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Lá Fora

Fun Home, Shazam, Nextwave e The Dark Tower

Érico Assis
20.02.2007
00h00
Atualizada em
10.12.2016
23h04
Atualizada em 10.12.2016 às 23h04

Na coluna semanal "LÁ FORA", o Omelete lê e comenta todos os grandes lançamentos em quadrinhos nos Estados Unidos.

FUN HOME

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A idéia surgiu há poucos anos, mas já houve bastante discussão sobre quadrinhos serem ou não serem literatura. Eu sempre achei que não: quadrinhos são quadrinhos, uma arte à parte. Mas se você definir literatura de outra forma, dizer que HQs são "literárias" lhes dá uma aura artística que, sozinhas, talvez nunca tivessem alcançado.

Sejam quadrinhos literatura ou não, Fun Home, de Alison Bechdel, é uma HQ que foi eleita melhor livro do ano pela revista Time. Isto concorrendo com autores que fazem literatura só com palavras e sem desenhinhos. E foi a primeira vez que, lendo uma HQ, achei que estava lendo um livro.

Fun Home é sobre a sensação que você tem, ao crescer, de que a verdade sobre seus pais lhe passou despercebida durante a infância, e que havia muita coisa acontecendo com eles no mundo adulto enquanto você vivia na inocência. É a autobiografia de Bechdel - abertamente lésbica e autora de uma tira sobre o mundo homossexual feminino -, como ela descobriu que seu pai era um gay enrustido e como isso levou-o a uma morte trágica.

Lendo, você passa por aquele processo de imersão e "juntar-os-pedaços" que a boa literatura proporciona. Bechdel não faz muitas seqüências de ação temporal, que são típicas dos quadrinhos. Ela conta sua vida de forma não-linear, juntando as coisas por aspectos e não por cronologia. Foi provavelmente esse processo mais reflexivo, do encadeamento por idéias, que me colocou em um ritmo de livro - até com aquela coisa de você ler um capítulo por dia, para deixar a obra crescer em você - do que de quadrinhos.

Mas os desenhos estão lá, servem à história e não são mera ilustração. Para quem disser que a autora só fez uma autobiografia em HQ para diferenciar-se entre as milhares de autobiografias literárias, é só mostrar a cena da conversa entre Bechdel e pai, no carro, duas páginas quase no fim do livro. Narrativa gráfica brilhante, daquelas de mostrar em aulas sobre como fazer quadrinhos. Sem contar todas as vezes que os desenhos são utilizados como recurso para trazer mais informação ou enriquecer a história.

Fun Home foi um dos lançamentos editoriais mais celebrados do ano passado nos EUA. Merece todos os elogios. Seja para quem lê quadrinhos sérios, seja para quem lê literatura séria, sedimentou a idéia de que HQs podem ser arte, unindo os dois mundos. É possível que lance todo um mercado para ótimos quadrinhos destinados a um público não tradicional. E, se publicada no Brasil, é capaz de ter o mesmo efeito.

SHAZAM! THE MONSTER SOCIETY OF EVIL 1 (de 4)

Falando em públicos novos, esta minissérie era uma das mais esperadas pelo mercado norte-americano. Jeff Smith, criador de Bone, pega o tradicional personagem Capitão Marvel, da DC, e cria uma aventura para o público infantil.

Considerando que crianças quase não lêem mais HQ nos EUA, que é uma faixa etária importantíssima - um leitor infantil pode ser um leitor para o resto da vida - e que Bone é o melhor exemplo de HQ inteligente para crianças (que continua vendendo muito bem lá fora), é um lançamento de peso.

Como era de se esperar, o Shazam! de Smith já começa fantástico. Desenho e narrativa impecáveis, mais um roteiro que dosa humor tipicamente infantil com inteligência para agradar todas as idades. É de dar inveja em qualquer J.K. Rowling.

