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HQ: <i>Lanfeust de Troy</i>

HQ: <i>Lanfeust de Troy</i>

Pedro Hunter
29.08.2003
00h00
Atualizada em
11.12.2016
09h07
Atualizada em 11.12.2016 às 09h07
Fundada em setembro de 1988 por Mourad Boudjellal, a editora francesa Soleil Production estava tendo dificuldades em se estabelecer no disputado mercado de quadrinhos francês. Concorrendo com gigantes como Dargaud e Glénat, a pequena empresa baseada em Toulon que publicava essencialmente criadores novos precisava de um grande sucesso para não ser sufocada pelas rivais. Em 1994, este sucesso finalmente deu as caras: Lanfeust de Troy, bem-humorada série de fantasia em oito volumes que vendeu milhões de exemplares em seu país de origem, gerando várias continuações, inúmeras cópias e até a publicação mensal Lanfeust magazine, revista oficial da Soleil que serializa os vários álbuns da editora antes de seu lançamento em livrarias. E agora este trabalho revolucionário está finalmente sendo publicado aqui no Brasil pela Devir Livraria.

Lanfeust mostra as desventuras da personagem-título, um habitante do mundo de fantasia de Troy, onde todas as pessoas possuem algum tipo de poder mágico. O de Lanfeust é o de fundir metais e ele vive calmamente em sua aldeia até a aparição do Cavaleiro Orazur, dono de uma espada cujo cabo é feito do marfim do animal mítico Magohamot que, em contato com Lanfeust, concede-lhe o mítico poder absoluto. Tal descoberta promete revolucionar a existência em Troy e o herói, acompanhado pelo sábio Nicoledus e suas filhas Cissi e C’ian, deve ir à capital Eckmül para transmitir a novidade aos sábios de lá. Durante a jornada, o grupo enfrenta diversos perigos, incluindo o troll Hebus, que acaba por se juntar à trupe depois de ser enfeitiçado por Nicoledus.

Neste resumo, a história parece uma coleção dos maiores chavões de fantasia. Um mundo exótico, criaturas estranhas, nomes esquisitos, heróis partindo em uma missão da qual depende o destino de tudo mais. Todas idéias que já eram batidas quando Tolkien fez sua obra. O que separa este gibi das milhões de outras HQs de fantasia similares são dois fatores: o carisma dos protagonistas e o bom-humor que permeia toda a história.

O escritor Arleston (pseudônimo de Christophe Pelinq) cumpre a difícil tarefa de transformar um conceito malhado como esse em uma HQ realmente interessante. Faz isso na força da caracterização distintiva que dá às personagens (destaque para o divertido Hebus, um monstro sanguinário que acompanha o grupo contra sua vontade e não se esforça em disfarçá-lo...), nos seus diálogos impagáveis e num equilíbrio cuidadoso para que a ironia com que trata as convenções do gênero não despenque para o deboche escancarado. Ele cumpre seu dever com grande eficiência.

O ilustrador Didier Tarquin demonstra mais limitações. Embora seja dono de um estilo bonito e expressivo e domine com habilidade a narrativa da escola franco-belga, sua arte ainda é algo inconsistente. Desenha algumas cenas de forma muito confusa e é propenso a erros de continuidade (afinal o ferreiro Gramblot queimou o dedo de que mão?). Também não fez uma capa particularmente chamativa para essa primeira edição. Tem, no entanto, potencial. Resta é saber se conseguiu realizá-lo ao longo da série, já terminada na França.

Vale mencionar, Lanfeust é um trabalho desavergonhadamente comercial. Quem disse que HQ européia precisa ter pretensões artísticas? Ela se propõe apenas a contar uma história interessante e divertir os leitores. Isso não é um problema.

Problemas, aliás, tem é a edição nacional. Diferente dos outros álbuns da Devir, este está repleto de erros de português. Mesmo a página de apresentação das personagens tem diversos equívocos de concordância e ortografia (por exemplo um “garda” ao invés de “guarda”). Considerando que quatro pessoas participaram da tradução/adaptação/letreiragem da história, o número de deslizes do produto final é simplesmente vergonhoso!

Outra peculiaridade da edição nacional está na tradução. Na contracapa temos “Todo mundo tem um poder mágico, quer ele seja grande ou pequeno, útil... ou não! Uma pessoa consegue congelar a água, outra consegue mandar luzes pelos olhos...”, sendo que a tradução mais fiel do original seria “(...), outra consegue soltar peidos coloridos...”. Admiro a nobre intenção da Devir em querer suprimir vulgaridades, mas acho que, se isto é um fator, a editora deveria ter considerado publicar um gibi menos vulgar do que este...

Também fica a dúvida se a Devir será capaz de lançar todos os oito álbuns no Brasil (que incluem, no segundo, a aparição do vilão da história, Thanos, mencionado na página de apresentação, mas ausente neste primeiro título). Nenhuma HQ francesa consegue esse feito por aqui há mais de uma década!