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Jack Kirby 100 anos | O último trabalho do Rei dos quadrinhos ao lado de Stan Lee

Surfista Prateado foi motivo de muita disputa entre a dupla e, também, o último quadrinho dos dois

Fábio de Souza Gomes
18.08.2017
19h18
Atualizada em
18.08.2017
19h33
Atualizada em 18.08.2017 às 19h33

Jack Kirby criou ao lado de Stan Lee grande parte do Universo Marvel como o conhecemos hoje, passando por heróis como X-Men, Thor, Hulk e o que deu início a tudo: O Quarteto Fantástico. Ao mesmo tempo que a história da dupla conta com muita criatividade, ela também apresenta muitas brigas e confusões. Os dois tiveram uma longa jornada e o último trabalho foi justamente com o herói que originou a maior disputa entre eles - o Surfista Prateado. 

No início dos anos 60, a dupla lançou O Quarteto Fantástico e transformou o modo que os fãs enxergavam a empresa e até mesmo a maneira de se fazer quadrinhos. Na época, Lee desenvolveu o Método Marvel, onde basicamente escrevia poucas páginas de roteiro, passava o texto para o ilustrador desenhar toda a revista e esperava ela voltar para suas mãos para adicionar os diálogos. Com isso, a criação era praticamente conjunta e o desenhista tinha liberdade para desenvolver a história. Kirby, talentoso como era, muitas vezes melhorava a HQ, refinando a relação entre os personagens principais.

Um dos grandes exemplos é justamente no Quarteto Fantástico, onde Stan Lee imaginou originalmente que Sue Storm e Tocha Humana não conseguiriam “desligar” os seus poderes. Kirby, por sua vez, acreditava que se o temperamental Coisa fosse o único prejudicado geraria mais conflito e, então, alterou esses detalhes em relação ao plano inicial de Lee.

Os artistas sempre conversavam sobre suas ideias antes de começar um trabalho, mas um dia Kirby decidiu desenhar um Surfista de prata ao longo dos quadrinhos para auxiliar o vilão Galactus – e não consultou Lee. “Eu estava esperando o quadrinho voltar para mim e mal podia esperar para começar a escrevê-lo. De repente, enquanto olhava os desenhos, eu vejo um doido em uma prancha voando pelo céu. Eu pensei, ‘Jack, dessa vez você foi longe demais’”, afirmou Lee segundo o livro Kirby: King of Comics, de Mark Evanier.

Contudo, não demorou muito para eles entenderem o potencial do Surfista. O personagem, que apareceu pela primeira vez em 1966, fez sucesso com o público por conta de seu visual e começou a ganhar cada vez mais espaço. Pouco tempo depois, Kirby decidiu criar uma história do Quarteto Fantástico que completasse o passado do Surfista e passou cerca de dois anos trabalhando na ideia. Ele estava satisfeito com seu trabalho e esperava publicá-lo em breve, porém recebeu uma notícia que abalou de vez a relação dos dois.

Lee decidiu lançar em 1968 uma série solo do Surfista Prateado, mas chamou John Buscema para desenhar. Não bastando, a primeira edição mostraria a origem do Surfista escrita por Lee – que era totalmente contrária a de Kirby. Jack via o herói como uma criatura formada de pura energia, que nunca foi humano ou qualquer outro ser (o que explicaria por que ele perguntava para os terráqueos o que era amor, ódio e diversos sentimentos). Na história de Lee, ele era um homem de um lugar distante que sacrificou sua humanidade para salvar seu planeta e a mulher que amava da destruição de Galactus, tornando-se arauto do Devorador de Mundos. Não demorou muito para relação dos dois se deteriorar e levou a separação da dupla.

Em 1970, Kirby deixou a Marvel e passou um breve período na DC Comics, onde trabalhou em títulos como The Sandman com Joe Simon. Contudo, segundo o livro A Identidade Secreta dos Super-Heróis, de Brian J. Robb, o desenhista se viu tão frustrado quanto na outra editora. Pensando em largar a indústria, ele ainda voltou para Casa de Ideias em 1975 para escrever e desenhar o Capitão América, criar os Eternos e realizar seu último trabalho ao lado de Lee.

No final dos anos 70, um produtor chamado Lee Kramer sugeriu para Stan Lee criar um filme baseado no Surfista Prateado. Contudo, como os direitos cinematográficos do Quarteto Fantástico estavam negociados com uma outra produtora, o Surfista precisaria de uma nova história sem ligação nenhuma com os heróis, apenas com a presença de Galactus. Então, o executivo sugeriu um novo quadrinho que servisse de base para o filme. Foi assim que Lee e Kurby se reuniram uma última vez para trabalhar em uma espécie de Graphic Novel arcaica chamada The Silver Surfer – The Ultimate Cosmic Experience. Caso o filme saísse do papel, a dupla lucraria muito com a produção. 

A ideia seria a mesma da história clássica: Galactus chega até a Terra, o Surfista vê potencial nos humanos e acredita que eles não devem ser destruídos, luta contra o vilão e ele deixa o planeta. Contudo, o produtor namorava a atriz Olivia Newton-John na época e, por isso, eles criaram um interesse romântico para o herói – Ardina. 

Na HQ, Galactus cria a versão feminina do Surfista para tentar convencê-lo a voltar ao seu lado, mas a mulher acaba se apaixonando pelo herói, traí Galactus e, por conta de sua traição, é morta pelo vilão. No final da história, o devorador de planetas obriga o surfista a voltar a ser seu arauto ou ele destruiria a Terra. O herói realiza seu sacrifício final e abandona o planeta para voltar a servir o vilão. 

Apesar do trabalho de Kirby ser tão bom quanto qualquer outro, Stan Lee ainda convocou John Buscema para “arrumar” parte dos quadrinhos e ainda substituiu a capa criada pelo Rei por uma arte pintada por Earl Norem.

Eventualmente, o filme acabou cancelado e Kirby ficou saturado da indústrias dos quadrinhos, o que o levou a deixar a Marvel para explorar animação de televisão. O trabalho da dupla é marcado por muita disputa e muita polêmica, porém a contribuição dos dois para o mundo do quadrinho é inegável.