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Artigo

HQ: <i>Zé Carioca: 60 anos</i>

HQ: <i>Zé Carioca: 60 anos</i>

José Aguiar
10.11.2003
01h00
Atualizada em
07.02.2017
16h01
Atualizada em 07.02.2017 às 16h01

E não é que o Zé Carioca agora é sexagenário?

Comemorando esse importante fato, a Editora Abril está lançando o especial Zé Carioca 60 Anos, uma edição caprichada de 132 páginas na qual os leitores poderão conferir a evolução da mais abrasileirada das personagens estrangeiras. Ou vai me dizer que você não sabia?

Assim como a maioria das criações com o pedigree Disney, nosso querido papagaio também tem origem gringa. Na verdade, começou pelas mãos dos artistas Bill Walsh e Bob Grant, numa deliciosa sequência de tiras de jornal datada de 1942: Como almoçar de graça!. Já de cara, dava um jeitinho para contornar a falta de grana e descolar um rango na faixa. O curioso é que o aniversário de Zé é comemorado com um ano de atraso, pois seu nascimento oficial foi sua estréia em desenho animado, no ano seguinte, em Alô, amigos, filme recentemente lançado em DVD no Brasil. Ou seja, malandro mesmo é quem mente a idade!

Num acabamento semelhante ao dado à recente Saga do Tio Patinhas, de Keno Don Rosa (que, por sinal, assina a capa desta edição), o volume é acrescido por textos que introduzem o leitor aos bastidores da concepção de Zé. Para melhor representar sua evolução, foram selecionadas HQs típicas de cada período.

Na primeira fase, o papagaio esteve sob a tutela de autores norte-americanos. Além da história citada anteriormente, temos A volta dos três cavaleiros na qual, ao lado do galo Panchito, nosso conterrâneo vai a Patópolis visitar (e atazanar) o amigo Donald. A dupla de estrangeiros é retratada como dois bobalhões meio simplórios.

Somente na fase seguinte, o malandro teve suas façanhas narradas por artista nativos, ou quase. Antes, porém, em 1955, foi produzida Campeão de futebol, HQ na qual (pasmem!) descobrimos que, até então, o carioquíssimo Zé não sabia jogar bola! Obra do artista argentino Luís Destuet. Seria revanchismo?

Em 1960, foi a vez de A volta do Zé Carioca, o primeiro episódio 100% nacional do louro boa-praça. De cara, ele está desembarcando no Rio, depois de anos em Hollywood. Nada mais apropriado para o momento em que a personagem é enfim, adotada por seu país. Roteiro e arte aqui foram cortesia de Jorge Kato. Curiosamente, no rastro de Zé, quase toda a turma Disney desembarca no Rio para curtir o Carnaval, fato curioso que se mantém em Zé carioca contra o goleiro Gastão (1961). Nesta aventura, a turma de Donald habita um Rio de Janeiro com cara de Patópolis. Curioso ver o almofadinha Gastão encarar, num treino da selação brasileira, o talento do jogador Peleco. Novamente, temos o traço de Kato, cuja anatomia das personagens é quase real, deixando-as com curiosas proporções para quem tem cabeça de bicho.

Um festival embananado, com roteiro de Cláudio de Souza e a ilustração mais moderna de Waldyr Igayara de Sousa, levou o papagaio a participar, em 1968, de um dos Festivais de música que fizeram a cabeça da juventura da época. Zé Carioca já estava quase amadurecido para a nova fase que viria nos anos 70.

Expoente desse momento particularmente inspirado é o trabalho de Renato Canini, cuja obra no universo de Zé carioca está representada em O leão que espirrava (sua estréia nas HQs do papagaio em 1971) e O Morcego Verde (1975). É nesse período que o protagonista abre mão dos até então inseparáveis chapéu, terno e guarda-chuva em troca de um visual mais contemporâneo. Já de camisa branca e menos empolado, encontra O saci (1979, roteiro de Paulo Paiva e arte de Carlos Herrero), seus primos de diferentes paragens do Brasil em Vinte anos de Sossego (1981, escrito por Gerson Teixeira com desenhos de Roberto Fukue) e a dupla Johr Giamado e Graetano Velhoso em Um carioca à baiana (1997, roteiro de Genival de Souza e arte de Luís Podavin). No periodo compreendido entre essas histórias (dos anos 70 aos 90), surgem novos coadjuvante e a Vila Xurupita, o real lar de Zé e sua turma. Inclusive o visual do protagonista vai sofrendo sutis alterações: a camisa vira camiseta; ele deixa de andar descalço para usar tênis coloridos e boné virado pra trás. Até a camiseta, por fim, acaba estampando um (cá entre nós: cafona) círculo preto com a letra Z grafada dentro.

Concluindo a edição, termos a quarta e atual fase em que o louro se encontra. Sem histórias novas desde 2001, as atuais edições de sua revista, desde então, vem trazendo publicações de material antigo, o que mantém sua popularidade no Brasil e na Holanda, único país a ainda produzir material com Zé Carioca e Panchito. Material este representado pela única HQ desnecessária na edição: Panchito é uma produção do estúdio Comicup e nosso aniversariante sequer dá as caras em suas cinco páginas, que apenas acrescentam volume à edição. Por sinal, até mesmo a bela capa de Don Rosa não faz jus ao protagonista, que mal aparece em meio aos amigos. Valeria a pena ter sido criada uma arte exclusiva para um momento tão especial.

Por fim, fica a alegria da primeira HQ inédita de Zé em quase dois anos: Nestor, o Destatuador, cortesia de Artur Garcia Jr. (roteiro) e Eli Léon (desenhos). O bacana dessa volta é que, no texto introdutório, menciona-se o tempo gasto em sua produção. Informação curiosa e um pouco desmistificadora a respeito dos bastidores de um gibi. Um pequeno quitute para os iniciantes nas artes dos quadrinhos. Isso, aliado ao fato de os créditos dos artistas nacionais finalmente estarem presentes numa publicação Disney, também é outro motivo de festa! Afinal, até há poucos meses, não era praxe que estes fossem mencionados sequer nas HQs gringas. Outros pontos positivos são as legendas que situam o leitor quanto as referências da época em que a HQ em questão fora realizada.

Uma edição tão importante até merecia um acabamento gráfico melhor, digno de colecionador, mas nem por isso perde o brilho e a relevância no momento atual. Resta torcer agora que essa iniciativa dê novo fôlego a novas produções com este papagaio importado que tanto penou para ser, acima de tudo, nosso.