HQ/Livros

Notícia

Final Crisis chega ao fim e Grant Morrison já arma sua defesa

Roteirista discorre sobre o Quinto Mundo da Era da Informação de Obama

Érico Assis
30.01.2009
01h00
Atualizada em
02.11.2016
19h02
Atualizada em 02.11.2016 às 19h02

Final Crisis #7, última edição do evento DC de 2008 (sim, atrasou), chegou às comic shops dos EUA esta semana. Após a confusa edição 6, a edição final respondeu algumas dúvidas para os leitores, mas ainda deixou várias outras.

Se você não quiser ler spoilers, não prossiga.

Como recomendou um resenhista na web, "se você tem síndrome do déficit de atenção, é bom ter seus remédios a mão". Em resumo, a edição mostra Superman liderando os heróis de todo o Multiverso contra um Darkseid moribundo e, depois, contra Mandrakk (não confundir com o mágico), um Monitor que se voltou para o mal. É claro que os heróis vencem no final.

Como Final Crisis começou com a morte dos Novos Deuses, as divindades do Quarto Mundo, o final da saga anuncia a chegada do Quinto Mundo - algo ainda a ser explorado pelos criadores da DC.

Duas baixas com alguma significância na história: Gavião Negro e Mulher-Gavião são aparentemente consumidos pelas labaredas de fogo quando destroem o vilão Lord Eye.

E a última página traz um momento "como assim??": no início dos tempos, Kamandi, o último homem, falece na sua caverna momentos antes de surgir... Bruce Wayne, que desenha o símbolo de Batman nas paredes como uma pintura rupestre. Mais uma indicação de que o homem-morcego, é óbvio, não morreu.

O roteirista Grant Morrison, em entrevista ao Newsarama, deu algumas explicações sobre a conclusão da saga e comentou a série como um todo, que considera "um dos mais estruturados e exigentes trabalhos que já fiz".

A última cena com Batman, diz ele, foi um pedido do editor-chefe do Universo DC Dan DiDio. Quanto às dúvidas sobre o destino do herói, ele apenas diz que retornará ao personagem no futuro e dará seqüência ao que diz ser "uma longa e definitiva aventura" do personagem.

Morrison também ataca os críticos da saga, chamando-os de velhos reclamões:

"É claro que estou ciente do descontentamento perpétuo e crônico de uma minoria particular na Internet, mas tento ignorar suas constantes expressões de repúdio visto que são deprimentes e geralmente abusivas.

Claro que faz parte da diversão dos quadrinhos seguir uma história por várias séries. Se você gosta de quadrinhos, o que tem de tão mal em comprar outro para ver o que acontece? E se você não quiser comprar, não se preocupe. Vá fazer outra coisa. Compre cigarros, cerveja, bananas. O que quiser!

Toda vez que ouço 'cansei de eventos' ou '3D me dá dor de cabeça' ou como algo é 'incompreensível' quando muita gente está 'compreendendo' tudo muito bem, parece que estou visitando um asilo de velhinhos. 'Eventos' em quadrinhos de super-heróis te CANSAM? Fico sem palavras. Claro que eles tendem a ser um pouco mais excitantes que as bulas de remédio pro coração, mas... 'cansaço'?

Gibis de super-herói deviam ter um 'evento' a cada quadro! Todos nós sabemos isso por instinto. Quem se importa 'como?' desde que pareça e soe fantástico?"

final crisis

None
Final Crisis #7
O autor escocês ainda diz que Final Crisis é uma tentativa de recuperar o espírito dos quadrinhos de Jack Kirby - criador dos Novos Deuses, que morrem no início da história. "A ênfase no espetáculo e no fascínio, às custas do 'realismo', a abordagem alegórica... sou eu fazendo Kirby", diz. E completa com uma defesa apaixonada do seu próprio trabalho:

"É minha visão do alto, de um Monitor, do Universo DC como uma entidade; antes que eu tire umas aguardadas férias para fazer outros trabalhos. É minha versão de terror/sci-fi de tudo que amo na DC, tudo que já pensei ou senti sobre a DC, em uma série. É sobre a confusão e a agitação de entrar neste continuum ficcional selvagem e colorido quando criança, e uma tentativa de definir o que torna a DC singular e vibrante em relação a outros universos de super-heróis. Também oferece uma cosmologia completa de dimensões superiores, incluindo a nossa, e um vislumbre do impulso criativo de Deus, então acho que vale o preço na capa, gosto de dizer. Está recheada de segredos ocultos, filosóficos e transformativos também e quanto mais você lê, mais você vai entendê-los.

Também é uma tentativa deliberada de mostrar como as ditas 'regras' podem ser quebradas para criar diferentes efeitos nos nossos quadrinhos. É uma forma de usar gibis de super-heróis para falar do mundo 'real' que não depende de manchetes de jornal, 'relevância' falsa ou linguagem e imagens 'adultas'.

Me vi pensando como seria se a narrativa dos quadrinhos parasse de copiar o cinema e a TV e buscasse alguns recursos da ópera, por exemplo. Que tal quadrinhos densos, carregados de referências, herméticos, que parecem mais poesia do que prosa? Que tal quadrinhos carregados de significados e possibilidades múltiplas, prismáticas? Quadrinhos compostos como música? Em um mercado dominado por séries 'lado esquerdo do cérebro' [que geram reações racionais], achei que seria revigorante oferecer uma alternativa 'lado direito' [reações emotivas].

Assim como Marvel Boy, em 1999, precedeu as tendências narrativas da última década, Final Crisis tenta predizer como as técnicas 'zapping' podem se desenvolver enquanto entramos no Quinto Mundo da Era da Informação de Obama e ela começa a se definir em oposição às 'regras' da geração passada.

É tudo acima. Eu queria espremer tudo que amo nos gibis de super-herói em um... artefato, carregado e condensado, o que significou usar todas as lições que aprendi em uma vida inteira vivendo de escrever."