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Artigo

HQ: <i>Cowboy Bebop</i>

HQ: <i>Cowboy Bebop</i>

Waldomiro Vergueiro
03.06.2004
00h00
Atualizada em
02.11.2016
06h00
Atualizada em 02.11.2016 às 06h00

Mais um mangá nas bancas brasileiras. Talvez para não destoar da maioria dos quadrinhos japoneses já publicados por aqui, mais uma produção ligada aos meios de comunicação de massa, diretamente oriunda de um desenho animado. Seria possível até dizer que isso são coisas da globalização, mas e preciso lembrar que esse trajeto já era feito pela indústria de massa bem antes que alguém cunhasse o termo. Até aí, nenhuma novidade à vista, a não ser o título da revista - Cowboy Bebop -, que pela primeira vez aparece em nosso país.

A ligação com o gênero de histórias ambientadas na época do desbravamento do oeste americano - o faroeste -, aparece no próprio título e não é à toa: a série incorpora, em um ambiente de ficção científica, a figura dos caçadores de recompensas desse período, reproduzindo uma sucessão de caçadas, lutas e duelos semelhantes aos que os leitores se acostumaram a ver nos chamados filmes de bandidos e mocinhos (já a outra palavra do título Bebop, diz respeito ao nome da nave espacial com a qual os protagonistas caçam os procurados pelo cosmo afora e que, pelo menos no mangá, pouca importância tem...). Essa é uma abordagem bastante comum nos meios de comunicação, tanto de um sentido como do outro (quem não se lembra, por exemplo, de Sete homens e um destino, de 1960, a transposição para o gênero faroeste de Os sete samurais, uma obra-prima de Akira Kurosawa, realizada seis anos antes?) Também aí, nada de novo.

Dirigido por Shinichiro Watanabe, o desenho animado que deu origem aos quadrinhos e ao filme, foi um grande sucesso da TV japonesa, sendo depois exportado para o mundo inteiro, onde em geral replicou a receptividade recebida em seu país de origem. O gibi surgiu no mesmo ano da série de TV, 1998, pelas mãos do desenhista Yutaka Nanten, que procurou manter o mesmo espírito do desenho animado, embora buscando novas histórias e aventuras para os protagonistas, que representam modelos bastante familiares para os aficionados de mangás e atendem de forma eficiente àquilo que se propõe para eles. O líder do grupo, um galã rápido no gatilho, lutador de artes marciais e com um passado obscuro (Spike); a mocinha ousada, sempre em disputa com o líder e talvez secretamente apaixonada por ele (Faye Valentine); a voz da experiência, presente na personagem mais velha da equipe, um ex-policial com partes mecânicas enxertadas em seu corpo (Black Jet); uma adolescente especialista em computadores, que pode penetrar as defesas de qualquer sistema eletrônico (Ed); e um cachorro desenvolvido em laboratório, que se torna o mascote do bando e é responsável por momentos de hilaridade na série televisiva (Ein), representam um grupo bastante heterogêneo em constante interação, garantindo uma narrativa com um ritmo ágil, capaz de agradar a todos os leitores que buscam o mangá primordialmente como forma de distração.

Como diria uma velha propaganda de televisão, o título que chega às bancas brasileira não é, digamos assim, uma Brastemp, mas consegue atender satisfatoriamente às expectativas. Com personagens interessantes, adversários pitorescos (no primeiro número, os heróis buscam receber a recompensa pela captura de um travesti, que têm que libertar de uma prisão de segurança máxima), ocorrências divertidas (o protagonista passa por uma situação bastante constrangedora ao se disfarçar como detento na prisão em que se encontrava o travesti...) e com muita ação, a revista representa uma leitura que prende a atenção e faz com que o virar das páginas ocorra de maneira uniforme, sem paradas ou diminuição do ritmo dos acontecimentos. Embora não traga grandes ousadias narrativas ou gráficas - dificilmente alguém fará OOOOOOOHHH!!! ao ler a história, como acontece com algumas outras obras provindas do mercado japonês -, trata-se de um produto eficiente, para dizer o mínimo, que cumpre aquilo a que se pretende. Considerando que muitas publicações de quadrinhos às vezes ficam muito longe disso, essa façanha merece com certeza ser louvada...

Segundo a editora JBC, Cowboy Bebop representa o primeiro de uma minissérie em seis números que será publicado semanalmente. Aparentemente, a editora também presume ser ele o primeiro mangá a ser publicado com esta periodicidade no país e procura se jactar disso na apresentação da revista. No entanto, está apenas parcialmente correta nessa afirmação. Embora se trate, aparentemente, do primeiro título a ser publicado no formato original japonês (da direita para a esquerda e do final para o início da publicação), não é a primeira a ter periodicidade semanal no país: de março a abril de 2001, a editora Abril colocou nas bancas, em intervalos semanais, oito números da revista Quadrinhos Digimon; e a própria JBC parece ter se esquecido dos títulos da série Star wars que publicou nesse mesmo ano. De qualquer forma, deixando-se de lado o não intencional equívoco, trata-se sem dúvida de uma iniciativa ousada, que permitirá aos entusiastas da série tê-la completa em muito menos tempo do que o normal nesses casos, o que deve se constituir em alternativa agradável para a maioria. Além disso, esta publicação também permitirá à editora sondar o mercado brasileiro para a viabilidade dessa periodicidade no momento atual e talvez ajude na decisão favorável a novos títulos com o mesmo intervalo de lançamento. É esperar para ver.

Em preto e branco, Cowboy Bebop é publicado pela Editora JBC e custa R$ 4.90.