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HQ/Livros

Artigo

Como a indústria de quadrinhos mudou nos últimos 20 anos

No aniversário do Omelete, relembramos como o mercado de publicações mudou nas últimas décadas

Érico Assis
29.05.2020
16h25
Atualizada em
29.05.2020
16h01
Atualizada em 29.05.2020 às 16h01

A grande novidade dos quadrinhos em 2000? A Marvel Comics ia lançar uma linha chamada Ultimate, com versões teen de Homem-Aranha e X-Men. A DC ia contra-atacar com… Superman & Pernalonga. Foi uma baixa histórica no mercado de quadrinhos dos EUA, que movimentou entre US$ 255 e 275 milhões. Um filme dos X-Men ia estrear no final do ano e ninguém botava fé.

Quadrinhos no Brasil em 2000? Nas bancas, as últimas edições em formatinho de Marvel e DC pela Editora Abril. A linha voltou em versão Premium, maior e mais cara. Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco aterrissaram como OVNIs, gibis em preto e branco que se lia da direita pra esquerda. Não havia outros mangás, fora Gen – Pés Descalços (com leitura ocidental), que aparecia tímido nas poucas comic shops e em algumas livrarias. Sim, tinha meia dúzia de quadrinhos na livrarias, provavelmente na seção “Humor”. Fábio Moon e Gabriel Bá lançaram sua primeira coleção, 10 Pãezinhos: o Girassol e a Lua, em janeiro de 2000.

Onde ficavam as tretas dos quadrinhos? Se você tivesse paciência com a conexão e com a parte técnica, havia os fóruns. Os sites ainda não comportavam comentários. Redes sociais como as de hoje só viriam mais tarde – o Orkut é de 2004, o Twitter, de 2006, o Facebook só saiu das universidades em 2006. Baixar quadrinho pirata? Os scans só iam se difundir aí por 2004. Webcomics, porém, já estavam na moda há algum tempo. Malvados, de André Dahmer, estreou em 2001.

O Comixology nasceu em 2007. Mesmo que Marvel e DC brincassem com alguns quadrinhos digitais desde o século passado, esse negócio de lançar impresso e digital simultâneo vem de 2010 para cá. O iPad apareceu em 2010 e muita gente achou que os quadrinhos iam migrar para as telas touch de cores vivas. Ainda não aconteceu. A maior parte do público ainda quer gibi de papel. Pelo menos o público pagante.

O mundo virou em 11 de setembro de 2001. O Homem-Aranha passou uma HQ diante do World Trade Center destruído. Super-heróis ganharam mais importância no mundo em guerra, seja para discutir as opiniões polarizadas (Crise de Identidade, Guerra Civil), seja para escapar da realidade (DC: A Nova Fronteira, o Quarteto Fantástico de Waid/Wieringo). Soldados no Iraque assistiam 300 de Esparta para entrar em modo berserk e acabaram estimulando a volta por cima de Frank Miller. Também ficou mais perigoso fazer quadrinhos: em 2015, dois terroristas invadiram a redação da Charlie Hebdo e mataram 12 depois que a revista retratou Maomé.

The Walking Dead era (mais) um gibi de zumbi quando apareceu em 2003, época em que Robert Kirkman mal conseguia pagar o aluguel. Chris Ware e Alison Bechdel só circulavam entre os mega-alternativos até, respectivamente, Jimmy Corrigan (2000) e Fun Home (2006). Mark Millar galgou a escada do sucesso com Supremos (2002), O Procurado (2003), Superman: Entre a Foice e o Martelo (2003), fundou sua Millarworld com Kick-Ass (2008) e vendeu tudo que é seu para a Netflix.

Fã no Artists' Alley da CCXP19

Fã lê quadrinho na CCXP19
TINE/IHF

Foi só em 2008 que Jeff Lemire apareceu com Condado de Essex, que Bastien Vivès se destacou com O Gosto do Cloro e Rafael Grampá soltou a bomba Mesmo Delivery. Alan Moore é conhecido de quem lê gibi há quarenta anos, mas só chegou ao grande público quando seus quadrinhos viraram uma sequência de filmes: Do Inferno, A Liga Extraordinária, V de Vingança, Constantine, Watchmen (longa e seriado) – todos contra sua vontade. O primeiro sucesso literário de Neil Gaiman? Deuses Americanos, em 2001, mesmo que nós do gibi já lêssemos Gaiman há tempos.

Aquele filme dos X-Men em que ninguém botava fé? Rendeu US$ 300 milhões, fez a Marvel produzir seus próprios filmes, a DC correr atrás do prejuízo, a Disney comprar a Marvel e a tevê lotar de super-herói. Aquele evento para gibizeiros em San Diego passou a ocupar todo o Centro de Convenções e pulou de 40 mil para 130 mil nerds de todas estirpes. Os gibis tentaram atrair essa gente que saía do cinema e da tevê de olhinhos brilhando – e conseguiu, em parte. Para fugir do gueto das comic shops, os gibis tiveram que se juntar em coletâneas e ir para as livrarias. Ou ganhar traje de gala, como Omnibus e Absolutes, que não existiam até 2002. A profusão de capas duras e os lombadeiros são coisa da última década.

