Destruidor de Mundos | Leia um trecho inédito do novo livro de Victoria Aveyard

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Destruidor de Mundos | Leia um trecho inédito do novo livro de Victoria Aveyard

Publicação chega ao Brasil em maio

Camila Sousa e Milena Santos
16.04.2021
17h17

A Editora Seguinte, que faz parte da Companhia das Letras, divulgou com exclusividade ao Omelete um trecho de Destruidor de Mundos, novo livro de Victoria Aveyard. A publicação chegará ao Brasil em 14/05, com tradução de Guilherme Miranda e Lígia Azevedo. Confira abaixo também a capa e sinopse da publicação, seguido do trecho inédito.

Ano após ano, Corayne assiste sua mãe, uma célebre pirata, partir para o alto-mar e desbravar todos os reinos de Todala, sem jamais poder acompanhá-la. Quando um misterioso imortal e uma assassina de aluguel aparecem dizendo que ela é a última descendente viva de uma poderosa linhagem — e a única pessoa capaz de salvar o mundo de um perigo iminente —, ela aproveita a chance para ir em busca de sua própria aventura.

O problema é que o perigo é muito maior do que ela imaginava: um homem sedento por poder, determinado a reabrir os portais que, no passado, levavam para outros mundos, povoados por criaturas sinistras. Com a ajuda de um grupo de bandidos e maltrapilhos, Corayne terá de provar que o heroísmo pode surgir até nos lugares mais inesperados.

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— Espalhe por aí que estou em busca de remadores — Meliz interrompeu, girando a taça.

O pedido pegou Corayne de surpresa. Ela piscou, confusa.

— Ainda faltam pelo menos duas semanas para precisarmos nos preparar para outra jornada, e podemos fazer essa com menos gente se necessário.

Velas curtas em águas tranquilas, percorrendo rotas leves e velozes ao longo da costa. Corayne conhecia as viagens da Filha da Tempestade como a palma de sua mão e tentou se planejar com base nelas. As jornadas de verão não oferecem muito perigo. São boas para quem quer aprender.

O sorriso de Meliz se fechou, uma máscara caindo.

— Costas fortes, bom ritmo, sem frescura.

— Para onde? Para quando? — Mudanças na programação significavam erros, riscos maiores. E atrapalhavam os planos dela.

— Você virou minha mãe agora? — Meliz ironizou, mas sua voz era ácida. — Apenas cuide para que sejam bons recrutas. Não preciso de imbecis ingênuos em busca de aventura, correndo atrás de uma história de Fuso, um conto de fadas ou a boa e velha glória no mar Longo.

Corayne enrubesceu e baixou a voz.

— Aonde você vai, mãe?

— Eles tendem a morrer, e morrer decepcionados — Meliz murmurou, tomando seu vinho.

— Desde quando você se importa em perder membros da tripulação? — Corayne retrucou, meio consigo mesma. As palavras tinham um gosto amargo, injustas e imprudentes. Ela quis voltar atrás assim que a frase saiu de seus lábios.

— Eu sempre me importo, Corayne — Meliz disse com frieza.

Aonde você vai?

— Os ventos parecem favoráveis.

— Os ventos ainda vão estar favoráveis daqui a um mês.

Meliz olhou para as janelas, na direção do mar, e Corayne se sentiu perdida.

— O Jaiah de Rhashir finalmente morreu, deixando dezesseis filhos em guerra pelo trono. Alguns dizem que a causa foi velhice ou doença. Outros acreditam em assassinato. Seja como for, o conflito facilita as coisas para nós. É uma boa oportunidade — Meliz disse rapidamente e com firmeza. Como se as palavras só precisassem ser ditas para se tornarem verdade.

Um mapa consumiu a visão de Corayne em um turbilhão de azul, verde e amarelo. Ela visualizou claramente as rotas marítimas e costas, os rios e montanhas, os reinos e fronteiras conhecidas. Todos os lugares que conhecia sem nunca ter visitado, de que tinha ouvido falar sem nunca ter colocado os pés lá. Os quilômetros passavam voando, de Lemarta ao golfo do Tigre, à Todafloresta, à Coroa de Neve — as grandes maravilhas de terras distantes. Ela tentou imaginar Jirhali, a grandiosa capital de Rhashir, uma cidade de arenito verde-claro e cobre polido. Sua imaginação não era capaz.

— São cerca de seis mil quilômetros até as costas deles, em linha reta — ela murmurou, abrindo os olhos. Havia apenas o mapa. Sua mãe já estava longe, fora de seu alcance. — Com um vento bom, corrente favorável, sem tempestades, sem adversidades... você ficará meses longe. — Sua voz embargou. — Se é que vai voltar.

Uma viagem perigosa, muito diferente do que planejamos.

Meliz não se moveu.

— É uma boa oportunidade. Prepare o navio. Partimos em três dias.

Tão cedo, Corayne praguejou, os dedos apertando o tampo da mesa.

— Preciso perguntar...

— Não — Meliz disse, sem pestanejar, levando a taça aos lábios novamente.

Uma centelha furiosa se acendeu no peito de Corayne, afugentando seu medo.

— No inverno você disse...

