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<i>Areia hostil</i> - Quadrinhos independentes em Rio Grande

<i>Areia hostil</i> - Quadrinhos independentes em Rio Grande

Érico "Orph" Assis
13.03.2003
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h13
Atualizada em 21.09.2014 às 13h13

A capa é uma serigrafia simples, bem impressa, mas com alguns borrões. O interior é de papel jornal, e os desenhos com um pouco mais de detalhe já ficam prejudicados. Em formatinho, fininho, por três reais... É difícil confiar.

Mas isso ficou só para a primeira edição. Já no número 5, esta revista, gaúcha de Rio Grande, traz uma qualidade gráfica e editorial de dar inveja. Reunindo trabalhos de seus alunos no curso Top Comics, os editores Law Tissot e Lorde Lobo criaram a Areia hostil em 2001 e, desde então, continuam firmes e fortes levando cada edição com um esforço também de dar inveja.

A Areia hostil nasceu destes dois professores e empreendedores que não só queriam publicar o trabalho de seus alunos, mas também os próprios e, certamente, de outros autores brasileiros e do mundo. O número 5 já trouxe um trabalho do ótimo quadrinhista porto-alegrense Odyr, e o número 6 virá com uma colaboração do veterano Emir Ribeiro. Para o futuro? Deixo um pouco nas mãos da sincronicidade, diz Law Tissot.

Quando começamos a pensar em trabalhar com quadrinhos, não havia quem nos desse dicas sobre o assunto, o material de pesquisa era pouco. As soluções tiveram que ser garimpadas com muito esforço e quebrar de cara, diz Lorde Lobo, editor da revista. Isso nos motivou a querer auxiliar esta nova galera dos quadrinhos, fazendo com que eles não passem pelas mesmas dificuldades. Foi partindo daí que ele e Law criaram a Top Comics, um curso teórico e prático sobre histórias em quadrinhos, desenvolvido na Escola Municipal de Belas Artes Heitor de Lemos, em Rio Grande. A Areia hostil veio do engajamento da primeira e segunda turma do curso, em 2000.

Indo um pouco mais longe, quem é esse pessoal?

Law, ou Laurício Tissot, 34 anos, é conhecido entre os rio-grandinos por sua antiga loja de quadrinhos, única no interior do estado, a Fator X. Bem, eu sempre fui muito punk. Sempre dentro de alguma garagem produzindo microfonia e desenhando sem parar, diz ele, que está metido em fanzines desde 1984. Seus desenhos são uma mistura de Jack Kirby com H.R. Giger, de paisagens futuristas sujas e punks, em preto-e-branco, com vários toques de psicodelia à Grant Morrison. Essa coisa cyberpunk, que eu faço, nasceu mesmo no meio dos anos 80, com Max Headroom, Liquid Sky e Sigue Sigue Sputnik. Fiz coisas que foram distribuídas pela Europa por intermédio de amigos da cena alternativa em Portugal. Mas a melhor experiência com HQs foi mesmo o Cybercomix. Law participou do website de quadrinhos brasileiros no final dos anos 90, e diz que a experiência colocou-o nos eixos dos gibis. Agora legitimar isso dentro de uma universidade é outra experiência que está sendo bastante positiva.

Lorde Lobo - Alexandre Cozza, 30 anos - foi pelo caminho diferente, começando sua carreira profissional em jornais, revistas e informativos internos de empresas. Sou Arte-educador, formado pela FURG, jornalista ilustrador, e agora um quadrinhista independente apaixonado pela Nona Arte. Lobo inclusive levou as HQs para seu projeto de mestrado em Educação Ambiental - De que forma os quadrinhos podem auxiliar na Educação Ambiental?. O desenhista-editor-professor prefere um estilo mais simples, optando pelos quadrinhos cômicos com sua personagem Top Man.

Ambos acreditam que a motivação para persistir nos quadrinhos brasileiros é a mesma: amor a mídia e vontade de publicar seu próprio material. Lobo: O que vale ainda é aquela história de ‘criar soluções dentro das crises’, ou seja, tínhamos muita vontade de publicar nossos quadrinhos, manifestar nossas artes, só não tínhamos por onde. Para Tissot, a perspectiva é um pouco mais revolucionária, mas ainda apaixonada: Sempre acreditei que existe uma força salvadora para os quadrinhos brasileiro se investirmos nestes pequenos - mas eficientes - focos urbanos de arte-resistência. A nossa motivação vem disso mesmo: que nossa aldeia saiba que existimos. Nunca perdi a fé no quadrinho brasileiro - amo os quadrinhos de forma universal, mas amo muito mais o que foi feito no Brasil.

A Areia hostil, respeitando esse intuito, já está trazendo trabalhos de diversos artistas brasileiros, e busca novos colaboradores. Queremos conhecer as artes e idéias de qualquer um, de qualquer lugar do Brasil. Escrevam para nós: topcomics@bol.com.br. Temos algumas exigências técnicas, simples, e nosso lema é ‘quadrinhos sem preconceito’, convoca Law. É claro que nem tudo que chegar até nós poderá ser publicado, mas estamos trabalhando numa solução para isso através do site, que em breve estará no ar, complementa Lobo. O site atual fica em http://www.areiahostil.hpg.com.br/.

Para o futuro? Fazer a revista vender, cantam os dois, mencionando também a necessidade de criar um ritmo de publicação bimestral, mas, claro, o negócio, por enquanto, é manter o idealismo. É claro que não estamos falando de lucro financeiro inicial, diz Lobo, mas o que nos motiva a continuar publicando é o fato de até hoje ela existir por si própria, ou seja, nunca tivemos que tirar dinheiro do nosso bolso. A revista é patrocinada por diversas empresas de Rio Grande.

O lucro é saber que estamos contribuindo, de alguma forma, com o quadrinho brasileiro, adiciona Law. Claro que queremos grana, mas isso não é o fundamental. Fazer quadrinhos é visceral, e isso não tem preço.