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Entrevista com Paul Chadwick

Entrevista com Paul Chadwick

Atualizada em 11.11.2016, ÀS 09H03

Paul Chadwick , o famoso artista criador de Concrete concede uma entrevista exclusiva ao Omelete, conduzida por Fabrício Grellet. Aqui está a primeira parte da conversa...


Fale-me sobre seu processo educacional&qt& Você freqüentou alguma escola de artes&qt&

Sim, eu estudei no Art Center College of Design, em Pasadena, Califórnia. É uma escola de arte comercial, fundada em 1930 em Los Angeles. No ano de 1976, ela se transferiu para o novo "campus", em Pasadena, um estranho prédio em estilo moderno que mais parece uma ponte sobre um barranco!


A Art Center foi uma experiência maravilhosa, difícil e intensa. O ilustrador de livros de ficção científica, David Mattingly, foi meu colega de quarto, e um ótimo exemplo de sérios hábitos de trabalho. Eu fui treinado para ser um ilustrador - nenhuma instrução no campo dos quadrinhos me foi oferecida - e comecei fazendo peças publicitárias para filmes, capas de livros e storyboards para cinema - assim que saí da escola. Somente quatro anos depois é que tentei trabalhar com quadrinhos.

E por que quadrinhos&qt& Quando começou sua carreira, e onde&qt&

Eu cresci amando quadrinhos, mas descartei a idéia de fazer carreira como desenhista de HQ porque este campo, nos Estados Unidos, parecia estar morrendo. Mas isso mudou nos anos oitenta, e uma verdadeira revolução de direitos autorais aconteceu por aqui. Pela primeira vez, graças às editoras independentes, como a Pacific Comics, os criadores retinham os direitos autorais de suas criações. Vi outro amigo meu (de um período pós-Art Center), Ron Harris, reparar e publicar sua série, Crash Ryan. Eu então entendi que poderia fazer o mesmo, e comecei a trabalhar em Concrete. Bem... Não foi tão fácil. Eu fiz uma tira para a Pacific, entitulada Salimba: The Jungle Girl, e trabalhos para a Marvel, Dazzler (no Brasil, Cristal), por alguns anos, antes de achar uma "casa" para Concrete.


Quais são suas influências&qt&

Uma influência que tive no início de carreira foi Burne Hogarth, o desenhista de Tarzan. Jim Steranko, Frank Frazetta e Jack Kirby também me influenciaram. Aprendi muito observando a arte-final de Bernie Wrightson, e as formas tecnológicas criadas por ilustradores de ficção científica como John Berkey e Mike Hinge. Apesar de conhecer e amar o trabalho de grandes desenhistas da Era de Ouro dos Quadrinhos, tais como N. C. Wyeth, J. C. Leyendecker e Howard Pyle, admito não tê-los estudado como deveria. E algumas vezes ainda me culpo por não ter feito isso!

Ouvi uma vez que você tem experiência no campo do cinema, não é&qt&


Você ouviu certo! Em 1980, fui chamado pelos Estúdios Disney como ilustrador de vários projetos que não chegaram às telas. Também trabalhei em diversos outros estúdios, fazendo storyboard de filmes como Strange Brew, Miracle Mile, Pee Wees Big Adventure e The Big Easy. Em 1989 dei uma parada em Concrete para ser diretor de arte de After Midnight, uma experiência que me curou da ambição de perseguir aquilo como uma carreira. Estou mais feliz sozinho em meu estúdio, cuidando de meus desenhos e sonhando meus próprios sonhos.

Você atualmente trabalha com assistentes&qt&

Trabalhei com assistentes alguns anos atrás. Descobri que isso não me ajudava, a menos que o assistente pudesse arte-finalizar ou desenhar tão bem quanto eu. Ocasionalmente alguns outro artista pode vir a finalizar meu trabalho, como Ron Randal faz em minha série The World Below. Mas, na verdade, é uma colaboração, e não uma assistência.

O que você acha que um artista iniciante deve fazer para entrar no campo dos quadrinhos&qt&



Sei bem o que eles devem fazer: Terminem uma história - completa. Existem milhares de roteiristas e artistas querendo trabalhar como uma equipe criativa. Para se sobressair nessa multidão, é preciso ter uma história particular, com um novo ponto de vista. Pode ser uma história curta, algo em torno de oito páginas, mas que deva satisfazê-lo completamente. Você poderá ter de fazer muitos experimentos antes de acertar o formato final dessa história. Eu sei porque também tive de fazer isso.

