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As Crônicas de Âmbar: Tomo 2 | Leia o 1º capítulo de Arcanjos da Perdição

Livro chegará às melhores livrarias do Brasil em 2 de março

Omelete
22 min de leitura
Pedrinho
28.02.2026, às 10H00.

As Crônicas de Âmbar, de Roger Zelazny, é uma das sagas mais relevantes da literatura moderna, com mais de 15 milhões de cópias vendidas — e o Tomo 2 será lançado no Brasil no próximo dia 2 de março. Para celebrar a chegada da publicação, que terá quase 900 páginas, o Omelete e a Intrínseca te convidam a ler o primeiro capítulo de “Arcanjos da Perdição” na íntegra e gratuitamente!

Debatendo filosofia, relações de poder e familiares, As Crônicas de Âmbar inspirou uma geração de escritores de fantasia — incluindo George R.R. Martin, que foi amigo de Zelazny até sua morte, em 1995, e professou frequentemente a influência de Âmbar em suas Crônicas de Gelo e Fogo, que por sua vez geraram a série Game of Thrones.

Omelete Recomenda

Após os acontecimentos derradeiros do último livro, Merlin, herdeiro das duas realidades, deve percorrer um caminho entre sombras, segredos e feitiçaria em busca das respostas de que precisa, mas que podem abalar todo o multiverso. 

Vivendo na Terra de Sombra como estudante de ciência da computação, ele constrói em segredo o Roda-fantasma, um artefato senciente que une a lógica das máquinas ao poder dos arcanos de Âmbar. Mas, o que começa como uma tentativa de reencontrar o pai desaparecido, logo o envolve em uma teia de conspirações familiares, assassinatos, amores perdidos e conflitos entre poderes cósmicos.

A seguir, você encontrará a íntegra do primeiro capítulo do Livro 6: Arcanjos da Perdição, da série As Crônicas de Ambar: Tomo 2, de Roger Zelazny.

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Divulgação

 - UM -

É um saco ficar esperando até alguém aparecer para tentar matar a gente. Mas era 30 de abril, e é óbvio que, como sempre, aquilo estava para acontecer. Eu havia demorado um pouco para perceber, mas agora pelo menos eu sabia quando seria. Antes, vivia ocupado demais  para tomar qualquer providência. Mas meu trabalho já tinha acabado.Só  continuei aqui para isso. Achei que seria melhor resolver essa questão  antes de ir embora. 

Saí da cama, fui ao banheiro, tomei banho, escovei os dentes etc. Como eu tinha deixado a barba crescer de novo, não precisei me barbear. Nenhuma  sensação apreensiva estranha me incomodava, ao contrário daquele 30 de  abril de três anos atrás, quando acordei com uma dor de cabeça e uma  premonição, abri as janelas e fui até a cozinha, onde descobri que todas  as bocas do fogão estavam ligadas, mas sem chama. Não. Também não foi  como aquele 30 de abril do ano retrasado, no outro apartamento, quando  acordei antes do amanhecer com um leve cheiro de fumaça e dei de cara  com o incêndio. Ainda assim, mantive distância de todos os pontos de luz,  para o caso de as lâmpadas estarem cheias de alguma substância inflamável, e desliguei todos os interruptores, em vez de ligar. Nada de anormal  aconteceu depois dessas medidas. 

Em geral, eu programava a cafeteira na noite anterior. Nessa manhã, porém, eu não queria nenhum café que não tivesse sido feito na minha frente. Liguei a máquina para começar o preparo e fui conferir minhas malas enquanto esperava ficar pronto. Todas as coisas que tinham valor cabiam em  duas caixas de tamanho médio: roupas, livros, quadros, alguns instrumentos, algumas lembrancinhas e assim por diante. Fechei ambas. Uma muda  de roupa, um suéter, um bom livro e um talão de cheques de viagem foram  para a mochila. Eu deixaria minha chave com o gerente na saída, para que  ele pudesse abrir a porta para a empresa de mudanças. As caixas iriam para  o depósito. 

