Hoje Eu Quero Voltar Sozinho 2? HQ “faz a ponte” para sequência, diz diretor
Daniel Ribeiro fala sobre adaptação em quadrinhos e retorno de Léo e Gabriel para a tela grande
Créditos da imagem: Cena de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (Reprodução)
Daniel Ribeiro teve uma revelação quando descobriu Heartstopper, a série em quadrinhos de Alice Oseman que virou série na Netflix: a HQ poderia ser a mídia perfeita para contar uma história que os fãs do seu trabalho sempre pediram. Falamos, é claro, da continuação de Hoje eu Quero Voltar Sozinho.
Nascido como curta-metragem em 2010 (intitulado Eu Não Quero Voltar Sozinho) e transformado em longa de sucesso em 2014, Hoje Eu Quero se tornou um clássico LGBTQIAPN+ do cinema brasileiro. De fato, Léo (Guilherme Lobo) e Gabriel (Fabio Audi) foram o primeiro casal gay que toda uma geração assistiu na tela grande, o que explica a vontade de entender como a história dos dois continuou após o final marcante do longa.
Agora, Ribeiro pretende matar essa curiosidade. O primeiro volume em quadrinhos de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, assinado pelo cineasta ao lado do ilustrador Bruno Freire, reconta a história do longa de 2014 com algumas cenas adicionais, mas a ideia para as próximas edições é continuar a seguir Léo e Gabriel durante o seu relacionamento.
E depois disso? Oras, voltar ao cinema, é claro. A seguir, confira a conversa de Ribeiro com o Omelete sobre todos os planos e o legado de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho.
OMELETE: Primeiro, queria que você falasse justamente de como surgiu a ideia de transformar Hoje Eu Quero Voltar Sozinho em HQ. Como foi o processo de fazer essa adaptação?
RIBEIRO: Olha, foi em 2022 que eu tive essa vontade de fazer a HQ. Eu acho que veio um pouco do que tinha acontecido com Heartstopper, né? Foi um pouco uma influência, nesse sentido, porque era uma HQ [com temática LGBQIAPN+] que tinha virado um produto audiovisual. E tinha essa coisa de serem vários livros, né, capítulos… dava pra história continuar acontecendo. Uma coisa que as pessoas sempre falavam comigo do Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é que elas queriam ver a continuação, mas a gente não fez a na época, logo em seguida, e os atores cresceram. A minha vontade sempre foi revisitar os personagens daqui a dez anos, algo assim, mas as pessoas sempre comentavam que queriam saber o que acontecia com eles logo depois daquele final do filme.
E aí, quando eu vi Heartstopper, pensei: "Nossa, essa é uma ótima maneira da gente continuar contando a história sem ter que fazer um filme”. Porque no filme tem toda a grana necessária, todo um processo muito complicado. A HQ é um pouco mais simples, não depende de tempo, da idade do ator, de nada. Dá pra só contar a história. Então é isso, surgiu dessa vontade de continuar contando a história, e de entender que a HQ era um formato ótimo pra isso. A gente mantém a coisa visual, que tem a ver com cinema, mas permite uma continuação.
OMELETE: Mas a HQ termina onde o filme termina, certo?
RIBEIRO: Sim, esse primeiro volume que lançamos agora é o filme. A ideia era essa: contar a história do filme no primeiro volume, e aí continuar contando nos próximos volumes. Até porque, com aquela minha ideia de fazer outro filme daqui a dez anos, a HQ poderia contar a história desse meio tempo e a gente, depois que dois ou três volumes forem lançados, pode conseguir fazer o filme. Os leitores já vão saber em que ponto estamos na vida dos personagens, né? Acima de tudo, a HQ era um formato que permitia continuar contando a história.
OMELETE: Entendi! Mas então queria saber: o quanto dessa história do Léo e do Gabriel você já tem na cabeça, e o quanto você está criando conforme as demandas da HQ?
RIBEIRO: Olha, tem muita coisa que eu já pensei, que eu já imaginei, que eu acho que funcionaria para esses personagens. Mas também, depois de ler o Heartstopper, percebi que o que eu imaginava era meio parecido, então talvez a gente mude um pouco. Porque acho que são universos muito parecidos, de alguma maneira, histórias universais sobre se apaixonar e todos os passos que vêm depois. Então, conforme vou escrevendo, tenho um pouco essa vontade de me balizar no que já foi feito, e entender o que posso trazer de novo. A gente tem esse personagem que é deficiente visual, então tem coisas diferentes que vão surgir a partir disso. E lá atrás eu cheguei a escrever uma ideia de série, que se passava mais no futuro do Léo e do Gabriel, então tenho um monte de ideias com eles mais velhos. Era uma série que se passava depois da faculdade, mas ainda era tudo meio jogado, e a HQ está me ajudando a organizar todas essas ideias e colocá-las em prática.
OMELETE: Perfeito. Bom, já fazem 16 anos desde que o curta saiu, mais de dez anos também do longa… e essa história claramente perdurou com o público. Por que você acha que isso aconteceu? Você acha que ainda existe uma carência desse tipo de história no público brasileiro?
RIBEIRO: Eu acho que hoje existe menos do que antes, né? Naquela época [do curta e do longa] realmente, para o público brasileiro, uma história de dois adolescentes gays se descobrindo, se apaixonando... isso não existia, né? Então acho que teve esse impacto muito forte em muita gente. Mas uma coisa que eu sempre falava, e acho que tem um papel importante nesse conexão com o público, é que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é uma história que eu queria ter visto quando era adolescente. E aí tinha um monte de adolescentes, assim como eu, que também queria ver essas histórias. Foi uma criação muito honesta, assim, então acho que ela se conectou nesse lugar.
E também é o que eu falei: olha aí o Heartstopper, que nos mostra como as histórias de adolescentes gays têm uma similaridade com as de todo mundo. É uma história universal. Eu acho que muita gente se identifica com Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, e vai sempre ter pessoas gays nascendo, virando adolescentes e precisando de alguma história para servir de espeço. Por mais que muita coisa tenha mudado – eu acho que hoje os adolescentes têm muito mais referências, muito mais histórias –, sempre vai ter pessoas que vêm de uma família um pouco mais conservadora, ou moram em lugares mais isolados.
Na internet a gente consegue se conectar com muita gente hoje em dia, mas acho que tem pessoas que ainda vão crescer em contextos nos quais essa descoberta da própria sexualidade é um desafio. Por isso que eu acho que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho ainda se conecta com tanta gente, e por isso que essas histórias ainda precisam ser contadas. E sempre com personagens novos, também. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, Heartstopper, muitos outros no meio do caminho. As histórias vão se adaptando aos novos tempos.
E eu digo isso até por causa da HQ. A continuação que eu estou escrevendo agora, se tivesse escrito em 2015, logo depois do primeiro filme, seria completamente diferente. Tem muitas coisas em que a sociedade mudou, então não dá para eu também escrever como se fosse 2015. Coisas mudam, melhoram… mas, ao mesmo tempo, muitas das nossas histórias e sentimentos permanecem iguais.
*O Volume 1 de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho já está a venda nas livrarias. Confira no site oficial da Seguinte.
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