E qual é a sua opinião sobre a atual cena dos quadrinhos nos EUA&qt& Há um estrangulamento, conforme a opinião de alguns críticos&qt&

Eu não vejo verdadeiros culpados por aqui, a não ser alguns idiotas corporativistas da Marvel que tentaram, no começo dos anos 90, acabar com a competição ao puxar o pino da granada num quartinho cheio de gente que é a indústria dos quadrinhos! Apesar disso, os comics ainda existem nos EUA. Somos uma nação que vai ao trabalho de carros e não em trens. Então, não podemos ler nada antes de trabalhar, diferente do que ocorre na Europa e no Japão. E, com a explosão do vídeo entretenimento, como a internet e os jogos, existe ainda menos tempo para se ler no dia a dia.



Penso, então, que os quadrinhos vão crescer no meio dos fãs, e que devemos fortalecer a cultura dos fãs e conhecedores do gênero. Isso significará mais lojas de quadrinhos com um público selecionado e conhecedor das publicações, pessoas que amam os quadrinhos. É claro que editoras mais responsáveis, cumpridoras do calendário de publicações, ajudam nesse sentido.


E o que você acha dessa nova linha de brinquedos baseados nos personagens de quadrinhos&qt& Gostaria de ter sua própria linha de produtos&qt&

Já fizemos algo nesse sentido. Escultura de Concrete, camisetas e coisas assim. Os colecionadores gostam desses produtos, desde que sejam bem feitos. E por mim, está tudo bem, apesar de dar mais importância à leitura das revistas, pois isso é o que me satisfaz.


Você planeja fazer desenho animado ou filme com algum de seus personagens&qt&


Concrete está sendo desenvolvido pela Disney, para ser um filme, com atores e tudo mais. Tenho fé de que este filme será realizado, apesar de poder demorar alguns anos ainda - levando-se em conta de que eles já possuem os direitos para esse filme há sete anos. Acho que The World Below daria uma ótima série de TV, desde que os efeitos digitais se tornem mais baratos, como já tende a ocorrer.

E quando você criou Concrete&qt& Como essa criatura veio em sua mente&qt&

Comecei desenhando-o em 1983, no meu bloco de rascunhos. Essa idéia me veio quando estava sonolento, prestes a dormir. Eu gosto de usar cobertores pesados quando durmo, e algumas vezes me imaginei enterrado em meio a uma pilha de escombros. Era algo confortável, de um estranho modo. Por fim, imaginei-me como um ser feito de pedra, e gostei da sensação de saber que não poderia me machucar. Então, comecei a pensar o que um verdadeiro homem de pedra iria fazer com sua vida, e decidi que ele gostaria de ir aos lugares mais selvagens da Terra, e que também escreveria livros sobre suas experiências. E isso é bem o que veio a ser Concrete.


O que o inspirou a fazer The World Below&qt& Já pensou em fazer uma graphic novel desse título&qt& Que tal misturar Concrete com esse novo mundo&qt&

The World Below é um lugar onde posso trabalhar o absurdo e de um modo mais surreal do que em Concrete que, apesar do protagonista, tem uma abordagem bem realista. Eu concebi essa série como histórias distintas de vinte páginas, como as revistas de que me lembro de quando era mais jovem. E, apesar de elas poderem vir a ser publicadas em livro, não tenho planos para uma graphic novel.

Qual é a principal diferença, para você, entre trabalhar para uma editora independente de quadrinhos e para as grandes editoras corporativas&qt&

Trabalhei com satisfação tanto para a Marvel quanto para a DC. Mas minha relação com Mike Richardson, o único proprietário que a Dark Horse Comics já teve, é bem antiga e especial. Mike é um bom escritor e talvez um artista frustrado. É muito bem sucedido no campo das publicações e também nos acordos para filmes. Acho que essas características acabam por torná-lo simpático aos criadores.


O único grande defeito da Dark Horse é que existe somente um Mike Richardson. E você tem de segurá-lo - e ele é um alvo-móvel - se quiser que alguma decisão seja tomada. Então, tem de falar com diversas pessoas, nos mais diversos departamentos, para que essa decisão seja levada adiante. Atualmente, Mike passa mais tempo em Hollywood fazendo acordos para filmes ou fumando charutos com Schwarzennegger do que trabalhando com os detalhes diários das publicações. Mas, assim que as coisas estejam acordadas, tudo que se tem a fazer é o próprio trabalho e dar alguns telefonemas. Eu agradeço todos os dias a sorte que tenho de trabalhar na Dark Horse.

