Enquanto Isso... nos Quadrinhos | Cuidado com o Omnibus

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Enquanto Isso... nos Quadrinhos | Cuidado com o Omnibus

Dicas médicas, econômicas, históricas e mercadológicas para quem acabou de conhecer o formato parrudão dos quadrinhos

Érico Assis
16.10.2020
19h49
Atualizada em
23.10.2020
16h16
Atualizada em 23.10.2020 às 16h16

Em 2013, o leitor de quadrinhos e pastor batista Russel Dalton contou o seguinte em um fórum de discussão sobre gibis Marvel. Era fim de domingo, Dia dos Pais, e ele estava na poltrona do quarto:

“Liguei a tevê numa final da NBA e deixei o controle do lado pra conferir o US Open [de tênis] de vez em quando. Peguei umas coisas pra ler durante o jogo: à direita, o Omnibus do Quarteto Fantástico do John Byrne; à esquerda, o Omnibus dos X-Táticos. Deixei até um DVD do Babylon 5 a postos caso eu cansasse de ler no intervalo. Tudo perfeito.

Comecei pelo Omnibus do Byrne, mas não tive paciência com as primeiras histórias. Soltei esse, peguei o controle remoto com a mão direita para trocar de canal e ao mesmo tempo estiquei minha esquerda para pegar o Omnibus dos X-Táticos, com a mão virada e um pouco torta, e levantei o livrão. Foi aí.”

Dalton fala em uma dor aguda que percorreu o braço esquerdo, como se tivesse “distendido todos os músculos ao mesmo tempo” e que o braço começou a formigar. A esposa ouviu o grito, veio correndo e convenceu o marido a ir ao hospital.

Ele disse que só tinha levantado um livro de mal jeito. A esposa – que é técnica de enfermagem – disse que um homem com mais de cinquenta, colesterol alto, dor aguda no braço e formigamento tinha que ir para o hospital imediatamente. E foram.

O relato de Dalton fala em mais de 24 horas internado, em que fez todo tipo de exame para conferir se ele não tinha tido um ataque cardíaco ou angina. Felizmente estava tudo certo com coração e artérias. Quando veio o cardiologista, o paciente explicou que ele só tinha levantado um livro pesado de mau jeito.

Pesado quanto?, perguntou o médico. Dois quilos e meio, chutou Dalton. A esposa disse que pesava pelo menos três. Segundo a Amazon, o X-Statix Omnibus, de 1200 páginas, pesa três quilos e meio.

“Nesse caso, você tem que pegar sempre em ângulo reto e com as duas mãos”, disse o cardiologista. E lhe deu alta.

Foto: Sandro R. Fernandes

A Panini Brasil lançou seu formato Omnibus oficialmente com Conan, o Bárbaro: A Era Marvel vol. 1, lançado este mês. Ainda é um omnibus pequeno, com 776 páginas e 2,7 quilos. O próximo lançamento da linha, Quarteto Fantástico por John Byrne vol. 1, previsto para dezembro – um dos que Russel Dalton tinha – tem previsão de 1096 páginas.

(O formato chegou no Brasil sem ser nomeado em Superman: À Prova de Balas, também pela Panini, em 2015, com 680 páginas. A Mythos tem lançado volumes de Hellboy Omnibus desde o ano passado, que vão das 270 às 570 páginas.)

Nos EUA, o formato estreou nos quadrinhos em 2005 com outra coleção do Quarteto, da fase Lee/Kirby dos anos 1960. Dado o alto custo de produção e o fato de ser novidade no mercado, os omnibus compreensivelmente engatinharam nos primeiros anos, mas em seguida se integraram aos lançamentos mensais tanto da Marvel quanto da DC Comics.

Em 2015, por exemplo, as duas editoras lançaram, juntas, 25 omnibus. A DC anunciou quatro omnibus inéditos para dezembro deste ano, enquanto a Marvel anunciou quatro inéditos e duas reimpressões.

Qual é o Omnibus mais perigoso para levantar de mau jeito? Parece que é Batman: The Arkham Saga Omnibus, com todos os quadrinhos baseado na série de games. Saiu em 2018, tem 1648 páginas e 3,9 quilos.

O formato não nasceu nos quadrinhos, e sim na literatura. Qualquer livro grandão que reúna vários livros do mesmo autor ou do mesmo tema pode ser chamado de Omnibus. Tem omnibus de Sherlock Holmes, de Júlio Verne, de ficção científica.

No Reino Unido, a editora Gollancz ficou famosa pelos livrões de 500+ páginas, reunindo três ou mais romances policiais a preço atraente. O preço é parte importante do formato: comprar esses três livros num pacote só era mais barato do que comprar os três livros separados. As edições não tinham luxo: papel fuleiro, capa simples e aquela lombada que quebra quando você abre. O que importava era a economia.

