George McManus e Bringing up Father
George McManus e Bringing up Father

Já se tornou mais do que lugar comum dizer que o dinheiro não traz felicidade. É uma frase tão batida que ninguém parece acreditar que possa eventualmente ser verdadeira. Mas se para todas as pessoas resta o direito de duvidar da veracidade dessa máxima, a Jiggs, um pobre milionário das histórias em quadrinhos coube, o infortúnio de, literalmente, comprová-lo na própria pele. E, nesse caso, pouco importa que não fosse de carne e osso, mas criação em papel e tinta de um quadrinhista genial da primeira metade deste século, o norte-americano George McManus. Para os leitores que o acompanharam desde o seu início nas páginas do jornal New York American, de William Randolph Hearst, em 2 de janeiro de 1913, ele era totalmente real, bem como as vicissitudes que passou a enfrentar depois de ficar inesperadamente rico. Todos sentiam-se solidários com a nostalgia do personagem pelos felizes tempos de pobreza, quando podia livremente gozar da companhia de bêbados, vagabundos, arruaceiros, desocupados, seus alegres companheiros de pôquer, no bar do seu amigo Dinty.
Era esse o tema principal de Bringing up Father, o nome pelo qual foi batizada a obra maior de George McManus: curar o infeliz milionário dessa horrível mania de apego às coisas simples da vida. No centro da trama, o pobre Jiggs era alvo da incansável luta de sua horrenda e autoritária esposa Maggie, visando fazer com que ele agisse como todos os milionários devem agir, ou seja, com boas maneiras, roupas adequadas e comportamento impecável. Uma luta inglória, sempre fadada ao fracasso, assim como também ao fracasso estava predestinada a tentativa de aceitação social da própria Maggie. No máximo, ela conseguia se vestir na última moda e abrir as portas de sua enorme mansão para que os seus amigos milionários se empanturrarem às suas custas. Mas jamais conseguiria verdadeiramente se transformar em um deles, pois nela trazia impregnadas as marcas de um passado em um ambiente sórdido, do qual queria fugir. Em vão. Ninguém muda o que é. Ninguém consegue ser o que não é.
REQUINTE NO TRAÇO
Segundo o historiador Oscar Masotta, a temática principal de Bringing up Father foi inspirada por uma peça teatral de 1890, intitulada The Rising Generation. Essa proposta singela gerou milhares de situações cômicas, reproduzidas em dezenas de países e centenas de jornais no mundo inteiro durante mais de oito décadas. Constitui-se, até hoje, em uma das histórias em quadrinhos de maior longevidade e aceitação popular, destacando-se, inclusive, como a primeira série a ser sindicalizada para o mercado internacional. Mas não foi apenas pelo tema central que ela atraiu e prendeu a atenção dos leitores durante tantos anos, embora representasse um de seus maiores atrativos. Ainda que aparentemente simples, Bringing up Father, em seu conjunto, é uma verdadeira obra de arte. Nada, nela, é gratuito. A comicidade visual dos dois protagonistas – conhecidos no Brasil como Pafúncio e Marocas, mais um exemplo de adaptação feliz para a língua portuguesa... – é complementada por uma extrema preocupação com detalhes de fundo, o ambiente de Art Deco e móveis estilo rococó, uma verdadeira obsessão pela harmonia visual que sempre caracterizou George McManus. Suas escadarias tinham corrimões requintados, os abajures e lustres que desenhava eram de enorme sofisticação visual, os vestidos usados pelas mulheres representavam sempre a última tendência da alta costura. Seu uso de sombras e o contraste de claro/escuro dificilmente foram suplantados. Enfim: os aspectos decorativos de seu trabalho são sempre surpreendentes, para dizer o mínimo.
UM BOÊMIO INCORRIGÍVEL
As mulheres mereceram uma atenção especial de George McManus. À exceção de Maggie e algumas de suas amigas, as demais eram todas maravilhosas. Literalmente. Tinham corpos perfeitos, curvilíneos, pernas longas, rostos angelicais e cabelos encaracolados. Deslumbrantes, em suma. A própria esposa de Jiggs, tirando-se o rosto horrendo – os cirurgiões plásticos não eram tão populares na primeira metade do século quanto o são agora -, poderia ser confundida com uma bailarina russa, tão magra e alta era representada. Contrastava visivelmente com o marido, baixote e barrigudo, a quem ela mantinha em constante opressão, não hesitando em castigar das formas mais pitorescas em seus freqüentes momentos de irritação. Via de regra, atirava-lhe o que lhe estivesse por perto – pratos, panelas, bancos, vasos -, cada vez que a fazia passar alguma vergonha perante seus amigos endinheirados. Jiggs, no entanto, jamais se emendava. Esta relação de dominação da mulher sobre o marido, aliás, foi sempre uma das características das family strips, que a obra de McManus personificou à perfeição, buscando explorar o potencial humano do ambiente familiar. Nas histórias de Jiggs e Maggie (como era popularmente conhecida a criação de George McManus), vários elementos do cotidiano do casal, a quem nada mais que um passado comum de privações parecia unir, eram repetidos até quase a exaustão. Ainda assim, sempre mantinham uma aura de novidade e criatividade. A marca de um gênio.
A inventiva de Jiggs para escapulir ao controle da esposa e retornar ao convívio de seus amigos, por exemplo, parece impossível de ser suplantada por qualquer outro marido em situação semelhante: ele saía por uma janela, arrastava-se pelo beiral da casa, esticava-se até alcançar um fio telefônico, equilibrava-se nele até um poste, pendurava-se em guindaste que o colocava a poucos metros do bar; ou providenciava uma estante de livros na parede do salão de cartas, de modo a poder voltar para casa com um deles debaixo do braço e afirmar à esposa, com a cara mais séria do mundo, que havia ido à biblioteca pública do bairro. Um verdadeiro mestre das artimanhas.

BRINCADEIRAS COM A LINGUAGEM DOS QUADRINHOS
Outro fator que cabe ressaltar no trabalho de McManus são as “figuras animadas” que ele introduzia freqüentemente nas histórias: os personagens retratados nos quadros pendurados nas paredes da mansão dos milionários ganhavam vida, atiravam coisas uns nos outros, faziam gestos para o leitor, passando totalmente despercebidos pelos demais personagens da história. Era uma espécie de divertimento com o qual o autor parecia comprazer-se e que acabou se transformando em uma das características mais distintivas de sua criação artística. Não era, entretanto, a única: tal como George Herriman e Winsor McCay, ele também divertia-se com a própria linguagem artística que ajudara a criar. Ele fazia os recursos lingüísticos desenvolvidos pelos quadrinhos participarem da história enquanto elementos da trama. Em uma de suas tiras, por exemplo, Jiggs puxa o fio que contorna os quadrinhos e o enrola como se fosse um novelo de linha.
JAMAIS SUPERADO PELOS SUCESSORES
McManus, tendo ele mesmo se tornado milionário pelo sucesso de sua obra, faleceu em 1954. Bringing up Father foi primeiramente continuada por Bill Kavanagh e Vernon Greene. Depois, assumiram-na, em sucessão, Hall Camp, Frank Fletcher, Frank Johnson e Warren Sattler. Quatro décadas depois da morte do autor, já não se via mais o mesmo estilo preciosista ou os detalhes de fundo que tanto marcaram sua obra. Nem guardava a série a mesma inventividade cômica ou mantinha o tom elegíaco à vida comunitária das populações imigrantes do início do século que fizera muito do seu fascínio. Isso tudo, infelizmente, parece ter morrido junto com o autor.
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