As livrarias do Brasil acompanharam esse movimento dos EUA e separaram prateleiras de quadrinhos. O governo federal fez compras milionárias de gibi para bibliotecas. Pipocaram selos e editoras: Desiderata (2006), Pixel (2006), NewPop (2007), Quadrinhos na Cia. (2009), Barba Negra (2010), Balão Editorial (2010), Nemo (2011), Darkside (2012), Veneta (2012), Mino (2014), Pipoca e Nanquim (2017). A palavra crowdfunding não existia até em 2006 e o Catarse, que virou a maior plataforma de lançamentos do quadrinho nacional, é de 2011. O estado de São Paulo financia dez HQs (ou mais) por ano desde 2008 no Proac. O FIQ de Belo Horizonte (iniciado em 1999) bateu 100 lançamentos nacionais em 2013. A CCXP (iniciada em 2014) superou 500 autores no Artist’s Alley de 2019.

Fábio Moon e Gabriel Bá começaram a colecionar prêmios Eisner em 2008, Marcello Quintanilha ganhou seu prêmio do Festival d’Angoulême em 2016, Marcelo D’Salete levou seu Eisner em 2018. O Prêmio Jabuti, que existe desde 1959, começou a premiar quadrinhos em 2008 (O alienista, de Moon e Bá) e criou categoria própria de HQ em 2017. De Los Tres Amigos, a Laerte continua brilhante, Angeli se aposentou, Glauco foi assassinado. Lourenço Mutarelli virou romancista.

Mauricio de Sousa viu um filho lendo Naruto e, contra a opinião geral, lançou Turma da Mônica Jovem (2008). Uma edição chegou a vender meio milhão. Na rabeira, vieram Luluzinha Teen (2009) e curiosidades como Didi e Lili – Geração Mangá (2010). As Graphic MSP reuniram a nova geração de quadrinistas reinterpretando as criações de Mauricio e desembocaram no primeiro filme live-action da Turma da Mônica.

Até Amana ao Deus Dará, de Edna Lopes, nenhuma editora brasileira havia publicado quadrinho de uma autora. Depois de Edna Lopes vieram Paula Mastroberti, Fabiane Langona, Cynthia Bonacossa, Bianca Pinheiro, Julia Bax, Carol Ito, Lovelove6, Verônica Berta, Aline Zouvi, Ana Koehler, Samanta Flôor, Cris Eiko, Germana Viana, Lu Cafaggi, Fefê Torquato. O movimento de abertura para perspectivas femininas em um mercado historicamente machista também foi reflexo do resto do mundo, que tentou trazer mais diversidade às HQs. Persépolis, de Marjane Satrapi, é um marco, e os álbuns de Raina Telgemeier, a partir de Sorria, vendem milhões.

Perdemos para sempre Carl Barks, Charles Schulz, John Buscema, Flavio Colin, Guido Crepax, Will Eisner, Sergio Bonelli, Renato Canini, Yoshihiro Tatsumi, Jiro Taniguchi, Alvaro de Moya, Len Wein, Mort Walker, Stan Lee, Steve Ditko, Kazuo Koike e Uderzo, entre muitos outros. Ganhamos para sempre Grandes Astros: Superman, o Gavião Arqueiro de Fraction/Aja, Pílulas Azuis, Escalpo, Retalhos, 20th Century Boys, o Justiceiro de Garth Ennis, Senhor Milagre e Visão, Aurora nas Sombras, Building Stories, Daytripper, Asterios Polyp, a saga da Thor, Vagabond, Blacksad, o Demolidor de Bendis/Maleev, Scott Pilgrim, Criminal, Sunny, Rugas, Gus, Bone completa, Aqui, Hilda, Saga, A Liga Extraordinária e Lost Girls, o Pinóquio do Winshluss, A Arte de Charlie Chan Hock Chye, Y: O Último Homem, toda a obra do Guy Delisle, Aquele Verão, O Árabe do Futuro, Macanudo e Minha Coisa Favorita é Monstro.

A DC passou por duas ou três Crises (de Identidade, Infinita, Final), reformulou todos os heróis duas vezes (Novos 52, Renascimento), lançou e matou várias linhas promissoras (Focus, Minx, Zuda) e acabou com a única que dava certo (Vertigo). A Marvel se relançou meia dúzia de vezes (Marvel ReEvolution, Marvel Now, All-New All-Different Marvel, Marvel Legacy etc.) e criou uma linha adulta (Max), mas, sinceramente, quem liga se os filmes deles rendem bilhão? Nesse meio tempo, o Código de Ética dos Quadrinhos, herança dos anos 1950, finalmente morreu. No Brasil, a Panini dominou as bancas e, depois, a seção de HQ das livrarias com Marvel, DC, Mangás e Turma da Mônica.

Um dólar era R$ 1,80 em 2000 e ficou abaixo de R$ 1,60 em 2008 e 2011. É melhor você não ver a cotação de hoje. O quadrinho brasileiro estava com tudo até a economia cair e levar, entre outras coisas, as grandes livrarias e um naco do mercado editorial. Nos EUA, com um mercado de HQs quatro vezes maior do que era em 2000 – e onde a maior da grana tinha acabado de passar das comic shops para as livrarias – a pandemia ainda deixou as comic shops sem gibi novo e pôs o formato em risco.

Começamos mal, subimos como nunca e terminamos num momento que mais parece um limbo. Os quadrinhos mudaram nos últimos vinte anos. A única certeza é que vão se transformar nos próximos vinte.