Aliás, o nome vem do preço baixo: omnibus era o nome do transporte público municipal inventado na França na década de 1820. Sim, é daí que vem nosso “ônibus”. A tradução é mais ou menos “para todos” – uma coisa acessível, que atenda o maior público possível. Que seja pro “coletivo”, como a gente também chama nossos ônibus.

No caso de quadrinhos como os da Marvel ou da DC, é difícil atender o coletivo. Há impeditivos gráficos: a capa dura é praticamente indispensável, porque com a encadernação de capa cartonada você não consegue abrir um livro de mil páginas. Se a HQ tiver páginas duplas, você vai perder um pedaço considerável da arte. Além disso, a impressão é colorida e o papel, no mínimo, não pode ser transparente. A soma de tudo isso sai caro.

Ainda assim, os Omnibus saem mais baratos do que comprar edições avulsas, ou mesmo os encadernados fininhos. 100 Bullets Omnibus, que sai em janeiro nos EUA, traz 58 edições da série de Azzarello e Risso a preço de capa de 150 dólares (em 1376 páginas). Cinquenta e oito edições avulsas, hoje, custariam 232 dólares. Em oito encadernados, custariam por volta de 160 dólares.

Mas a grande esquema é o seguinte: ninguém compra Omnibus pelo preço de capa. Encontra-se o 100 Bullets Omnibus por menos de 100 dólares.

Marvel e DC testaram formatos de republicação desde os anos 1980, começando pelas capas duras nos Marvel Masterworks (no Brasil, Coleção Histórica) e nas DC Archive Editions ou DC Chronicles. Como o nome diz, só republicavam material clássico. Nos anos 1990, a Marvel veio com os Essentials: volumões de umas 500 páginas, em preto e branco, do mesmo tipo de material – e bem baratos. Anos depois a DC criou um formato parecido, o Showcase Presents.

Foi nos anos 2000 que as duas editoras começaram a colecionar quase tudo que já tinham publicado. Começava pelos encadernados simples, ou trade paperbacks. Algumas coisas saíam em capa dura. As grandes livrarias online cresceram junto, vendendo esse material com desconto em relação às comic shops.

Se ia ter desconto, quem sabe apostar em preços mais altos? Baseado nos DVDs Edição de Colecionador, Scott Dunbier criou na DC/Wildstorm um formato de altíssimo luxo, o Absolute: tamanho avantajado, capa dura, papel grosso, sobrecapa, estojo e um monte de extras. O primeiro foi o Absolute Authority, de 2002.

Já saíram mais de uma centena de Absolutes, reservados a material comprovadamente clássico (ou que a editora quer que vire clássico). Custam na faixa dos 100 dólares e giram em torno das 250 páginas. Os Omnibus vieram logo depois, com menos luxo (sem estojo, geralmente sem extras, papel mais fino), mesmo preço e mais parrudos.

Hoje também se encontra nos EUA as Ultimate Collections, as Epic Collections, as Deluxe Editions e outros formatos de luxo, de peso ou das duas coisas. Você pode ter, por exemplo, Uncanny X-Men 1 a 30 em um Omnibus (preço de capa: 100 dólares), em uma Epic Collection e meia (40 dólares cada) ou em três Marvel Masterworks (50 dólares cada).

Sandman completa? Em três Omnibus (150 dólares cada), seis Absolutes (US$ 100, cada), treze coletâneas (US$ 20, cada – também num box set por 250) e, em breve, numa coleção Deluxe Edition que deve fechar em seis volumes (US$ 50, cada).

A última novidade no ramo dos quadrinhos de luxo? As King-Size Editions da Marvel. Steranko Is Revolutionary, que saiu no mês passado, com tudo que o autor clássico fez em Nick Fury, Agent of S.H.I.E.L.D., tem 336 páginas em capa dura e formato 38x57 cm – maior que um recém-nascido. Pesa quase seis quilos e o preço de capa é US$ 125.

O Conan Omnibus da Panini aportou aqui a R$ 249. Quarteto Fantástico por John Byrne Omnibus volume 1 vai custar R$ 349. Mesmo que venham descontos, são produtos bem caros para o poder de compra do consumidor brasileiro. Os valores assustam em relação ao tradicional gibizinho barato de banca.

So que gibizinho barato de banca é justamente o que um Omnibus não é. É um material de colecionador. Você tem que fazer algumas contas no seu orçamento familiar – no orçamento familiar do ano – antes de decidir se vai comprar. E, claro, ter certeza de que você gosta do Conan raiz ou do Quarteto do Byrne.

O fato é que não se espera que um leitor descubra Conan ou Byrne a partir de um tijolo desses. Um Omnibus – ou um Absolute, uma Deluxe Edition, uma King Size Edition – é feita para leitores iniciados. Muitas vezes, nem para ler. É para a estante, numa qualidade que você confia que deve durar mais que um gibi de grampos, cola ou papel fuleiro.

