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História e História em Quadrinhos - Parte 5

História e História em Quadrinhos - Parte 5

Joatan Preis Dutra
18.09.2002
00h00
Atualizada em
04.01.2017
14h05
Atualizada em 04.01.2017 às 14h05

As Histórias em Quadrinhos, como todas as formas de arte, fazem parte do contexto histórico e social que as cercam. Elas não surgem isoladas e isentas de influências. Na verdade, as ideologias e o momento político moldam, de maneira decisiva, até mesmo o mais descompromissado dos gibis. É o que se vê nesta série de artigos.

Quarteto Fantástico
Criado por Stan Lee e Jack Kirby - 1961

A chegada dos anos sessenta consolidaram a renovação no mundo dos super-heróis iniciada com o novo Flash da DC Comics em meados da década anterior. Diante do sucesso da editora rival, em 1961, Martin Goodman, o diretor da Atlas Comics (antiga Timely Comics), pediu a Jack Kirby e Stan Lee que bolassem super-heróis capazes de fazer frente à Liga da Justiça da América da Distinta Concorrência. Os dois aproveitaram, então, o conceito de uma criação prévia de Kirby, os Desafiadores do Desconhecido, e acrescentaram superpoderes às personagens. Surgiu assim o Quarteto Fantástico, o primeiro fruto da árvore que se tornaria a Marvel Comics, empresa herdeira da Atlas.

Lee e Kirby desconsideraram todos os clichês das histórias de super-heróis existentes até então. Seus novos aventureiros não tinham identidades secretas e eram mais uma família do que uma equipe - literalmente no caso de Sue e Johnny Storm e mais tarde no do Sr. Fantástico que se casou a Mulher Invisível.

Reed Richards era um cientista que preferia usar seu intelecto a seus punhos elásticos. O adolescente Johnny, o novo Tocha Humana, era um herói por si só e não um companheiro de aventuras, papel até então reservado aos jovens nas HQs. Sua irmã, Sue, podia se tornar invisível e projetar campos de força. Já Ben Grimm, o rochoso Coisa, era dotado de enorme força, mas sua aparência aterradora ocultava a amargura de um ser desfigurado.

O Quarteto foi um sucesso sem precedentes e evitou a falência que espreitava a editora de Goodman. Aproveitando a empolgação dos leitores, Lee, juntamente com Kirby e outros quadrinhistas como Steve Ditko, Don Heck, Gene Colan, John Buscema e John Romita, desenvolveria a infinidade de heróis da Marvel que até hoje povoam os corações e mentes de leitores ao redor do mundo.

A excelente resposta do novo título deveu-se, em grande parte, à criatividade da dupla de autores. No entanto, não podemos nos esquecer de que,

por trás de um grupo de amigos que, vitimados por um acidente cósmico, ganham superpoderes, havia um forte paralelo com a mais significativa questão política daquele momento: a Guerra Fria e a paranóia anticomunista.

Em 12 de Abril de 1961, o cosmonauta soviético Yuri Gagarin tornou-se o primeiro ser humano a alcançar o espaço. A notícia pegou de surpresa os Estados Unidos e acirrou os piores temores de seus habitantes. Era o auge da Guerra Fria. O duro golpe faz o então presidente John Kennedy jurar que os norte-americanos chegariam à Lua antes do fim da década, derrotando a União Soviética naquela que viria a ser a Corrida Espacial.

O Quarteto Fantástico foi a resposta dos quadrinhos ao apelo do dirigente da nação. Eles personificavam a nova era espacial, na qual seus heróis estavam dispostos a arriscar tudo, até mesmo a própria vida, para estar a um passo adiante da ameaça vermelha. Já na primeira edição de Fantastic Four, Sue Storm não poupa esforços para persuadir o relutante Ben Grimm a pilotar o foguete desenvolvido por seu amigo Reed Richards. Ben, nós temos que tentar! A não ser que você queira que os comunistas cheguem na frente, angustiava-se aquela que viria a ser a Mulher Invisível. Apesar de temer o perigo dos raios cósmicos, o veterano da Segunda Guerra Mundial aceita, então, o desafio do presiden... quer dizer, de sua colega de equipe.

Ao longo dos primeiros anos da Marvel, o Quarteto enfrentaria inúmeras ameaças de cunho comunista como o Fantasma Vermelho e seus símios assassinos. A nova equipe daria o tom para que outros super-heróis da casa como o Hulk e o Homem de Ferro afinassem seus sensores antiesquedistas. No entanto, os embates destas personagens com os títeres de Moscou ficam para uma outra vez.

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