Crônicas Omeléticas: Quadrinhos são o castelo do Graal
Crônicas Omeléticas: Quadrinhos são o castelo do Graal
No
livro HE, o psicólogo norte-americano Robert Johson explica
a psicologia masculina através do mito da busca do Santo Graal.
O personagem principal é o jovem Percival, um cavaleiro da Távola
Redonda.
Certo dia, durante suas andanças, ele entrou em um castelo belíssimo e imponente. Era ali que estava o Santo Graal, o cálice usado por Jesus durante a última ceia. Todos o recepcionaram muito bem e ele se sentiu feliz e maravilhado com os poderes do Graal. O cálice podia, por exemplo, fazer surgir a comida que o convidado desejasse. E podia também curar qualquer ferida. Na manhã seguinte, quando acordou, ele não encontrou mais ninguém no castelo. Estava completamente abandonado e ele teve de ir embora.
Percival passaria o resto de sua vida tentando encontrar novamente o castelo do Graal.
Para Robert Johnson, o episódio é uma metáfora de algo que ocorre com todos os jovens durante a fase da pré-adolescência. Essa é uma fase particularmente difícil, pois o menino não é mais uma criança, mas ainda não é adulto. Todos os meninos entram no castelo do Graal ao menos uma vez na vida e essa experiência irá marcá-los pelo resto da vida. Assim como Percival, eles passarão o resto da existência tentando voltar para o castelo.
O que tudo isso tem a ver com quadrinhos&qt;&
Pare para pensar. Se tem mais de vinte anos e continua gostando de quadrinhos é porque há uma boa lembrança associada a eles. Em outras palavras: muitas pessoas - e eu entre elas - entraram no castelo do Graal graças aos quadrinhos.
Tenho conversado com outros leitores de gibis e todos eles têm algum episódio semelhante ao de Percival. José Aguiar, desenhista do Gralha, saía de casa todos os dias de manhãzinha com sua bicicleta e ia direto para um sebo próximo de sua casa, onde ele comprava ou trocava gibis. Essa experiência o marcou profundamente e eu não tenho dúvida nenhuma de que esse foi um dos fatores que o influenciaram a se tornar desenhista.
Lembro
que quando estávamos na sétima série a revista preferida
de todos era a Superaventuras Marvel. Nós sabíamos a data
em que ela chegava nas bancas e saíamos correndo para ver quem chegava
primeiro. Como
tinha pouco dinheiro para comprar gibis, eu usava de um estratagema. Eu conhecia
um sebo que ficava próximo da Igreja e que vendia revistas a preço
de banana. Eu passava lá todo domingo e comprava as Heróis
da TV, que um amigo da escola colecionava. Depois eu vendia para ele, pelo
dobro do preço. Claro que antes de passar pra frente, eu lia e relia
a revista e esses momentos eram tão sagrados que me faziam esquecer a
chateação que era ser obrigado a ir à igreja.
Aquela experiência - comprar a revista e nem esperar chegar em casa para começar a lê-la - era uma verdadeira entrada no castelo do Grall.
Só
com a saga da Fênix foram centenas de entradas no castelo do Grall,
até porque os X-Men, assim como a busca do Cálice Sagrado,
são um mito sobre o fim da infância (prometo falar sobre isso em
outro artigo).
Cada vez que eu leio uma HQ é como se eu estivesse voltando àquela época mágica da pré-adolescência. E quando escrevo histórias, fico imaginando que talvez eu esteja proporcionando a outros garotos as mesmas sensações que eu sentia lendo quadrinhos.
É interessante notar que o tipo de quadrinho que você lê na pré-adolescência vai influenciar seu gosto pelo resto da vida. O desenhista Antonio Eder odeia super-heróis. Também, pudera: ele passou toda a pré-adolescência lendo revistas Kripta e nesse período nunca botou os olhos num gibi de super-heróis. O desenhista Bené Nascimento (Joe Bennet) passou essa fase lendo HQs do Jack Kirby. Hoje ele compra qualquer coisa sobre o velho Jack, até caríssimos fanzines importados.
Pare
um instante e pense. Se você gosta de quadrinhos, é bastante provável
que você tenha, em algum momento, entrado num castelo do Graal feito todinho
de histórias em quadrinhos. Mas
há um lado disso tudo que me preocupa.
É que as grandes editoras estão deixando de lado o mercado pré-adolescente. A Abril, por exemplo, abandonou completamente esse público. Eles agora só estão interessados no público adulto, que tem 10 reais para gastar com uma só revista.
Mas e a garotada que já deixou de gostar de coisas como Pato Donald e Mônica, mas ainda não tem idade, nem grana, para comprar as revista da Abril&qt;&
O que vai acontecer com aqueles guris que saem da escola com dois reais no bolso e passam na banca mais próxima para comprar sua passagem ao castelo do Graal&qt;&
Parece que poucas pessoas, mesmo no quadrinho nacional, estão preocupadas com esse público. Conclusão lógica: se essa garotada que está aí agora não aprender a entrar no castelo do Graal com os gibis, eles não lerão quadrinhos quando forem adultos. Se a minha geração hoje gasta 30 reais com o Do Inferno do Alan Moore é porque nós tivemos ótimos momentos lendo coisas como o Demolidor e os X-men quando éramos pouco mais que crianças.
Se isso continuar, se ninguém começar a investir nesse público, daqui a cinco anos o mercado será tão pequeno que uma revista que vender oito mil exemplares será um best seller.
Talvez esta seja a hora da HQB começar a investir nesse público.
Como diria o Stan Lee, "Excalibur"!
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