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<i>Musashi</i> I e II de Shimamoto: HQs ideogramáticas e filosóficas!

<i>Musashi</i> I e II de Shimamoto: HQs ideogramáticas e filosóficas!

Gazy Andraus
20.10.2003
01h00
Atualizada em
02.11.2016
12h02
Atualizada em 02.11.2016 às 12h02
Musashi - Volume I
Musashi - Volume II

A linguagem da escrita evoluiu em dois sentidos: o ideogramático e o fonético. A maioria das línguas utiliza a segunda, na qual cada grafema significa um som vocal. Já na língua chinesa e parte do aprendizado da japonesa, cada símbolo apresenta-se como uma imagem desenhada, que guarda certa semelhança com o objeto original, estratificando-se como uma escrita de ideogramas.

Pode-se dizer, então, que as histórias em quadrinhos estão mais próximas dos ideogramas orientais, do que dos fonemas, em sua maioria ocidentais. Isto talvez explique, em parte, o sucesso dos mangás como leitura não preconceituosa no Japão. E talvez explique, também, os traços caligráficos de um dos mais importantes autores dos quadrinhos brasileiros, Julio Shimamoto.

É certo que um ritmo de vida alucinado e as instabilidades de se viver num Brasil politicamente duro têm forçado a maioria dos profissionais de quadrinhos a elaborarem roteiros curtos e diretos, com traços nervosos e díspares, das quais constituem excelente exemplo as imagens que Shimamoto realiza. Mas é também verdade que sua herança cultural nipônica influenciou seu estilo, que passa ao largo do padrão-mangá em muitos pontos, enquanto conserva dele o ritmo ágil de ação visual.

No entanto, o mais interessante na estética única desse autor pode ser apreciado em seus dois álbuns do samurai Musashi: altos contrastes de preto e branco, narrativa fluída, e o principal, formas e paisagens pintadas como se fossem puros ideogramas!

A narrativa visual das histórias de Shima desencadeia-se numa sintaxe ideogramática rica, metáfora da própria escrita imagética oriental (é como se ele estivesse fazendo quadrinhos como ideogramas, e não como fonemas, se tal comparação fosse possível). Isto fica bem nítido na história Duelo de instintos (Musashi II), em que o autor conta como o samurai apreciava realizar pinturas e arte caligráfica (os quadrinhos de Shima, na página de abertura desta narrativa, são puros ideogramas travestidos em forma de desenhos seqüenciais, mostrando o momento em que o guerreiro executa uma pintura em p & b).

Porém, o que mais se destaca nestes dois álbuns (principalmente no segundo) são os roteiros, que trazem, além de um pouco da história e cultura do Japão feudal e seus samurais, a rica filosofia milenar oriental, bem distinta da européia. Para os orientais, principalmente no Taoísmo e Budismo, a mente racional é falha, pois pretende se impor sobre a mente completa, cósmica, por assim dizer. Alguns aspectos dessa dualidade estão na história Remorso, no volume I de Musashi, assim como a parábola taoísta de A bela donzela, na qual se definem claramente os aspectos da mente e suas trapaças, que iludem os seres em busca de iluminação. Todavia, em Musashi II, a narrativa de uma página Uma aula de esgrima abre o álbum com um diálogo zen comparando a natureza real da fama à fumaça volátil... quem quiser que o entenda! Da mesma forma, em O garotinho-prodígio, pode-se aprender um pouco de lógica matemática (e até retórica, dependendo do ângulo abordado...).

Enfim, a criatividade do autor Shimamoto, aliada à sua vontade de retransmitir um pouco da filosofia de seus conterrâneos, metaforizou-se e se refletiu nas histórias em quadrinhos de Musashi (seu alter ego na arte?), que, por sua vez, é um espadachim de estilo nulo (pois então único, como Shima na arte seqüencial), tendo sido inclusive venerado e temido justamente por isso, pois cada movimento seu era sempre novo.

Se o texto racionalizado e fonético refletindo o pensamento ocidentalizado é parte necessária da aculturação da civilização humana, a imagem ideográfica nos quadrinhos surge como uma necessidade ontológica de reatamento do homem à natureza, refletindo a mente intuída, renovada e sempre criativa. E, neste caso, ela está representada de forma soberba nestas duas pérolas reflexivas em forma de quadrinho adulto.

Musashi I (Col. Opera Brasil, n. 3, 2002), II (Col. Opera Brasil n. 12, 2003).

Ambos no formato Álbum, p&b, capa colorida.

Preço: R$ 12,90 cada.

Publicação da Opera Graphica Editora.

Gazy Andraus é pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, doutorando em Ciências da Comunicação da ECA-USP, bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.