Mas e quem quer ler? Quem não é iniciado devia ter chance de descobrir material tipo o Conan raiz, não? Claro. E não vão gastar 250 reais para saber se gostam, não é? Então, como?

A exemplo do que acontece no mercado norte-americano e em outros, as editoras apostam progressivamente em formatos mais em conta. O Omnibus de Conan, por exemplo, já havia sido lançado praticamente de forma integral no Brasil nos quatro volumes de As Crônicas de Conan (Mythos, 2016-2019).

É claro que depende de análise de demanda, mas um Omnibus pode virar quatro, ou seis, ou oito encadernados com valor individual mais baixo. O mesmo pode acontecer com o Quarteto do Byrne.

Mas, tal como também acontece no mercado dos EUA, as editoras tendem a apostar antes na coletânea mais cara e depois passar às versões mais baratas. E nem falamos da possibilidade de lançar tudo isso em digital, em valores ainda mais acessíveis.

Foto: Gem Mint Collectibles

Ou seja: não tenha medo de que, ao gastar seus trezentos e tantos reais num Omnibus, você esteja dizendo à editora que pode publicar todos os gibis a trezentos e tantos reais. Não vai acontecer. O Omnibus é uma opção que a editora disponibiliza a um punhado de colecionadores convictos, que curtem mesmo aquele material. Você decide se faz parte deste punhado e, claro, tem que saber onde gastar e onde não gastar seu dinheirinho.

Outros formatos virão caso você ainda não conheça o Quarteto do Byrne. E não se preocupe: Quarteto do Byrne vai durar e ser republicado para sempre.

O que devia lhe causar preocupação são outras duas coisas:

- Como segurar um omnibus direito, de forma a não escangalhar seu braço e parar no hospital, como no caso acima.

- Como chamar dois omnibus? Seriam omnibi, como manda o latim, omnibuses, como dizem os americanos, ou seriam dois omnibus, tal como a gente não pluraliza “ônibus”? Esta, sim, é uma discussão válida. Cartas para esta coluna, por favor.

P.S.: Acompanhei a discussão sobre as páginas do Conan Omnibus que não foram traduzidas e, sim, foi uma decisão editorial consciente e errada.

GIBI É LITERATURA? ENTÃO TOMA CENSURA

No mês passado, a Associação das Bibliotecas dos EUA liberou uma lista dos 100 livros que mais foram vítimas de contestação ou mesmo de proibição no país na década de 2010 a 2019. A lista, que inclui best-sellers como Cinquenta Tons de Cinza e Os Treze Porquês e clássicos como 1984, também trouxe dez quadrinhos, alguns em posição de destaque:

7. Drama, Raina Telgemeier (no Brasil, pela Devir)
16. Bone, Jeff Smith (Todavia)
31. Fun Home, Alison Bechdel (Todavia)
40. Persépolis, Marjane Satrapi (Quadrinhos na Cia.)
43. Aquele Verão, Mariko Tamaki e Jillian Tamaki (Mino)
59. Neonomicon, Alan Moore e Jacen Burrows (Panini)
70. Habibi, Craig Thompson (Quadrinhos na Cia.)
71. Saga, Brian K. Vaughan e Fiona Staples (Devir)
72. Stuck in the Middle, Ariel Schrag
97. The Walking Dead, Robert Kirkman, Charlie Adlard e outros (Panini)

Muita gente pergunta: “Por que Bone?” Como aconteceu com todos da lista, a série foi retirada de bibliotecas públicas ou escolares porque pais ou professores consideraram imprópria para leitura de crianças – e Bone está, devidamente, na seção infantil. Segundo o CBLDF, os motivos para contestação foram “ponto de vista político, racismo e violência”. E ninguém entendeu essa acusação de “racismo”.

É ótimo saber que quase todos os “contestados” saíram no Brasil. Fica a frase de Chris Ware: “Uma lista de livros proibidos também é das melhores listas de recomendação de leitura que há!”

UMA PÁGINA

Duas: de CWB, de José Aguiar, último lançamento do autor curitibano. E é justamente uma HQ sobre Curitiba, misturando os ícones municipais numa história sem palavras sobre passear, viver e sofrer a cidade.

Além de ser uma bela homenagem a Curitiba, é uma aula de ilustração, de narrativa e de experimentação gráfica. Está à venda com exclusividade no site da Loja Itiban (de Curitiba).

UMA CAPA

De Mickey et la Terre des Anciens, com desenho de Silvio Camboni e cores de Samuel Spano. O álbum chegou nas livrarias francesas no final de setembro, já na lista dos mais vendidos.

Tem um preview aqui, que espanta tanto quanto a capa.

É o segundo álbum de Mickey pela dupla e pelo roteirista Denis-Pierre Filippi. O primeiro foi Mickey et l’océan perdu, de 2018. Os dois são inéditos no Brasil e fazem falta.

(o)

Sobre a coluna

Toda sexta-feira, virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato.

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