— Não fiz nenhuma promessa no inverno.

Suas palavras eram terrivelmente definitivas, como uma porta se fechando.

Corayne fechou o cenho, usando toda a sua determinação para manter as mãos na mesa e não virar a taça da mãe. Algo bradou em seus ouvidos, abafando todos os sons além da sua mãe e da rejeição.

Você sabia o que ela diria, pensou. Sabia e se preparou. Você está pronta para fazer por merecer.

— Eu sou um ano mais velha do que você era quando partiu para o mar. — Corayne buscou agir como parte da tripulação. Determinada, confiante, capaz. Todas as coisas que muitas pessoas enxergavam nela. Muitas pessoas menos a minha mãe.

Meliz cerrou o maxilar.

— Não era minha escolha na época.

A resposta de Corayne foi rápida, a flecha já encaixada e mirada.

— Sou mais útil na água. Vou ouvir mais; posso negociar; posso guiar. Pense no que a Filha da Tempestade era antes de eu começar a ajudar. Sem rumo, desorganizada, sobrevivendo por um triz, desperdiçando metade da carga por falta de comprador. — Corayne usava todas as suas forças para não assumir um tom de súplica. Sua mãe não se mexeu, não piscou, nem mesmo parecia escutar. — Conheço as cartas quase tão bem quanto Kireem ou Scirilla. Eu posso ajudar, especialmente em uma viagem tão longa e tão distante.

Você parece idiota. Parece uma criança implorando pelo brinquedo preferido. Seja racional. Seja lógica. Ela sabe seu valor; sabe e não tem como negar. Corayne inspirou fundo, silenciando seus pensamentos enquanto dizia em voz alta:

— Comigo a bordo, seus lucros vão triplicar, no mínimo. — Corayne cerrou o punho no tampo da mesa. — Eu garanto. E nem vou receber por isso.

Havia mais a dizer: mais listas para desfiar, mais verdades duras que sua mãe não teria como menosprezar. Mas Meliz continuava firme.

— Minha decisão está tomada, Corayne. Nem mesmo os deuses podem mudá-la — a capitã disse, com uma voz diferente. Corayne ouviu um tom de súplica nela também. — Meu bem, você não sabe o que está pedindo.

Corayne estreitou os olhos escuros.

— Ah, acho que sei, sim.

Algo se desfez em Meliz, como uma muralha desmoronando.

— Sou boa no meu trabalho, mãe — Corayne disse, dura. — E meu trabalho é escutar, pensar, fazer conexões e prever. Você pensa que as pessoas aqui não falam de você e de sua tripulação? — Ela apontou o queixo para o resto do salão, que continuava ruidoso. — Sobre o que vocês fazem em mar aberto?

Meliz se inclinou para a frente tão rápido que Corayne quase caiu da cadeira.

— Sim, somos criminosos — a capitã sussurrou, furiosa. — Contornamos as leis da coroa. Transportamos o que os outros não querem ou não podem transportar. Isso é contrabando. É perigoso. Você sempre soube. — A explicação também era esperada, mais uma mentira de Meliz an-Amarat. — Meu trabalho é perigoso, isso é verdade — a mulher continuou. — Corro riscos toda vez que zarpamos, assim como todos neste salão. E não vou incluir você nisso.

— Os recrutas jydeses. Eles sobreviveram, não? — Corayne perguntou, seu tom inexpressivo e distante.

No balcão, os gêmeos pálidos pareciam assustadiços como coelhos em uma arapuca.

Meliz fechou a cara.

— Eles se juntaram a nós em Gidastern. Fugiram de alguma guerra miserável de clãs.

Mais mentiras. Ela lançou um olhar feroz e sombrio para a mãe, na esperança de ver a verdade por trás. Na esperança de que Meliz soubesse que a filha via a verdade por trás.

— Eles sobreviveram a algum navio que você encontrou no mar Vigilante, um navio que vocês atacaram, saquearam e afundaram.

— Desta vez, isso não é verdade — Meliz retrucou, quase vociferando. — Você, com essas cartas e listas. Isso não quer dizer que sabe como o mundo realmente funciona. Os jydeses não são saqueadores. Algo está errado no Vigilante. Aqueles meninos estavam fugindo, e lhes dei um lugar para ir.

MENTIRAS, Corayne pensou, sentindo cada uma como uma facada.

— Você é uma contrabandista — ela respondeu, batendo a mão na mesa. — Quebrou as leis de todos os reinos daqui até a foz de Rhashira. E você é uma pirata, capitã an-Amarat. Temida em toda a Ala pelo que faz com os navios que caça e devora. — Corayne avançou para que elas ficassem cara a cara sobre a mesa. A máscara de Meliz havia caído, havia perdido o sorriso tranquilo. — Não me venha fingir vergonha. Sei o que você é, mãe, o que precisa ser. Sei há muito tempo. E sou parte disso, acredite ou não, desde sempre.

Do outro lado do seden, um copo se estilhaçou, seguido por um estrondo de gargalhadas. Nem mãe nem filha vacilaram. Um canyon se abriu entre elas, preenchido apenas por silêncio e ímpeto.