Você gostaria de trabalhar com um roteirista ou um desenhista num projeto&qt& Quem seria&qt& E quais são seus planos imediatos&qt&


Neste exato momento estou me preparando para voltar a trabalhar sozinho, depois de um ano trabalhando com colaboradores. Além da arte-final de Ron em The World Below, escrevi uma série para a Vertigo, entitulada Gifts of the Night, pintada por John Bolton. Desenhei alguns números de Dr. Strange, que foram escritos por Dan Jolley e Tony Harris. E escrevi uma mini-série de Aliens, entitulada Ichneumon Summer, que Brian Apthorp está desenhando.


Mas agora chegou a hora de voltar para Concrete. E pretendo trabalhar sozinho. Planejo me dedicar exclusivamente a essa série nos próximos três anos. Vou começar por uma mini-série entitulada Multitudes, que fala sobre o impulso sexual dos seres humanos e a superpopulação da Terra, sob um ângulo bem pessoal. Entre outras coisas, Concrete ficará grávido, e terá um filho durante o curso da história. Duas outras mini-séries vão vir em seguida: Stars Over Sand, uma história sobre amnésia e sobrevivência, além de edições especiais, mini-pôsteres e outros itens. Quero reviver Concrete como um grande personagem.


Você gosta de ir às convenções&qt&

Sim e não. Adoro renovar as amizades, e encontrar leitores para os quais meu trabalho é genuinamente importante. Isso faz com que eu sinta o valor de meu trabalho. Por outro lado, sou um tanto quanto tímido, e acho exaustivo todos os estímulos e a interação que ocorre nas convenções. Eu também tenho uma tendência a concordar com certas coisas durante as convenções, e que tenho dificuldade para completá-las, como essa entrevista!


Quais são os livros que está lendo&qt&


The Ends Of The Earth, de Robert Kaplan, uma análise pessimista sobre o crescimento populacional, o desflorestamento e a proliferação de armas baratas, uma série de condições que estão tornando lugares como o oeste da África um verdadeiro inferno. Algumas das idéias básicas de Kaplan encontrarão eco em Multitudes, bem como as de estudiosos da condição populacional do mundo como Paul Ehrlich e Julian Simon. Por puro prazer, estou lendo a coleção de Thomas Ligotti, entitulada Grimscribe. Ligotti escreve uma ficção estranha, na linha de Lovecraft, apesar de ser melhor escritor e possuir obsessões diferentes. Adoro a fixação que ele demonstra quanto a manequins e bonecos serem veículos das ameaças. Terminei de ler um suspense muito bem feito, The Bone Collector, de Jeffrey Deaver. Sou um leitor voraz de revistas como Time, Vanity Fair, Audubon, Science News e muitas outras.

O que você acha dos vídeo games&qt& Eles se dão bem com os quadrinhos&qt& Têm lugar garantido numa convenção de quadrinhos&qt& Existe algum interesse de sua parte nessa área&qt&

Eu suponho que toda a cultura jovem coincida com o restante da cultura jovem. Mas são coisas diferentes. Ler é entrar na mente de outra pessoa, um complicado processo mental. Vídeo games são, via de regra, relacionados com reações rápidas, exatamente opostas ao pensamento abstrato. Nunca fui muito bom com esses jogos, então tenho pouco interesse por eles. Mas constituem um ótimo treinamento para os pilotos de aviões de caça do futuro, assim como para motoristas de ambulância.


Quando planeja ir ao Brasil&qt&

Esta é uma boa questão. Suspeito que o Brasil ainda terá um grande papel na minha vida. Minha esposa ama o Rio Amazonas, e já viajou por ele quatro vezes, começando por Manaus. Ela gostaria de passar ao menos uma parte do ano por lá. Sei que as cidades costeiras são virtualmente um país a parte, mais parecidas com a Europa Ocidental do que com o resto da América do Sul. Mas meu filho ainda é muito pequeno para viajar, e espero ficar bem próximo de casa pelos próximos anos.

É isso! Gostaria de dizer algo para seus fãs&qt&


Obrigado por me darem a possibilidade de viver dos meus roteiros e de meus desenhos. É um privilégio viver pelo exercício de minha imaginação, e deixar objetos tangíveis - as revistas e livros - como marcas de meus esforços. Eu sou um homem de muita sorte!










































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