Lá Fora
HQ minimalista, HQ para meninas, HQ chorosa e, pasme, HQ com super-heróis
Na coluna "LÁ FORA", o Omelete lê e comenta os grandes lançamentos em quadrinhos nos Estados Unidos - ou pelo menos os lançamentos dignos de um olhar mais atento.
Curses
Curses
plain janes
don't go where i can't follow
justice
Kevin Huizenga pode ser o próximo grande nome dos quadrinhos alternativos nos EUA. Bom, pelo menos tem muito crítico e jornalista apostando nisso, lá fora. Seu estilo de HQ não tem nada de grandes inovações ou idéias fantásticas - são apenas tranqüilas, muito tranqüilas, pequenas histórias sobre o cotidiano, como refletir sobre as vidas dos seus vizinhos, reclamar dos pássaros que passam o dia inteiro piando ou contar uma história que leu num livro.
Curses é uma coleção de contos estrelados pelo alter-ego quadrinístico de Huizenga, Glenn Ganges - a forma que ele escolheu para representar-se nas HQs. Todas as histórias, como o nome do volume diz, parecem ter algo relacionado a maldições. Na mais chamativa delas, Ganges deve tirar a pena de um grifo para conseguir engravidar sua esposa - uma história surreal baseada em uma lenda italiana - e sai à procura do grifo pelas grandes avenidas do meio-oeste dos Estados Unidos.
Esta história, na verdade, destoa do resto do volume, que é mais pé no chão. Aliás, até pé no chão demais, chegando ao ponto daqueles quadrinhos autobiográficos nos quais você se pergunta se a vida do cara realmente tem algo de interessante para merecer ser grafada.
Em outras HQs, como na série Ganges, Huizenga aparentemente desenvolve mais seu lado surreal e brinca até com a forma dos quadrinhos. É quando, pelo que li até agora, seu trabalho realmente vale a pena. Sem estes pequenos toques, seus simplíssimos desenhos, que lembram às vezes o trabalho de Hergé, parecem uma aventura do Tintim onde simplesmente nada acontece.
Quem se interessar, já pode ler algumas histórias curtas de Huizenga neste site.
The P.L.A.I.N. Janes
Em outras épocas, a DC diria que "sacudir o mercado" era lançar um gibi adulto do Superman. Hoje, sabe-se que é preciso ir mais além. É necessário mudar o formato físico dos quadrinhos, mudar a linguagem e até explorar outras mídias, como é o caso da iniciativa ZudaComics.
A linha Minx é uma destas propostas. Pequenos livros em formatinho, histórias fechadas de 150 páginas preto-e-branco, narrativa simplíssima, com aventuras para o público feminino jovem. The P.L.A.I.N. Janes inaugura a linha, com roteiros de uma expert em romances para meninas, Cecil Castelucci, e um desenhista de menor destaque, Jim Rugg.
A história é interessante: após um atentado terrorista, a família de Jane muda-se da cidade grande para um pequeno subúrbio, onde não há muito o que fazer. Ela faz amizades no colégio que a estimulam a criar um coletivo artístico que vai dar um pouco de vida à cidadezinha sem graça: pintando paredes, distribuindo brinquedos, criando poesia inesperada com o cenário urbano - sempre na calada da noite, mantendo o anonimanto. As intervenções artísticas, porém, começam a provocar reações diversas pela cidade.
Obviamente, não sou o público-alvo da Minx. E não vou tentar me colocar na posição. Do meu ponto de vista, The P.L.A.I.N. Janes tem uma história bem escolhida, pontuada por vários momentos-clichê que tiram sua força. Mas o que interessa aqui não é isto, mas sim o fato de ser um produto feito para um público tradicionalmente avesso a quadrinhos, e que agora tem um bom material para criar esta relação com os gibis. Vale a pena torcer para que funcione.
Don't Go Where I Can't Follow
Achei que essa graphic novel ia me levar às lágrimas. É feita claramente pra isso. O autor, Anders Nilsen, conta a morte da namorada, por câncer, da forma mais dolorosa possível: com relatos de viagens dos dois, postais, fotografias, desenhos que fez enquanto ela estava no hospital, cartas e cartões trocados entre os dois. Todas as marcas deixadas de um relacionamento, que acabou muito jovem.
A única parte de quadrinho autêntico é a final, em que Nilsen dedica algumas páginas para contar o momento em que espalhou as cinzas da namorada no mar. O cenário é desolador, com o personagem sempre de costas e pequeno diante de grandes paisagens.
Para completar, esse título é arrasador se você conhece o tema da história: Não Vá Onde Eu Não Possa Te Seguir.
Anders Nilsen entra no segmento "arte" dos quadrinhos alternativos. Ele é, aliás, um artista plástico graduado. Suas ficções em quadrinhos (Dogs and Water, Monologues for the Coming Plague) são histórias que não fazem muito sentido, apesar de terem situações bem concretas, mas conseguem criar um clima soturno em que você se sente tocado mesmo sem conseguir uma compreensão racional do que está acontecendo. É esse seu grande trunfo: por um caminho que não se explica facilmente, ele consegue fazer você sentir algo.
No fim, não chorei. Não pela história ser ruim, muito pelo contrário. Provavelmente porque essas expectativas tão concretas que a gente cria sempre são superadas (melhores do que você esperava) ou derrubadas por terra (piores). No caso de Don't Go, foi a primeira opção.
Justice 12
Para não dizer que me esqueci dos super-heróis, fecho com uma HQ carregada em cores primárias de uniformes de cueca por cima das calças: Justice, a minissérie de Jim Krueger e Alex Ross com a aventura definitiva da Liga da Justiça.
Digo definitiva porque Krueger e Ross, quando estão juntos, parecem sempre querer criar épicos seríssimos. Buscar um limite, o máximo que se poderia fazer com os personagens que lhes foram dados. É o que aconteceu em Terra X (tenha você gostado ou não) e repetiu-se em Justice.
Quem está acompanhando no Brasil já sabe: a Sociedade de Super-Vilões cria o plano infalível contra a Liga, que consiste em resolver os problemas do mundo e denunciar os super-heróis por nunca terem feito nada para ajudar concretamente a humanidade - enquanto, é claro, derrubam os próprios heróis.
Este caráter épico, magnânimo, da história é o que torna a minissérie interessante. Krueger é um bom escritor (só às vezes resvalando para diálogos bastante clichê) e Ross, pintando sobre os desenhos de Doug Braithwaite, cria aquele show usual de design.
É a maior história já feita da Liga da Justica? Talvez. É a maior HQ de todos os tempos? Não. É legal e vale uma tarde de leitura com heróis da sua infância? Vale muito.
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