— Eu preciso disso. — A voz de Corayne embargou, cedendo sob o peso do desespero. — Preciso ir embora. Não aguento mais ficar aqui. Parece que o mundo está crescendo em cima de mim. — Ela buscou as mãos da mãe, mas Meliz recuou. — É como ser enterrada viva, mãe.

A capitã se levantou, o vinho na mão. Seu silêncio era incomum. E um mau sinal. Águas calmas antes de uma tempestade. Corayne trincou os dentes, preparando-se para mais mentiras e desculpas.

A capitã nem se deu ao trabalho.

— Minha resposta sempre será não.

Seja racional, Corayne se repreendeu, mesmo ao dar um salto da cadeira, os punhos cerrados. A capitã dos piratas não se moveu, o olhar firme e descontente.

O desespero arrepiou a pele de Corayne. Ela se sentia como uma onda se quebrando, se desfazendo em espuma ao chegar à costa. Seja racional, pensou de novo, embora a voz estivesse mais fraca, mais distante. Cravou as unhas na palma das mãos, usando a dor para se sentir ancorada.

— Você não pode tomar decisões por mim — ela disse, controlando-se. — Não estou pedindo permissão. Se você não me contratar, vou encontrar um capitão que me contrate. Que enxergue meu valor.

— Não ouse fazer isso. — Meliz atirou a taça de vinho no chão. Seus olhos se iluminaram, ameaçando botar aquele lugar abaixo.

Ela pegou a filha pelo colarinho, sem nenhum carinho. A tripulação mal deu atenção.

— Olhe ao redor — rosnou em seu ouvido.

Corayne ficou imóvel, sem conseguir se mexer, chocada.

— Essa é minha tripulação. Eles são assassinos, todos eles. Olhe para nós, Corayne.

Engolindo o nó na garganta, ela obedeceu.

A tripulação da Filha da Tempestade era uma família, de certo modo. Semelhante em suas mãos cobertas de cicatrizes, peles maltratadas pelo sol, cabelos descoloridos, músculos salientes. Semelhantes como irmãos e irmãs, apesar de suas origens diversas. Bebiam, brigavam e tramavam em conjunto, sob uma única bandeira, unidos diante do mastro e do comando de sua mãe. Corayne os viu como sempre os tinha visto: barulhentos, bêbados, leais. Mas o alerta ecoava. Eles são assassinos, todos eles.

Nada mudou e, porém, nada foi como antes.

Sua visão se embaralhou, e ela os viu como o mundo os via, como eles eram na água. Não uma família, não amigos. Ela se sentiu presa em um covil de predadores. Uma faca cintilou no quadril de Ehjer, tão comprida quanto seu antebraço. Quantas gargantas ela já cortou? O grande brutamontes jydês estava de mãos dadas com o navegador, Kireem, dourado e sem um olho, que perdera sabem os deuses como. Em qualquer lugar que olhasse, Corayne via rostos conhecidos, que, porém, eram um mistério para ela, distantes e perigosos. Symeon, jovem e belo, a pele como uma pedra negra lisa, um machado equilibrado aos pés. Brigitt, um leão rugindo tatuado no pescoço de porcelana. Gharira, a pele e a cabeleira cor de bronze, que usava uma cota de malha por toda parte, até no mar. E assim por diante. Eles transbordavam cicatrizes e armas, endurecidos pela Ala e pelas águas. Ela não os conhecia, não para valer.

Quantos navios, quantas tripulações, quantos mortos foram deixados na esteira de minha mãe?, teve vontade de perguntar. Queria nunca saber. Mas você sabia — você sabia o que eles eram, Corayne disse a si mesma. É isso que sua mãe quer, afugentar você, manter você em terra firme, sozinha em um lugar parado às margens do mundo. Uma boneca em uma prateleira, cujo único medo é juntar poeira. Ela mordeu o lábio, obrigando-se a se manter firme e encarar a situação. O salão estava cheio de feras em pele humana, suas garras feitas de aço. Se Corayne olhasse com atenção, poderia ver o sangue que todos tinham nas mãos. Inclusive ela própria.

— Assassinos, todos eles — Meliz repetiu, o punho firme. — Eu também sou. Você, não.

Corayne inspirou, trêmula, os olhos se enchendo de lágrimas. Ela culpou o ar esfumaçado.

— Você pensa que não tem ilusões, Corayne, mas continua cega por várias. Livre-se delas. Veja o que somos e o que você não pode ser. — Meliz a encarou fixamente, seu olhar intensificado pela maquiagem escura traçada em volta dos olhos. Seu tom se suavizou. — Você não tem coragem para isso, minha filha querida. Você vai ficar.

Corayne nunca havia se sentido tão sozinha, tão distante da única família que conheceu. Você não tem coragem. Você não é uma de nós. Quando Meliz soltou sua gola, Corayne sentiu como se estivesse caindo, arrastada por uma maré invisível. Era fria e cruel, e tão injusta. Seu sangue se inflamou.

— Pelo menos meu pai teve a bondade de só me abandonar uma vez — Corayne disse com frieza, os dentes à mostra. Com determinação, afastou-se de Meliz. — Você fez isso mil vezes.

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