A primeira edição mostra a origem do Capitão e o prenúncio do mal que vai se abater sobre o mundo - a mini é uma nova versão de um clássico dos quadrinhos do personagem, quando ele passou mais de um ano enfrentando uma legião de vilões. Já tem ação suficiente para você salivar pelos próximos números.

NEXTWAVE 12

Assista uma dessas sátiras da cultura pop no Cartoon Network/Adult Swim, tipo Venture Bros. ou Harvey Birdman, e imagine uma grande e amalucada sátira do Universo Marvel, nos mesmos padrões. Warren Ellis e Stuart Immonen fizeram isso em Nextwave, que chega ao seu número final.

Ellis adotou o processo de criação mais estapafúrdio: pediu a amigos na Internet que lembrassem todos os heróis Marvel obscuros e que não vinham sendo utilizados. Selecionou Capitã Marvel (que toda hora diz "já fui líder dos Vingadores"), Fusão (da antiga X-Force), Homem-Máquina, Elza Bloodstone e criou um novo personagem, Capitão. O time Nextwave enfrenta as ameaças mais hilárias do Universo Marvel.

Os autores adotaram o escracho total - ou, como diriam os mais fervorosos, o sacrilégio. Fizeram os Sem-Mente de Dormammu dançar sapateado, brincaram com as calças roxas do dragão Fin Fang Foom e até, num momento certamente influenciado por drogas pesadíssimas, colocaram penteados à la Elvis numa nova série de MODOKs.

As piadas com Nick Fury, Os Supremos, Civil War e o resto da Marvel fechavam a comédia. Mesmo assim, Nextwave tinha algumas das melhores cenas de ação dos quadrinhos recentes, ressuscitando a veia "explosiva" que Ellis usava em Authority.

Immonen foi relocado para a série Ultimate Spider-Man, o que levou ao fim de Nextwave. Ele e Ellis prometem que voltarão aos personagens em minisséries e especiais, mas essas promessas dificilmente se cumprem. Apesar de ter sido curta demais, talvez seja melhor que Nextwave tenha saído de cena no seu ponto alto. Mas vai fazer falta.

THE DARK TOWER 1 (de 7)
Por Érico Borgo (convidado da coluna)

Quando surgiu a idéia de adaptar para os quadrinhos a mais longeva e querida obra de Stephen King, a editora Marvel Comics não poupou esforços: reuniu uma equipe de peso para levar A Torre Negra (The Dark Tower) aos quadrinhos.

Inicialmente, King escreveria ele mesmo a adaptação, mas afogado em compromissos, optou por apenas servir, pela primeira vez em sua carreira, como "diretor criativo" e "diretor executivo" - seja lá o que isso signifique numa história em quadrinhos. Robin Furth, sua colaboradora de longa data e organizadora do guia Stephen King's The Dark Tower: A Complete Concordance, ordenou a trama enquanto o veteraníssimo Peter David (Hulk) entrou para escrever o roteiro, que dá uma certa linearidade à história originalmente pontuada de flashbacks de Roland Deschain.

A primeira edição, "The Gunslinger Born", apresenta a origem do personagem - sua jornada rumo à maturidade e rito de passagem -, como contada no primeiro volume da série literária, mas deixando espaço para a prometida ampliação da saga, levando às páginas das HQs histórias nunca contadas da juventude do pistoleiro.

O início da minissérie em sete partes é empolgante e a arte de Jae Lee (Inumanos, Quarteto Fantástico Ultimate) está mais linda que nunca (destaque para a ferrenha luta entre Cort e Roland). As cores de Richard Isanove (Wolverine: Origem) também são uma atração à parte, carregada nos tons de terra.

A Marvel caprichou e não desperdiçou a oportunidade, portanto. A mini começa muito bem e tem potencial para desdobrar-se em novas séries e, talvez, gerar outras adaptações. Já imaginou um Dança da Morte, A coisa, O Iluminado ou outros clássicos de King adaptados com o mesmo esmero que A Torre Negra aos quadrinhos?

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