thompson. Ele também faz questão de colocar lado a lado mangás, quadrinhos de super-herói americanos e webcomics - ressaltando semelhanças, não suas diferenças. Ele admite apenas que conhece pouco quadrinho europeu, embora cite as obras de Hergé, Moebius, Lewis Trondheim, Marjane Satrapi e David B. Tudo, afinal, é gibi.

E, sem um pingo de pedantismo, McCloud trata cada um desses nomes como uma novidade para o leitor. Se você nunca ouviu falar de Eisner ou Tezuka, o autor explica o que eles fizeram e qual a sua relevância para as HQs atuais. Isso sem deixar entediado o leitor que já os conhece. Há educação para iniciantes e diversão para iniciados.

A questão mais importante em torno do novo livro de McCloud é o momento que ele escolheu para lançá-lo. Graphic novels estão em ascensão no EUA, tornando-se leitura de gente grande, reconhecida por uma audiência intelectualizada. Gigantes do mundo editorial investem em linhas de romances gráficos. Mangás chegam às listas de livros mais vendidos, caçados pelo público infantil. O mercado dominante dos super-heróis está em expansão. A ajudinha de Hollywood em promover HQs fora do gênero super-heroístico é bem contabilizada.

Este mercado em crescimento atrai aquele profissional jovem, talentoso, que há poucos anos buscaria outro ramo - quadrinhos pagavam muito mal. Com a expansão, criam-se novas oportunidades (leia-se: mais grana circulando no mercado). É aí que Making Comics entra. O talento desses novos profissionais, potencializado pelas lições de McCloud, só pode dar em coisa boa. Além da leitura agradável, do didatismo, da genialidade de cada diagrama e classificação, o livro vai gerar os próximos mestres dos quadrinhos.

Com toda esta importância, Making Comics merece a presença solo nesta Lá Fora. Desvendando os Quadrinhos é o livro de cabeceira dos autores que estouraram nos últimos cinco anos. Making, neste momento, está nas mãos dos caras que provavelmente elogiarei por aqui daqui a alguns anos.

Para encerrar, uma boa notícia: o novo livro ainda não tem data de publicação no Brasil, mas já está em processo de tradução pela M. Books, mesma casa dos livros anteriores de McCloud.

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