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<i>O Diabo Coxo</i>, de Angelo Agostini, agora em edição facsimilar

<i>O Diabo Coxo</i>, de Angelo Agostini, agora em edição facsimilar

Waldomiro Vergueiro
28.04.2005
00h00
Atualizada em
03.11.2016
04h10
Atualizada em 03.11.2016 às 04h10

Antigamente, era muito difícil obter exemplares de publicações de humor gráfico editadas pela imprensa nacional do século 19, talvez o período mais rico nesse tipo de atividade intelectual desde o início da imprensa no país. Foi a época em que pontificaram artistas como Manuel de Araújo Porto Alegre, Angelo Agostini, Henrique Fleuiss, Bordalo Pinheiro e Cândido Aragonês de Faria, nomes até hoje emblemáticos na área da linguagem gráfica seqüencial, da charge e da caricatura. Felizmente, aos poucos, essas dificuldades, embora não tenham deixado de existir, foram diminuindo de modo significativo, em grande parte pela iniciativa de algumas editoras de publicar obras completas de periódicos ilustrados desse período, possibilitando a novas gerações de leitores se familiarizar com a verve, a sutileza e mesmo a ferina ironia que perpassava aquelas produções.

A obra de Angelo Agostini tem sido especialmente privilegiada como objeto de republicações facsimilares, para gáudio e felicidade de todos os que admiramos o trabalho desse grande precursor da linguagem gráfica seqüencial.

Em 2000, a editora da UNESP e a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo fecharam o século 20 com a segunda edição da publicação facsimilar do Cabrião, o semanário humorístico editado em São Paulo por Ângelo Agostini, Américo de Campos e Antônio Manoel dos Reis, de 1866-1867. Mais recentemente, em 2002, por iniciativa do pesquisador Athos Eischler Cardoso, a gráfica do Senado Nacional publicou As aventuras de Nhô Quim e Zé Caipora: os primeiros quadrinhos brasileiros 1869-1883, uma obra que veio resgatar a atuação do ítalo-brasileiro no campo das histórias em quadrinhos, evidenciando o seu papel de vanguarda na construção de uma narrativa totalmente baseada em recursos gráficos. E, por fim, este ano, a Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP), em co-edição com a Academia Paulista de História e apoio institucional do Centro Integração Empresa-Escola (CIEE) disponibilizou outra obra de capital importância na trajetória gráfica de Angelo Agostini, o jornal O Diabo Coxo, editado em São Paulo entre os anos de 1864 e 1865. O volume surge como obra inaugural da coleção Ad Litteram: São Paulo em Fac-símile, criada pela Academia Paulista com a finalidade de fazer com que obras importantes da historiografia paulista, esgotadas e de interesse para a cultura do estado, tornem-se acessíveis a estudiosos, pesquisadores e interessados em geral.

Não poderia ter a Academia Paulista realizado melhor escolha. De fato, o pequeno jornal semanal O Diabo Coxo representa um aspecto muito importante e ainda não suficientemente estudado da produção de Angelo Agostini, refletindo o início da atividade desse grande artista do traço e constituindo-se, também, no primeiro jornal ilustrado de caricaturas da cidade. Nele, o autor desenvolveu muito de sua verve satírica, atingindo sem piedade os políticos e a sociedade de então. Batizando sua publicação com o mesmo título de duas obras literárias de muito sucesso na Europa, publicadas, respectivamente, nos séculos 17 e 18 - El Diablo Cojuelo, do espanhol Luís Vélez de Guevara, e Le Diable Boiteux, do francês Alain René Lesage -, bem como de diversas publicações periódicas européias com as quais devia estar familiarizado, Agostini buscava com ele expressar o seu objetivo primordial de devassar os costumes da sociedade que o havia acolhido. Um objetivo que, diga-se de passagem, atingiu plenamente com essa publicação e as muitas outras que lhe seguiram.

Trata-se uma publicação importante no resgate da memória do humor gráfico no país. Esta importância se torna ainda mais evidente quando se considera que, como menciona o professor Antonio Luiz Cagnin na brilhante e erudita introdução que elaborou para a edição facsimilar, da publicação original do Diabo Coxo existe hoje apenas uma coleção completa: a que se encontra na seção de Obras Raras da Biblioteca Municipal Mário de Andrade, tendo sido a ela incorporada em 1996. Assim, graças à iniciativa da Academia Paulista de História e seus apoiadores, os estudiosos e admiradores do trabalho do santo padroeiro das histórias em quadrinhos no Brasil, não terão mais que enfrentar as esperas intermináveis ou lutar, muitas vezes sem sucesso, contra as armadilhas do esquema burocrático montado para proteger - e com razão! -, obras originais de tão longa data dos percalços do tempo, do meio ambiente e do uso indevido. Agora, qualquer pessoa poderá ter acesso a todo esse aspecto da obra de Agostini em um único e bem elaborado volume, com a qualidade gráfica e editorial que um trabalho dessa natureza merece. Trata-se de uma iniciativa muito bem-vinda e necessária que apenas enobrece aqueles que nela estiveram envolvidos e que muito virá a contribuir para o melhor entendimento desta fase da vida paulistana e da produção do maior artista gráfico que este país já teve.

Diabo Coxo: São Paulo, 1864-1865: edição facsimilar, publicado pela Editora da Universidade de São Paulo, custa R$ 65.00.