Nada de sair para correr nessa manhã. 

Enquanto tomava o café, indo de janela em janela e parando ao lado de cada uma para espiar de relance as ruas abaixo e os prédios na calçada  oposta (o atentado do ano anterior tinha sido alguém com um fuzil), relembrei a primeira vez que tinha acontecido, sete anos antes. Eu caminhava  pela rua em uma tarde ensolarada de primavera quando um caminhão desviou da pista, subiu na calçada e quase me esmagou contra um muro de  tijolos. Consegui pular para fora do caminho e rolar no chão. O motorista  nunca recobrou a consciência. Na época, pareceu uma daquelas situações  estranhas que às vezes invadem a vida das pessoas. 

No ano seguinte, exatamente no mesmo dia, quando eu voltava da casa da minha garota tarde da noite, três homens me atacaram (um com faca  e os outros dois com pedaços de cano) sem sequer terem a delicadeza de antes pedirem a minha carteira. 

Deixei os trapos na entrada de uma loja de discos ali perto e, apesar de ter remoído a situação durante todo o caminho de volta para casa, só  no dia seguinte me dei conta de que fazia um ano desde o incidente com  o caminhão. Ainda assim, achei que não passava de uma coincidência esquisita. Mas a bomba enviada pelo correio, que destruíra metade de outro  apartamento no ano seguinte, me fez começar a pensar se a natureza estatística da realidade não estaria sendo forçada à minha volta nessa época.  E os acontecimentos dos anos posteriores serviram para transformar essa  suspeita em convicção. 

Alguém gostava de tentar me matar uma vez por ano, simples assim. Se a tentativa falhasse, haveria uma pausa de mais um ano antes da próxima. Quase parecia um jogo. 

Mas, neste ano, eu também queria jogar. Minha maior preocupação era que ele, ou ela ou aquilo parecia nunca estar presente quando os atentados  aconteciam, preferindo recorrer a tocaias, artimanhas e intermediários. Vou  me referir a essa pessoa como E (que às vezes remete a “espreita” e às vezes  a “escroto” em minha cosmologia pessoal), porque X já estava muito batido  e porque não gosto de brincar com pronomes de antecedentes duvidosos. 

Passei uma água na xícara e no bule de café e os deixei no escorredor.  

Em seguida, peguei a mochila e saí. O sr. Mulligan não estava, ou estava  dormindo, então deixei a chave na caixa de correio dele antes de subir a rua  para tomar café em uma lanchonete ali perto. 

O trânsito estava calmo, e todos os veículos andavam comportados.  

Caminhei devagar, escutando, observando. Era uma manhã agradável, que  prometia um belo dia. Minha esperança era resolver tudo rápido e aproveitar as próximas horas à vontade. 

Cheguei à lanchonete sem contratempos. Sentei-me ao lado da janela. Na mesma hora em que o garçom veio anotar meu pedido, vi uma pessoa conhecida passando pela rua… um antigo colega de turma e, depois, de trabalho: Lucas Raynard. Um e oitenta de altura, ruivo e bonito apesar, ou talvez  por causa, de um nariz artisticamente fraturado, com voz e jeito do vendedor  que de fato era. 

Bati no vidro e ele me viu, acenou, deu meia-volta e entrou. 

— Merle, acertei — comentou, vindo até a mesa, onde apertou meu ombro por um instante, sentou-se e tirou o cardápio das minhas mãos. — Você não estava em casa, e imaginei que poderia estar por aqui. 

Ele abaixou os olhos e começou a ler o cardápio. 

— Por quê? — perguntei. 

— Se quiserem olhar com calma, posso voltar depois — ofereceu o garçom. 

— Não — respondeu Luke, fazendo um pedido enorme.  

Acrescentei o meu.  

E então:  

— Porque você é uma criatura de hábitos — explicou Luke. 

— Hábitos? — repeti. — Faz tempo que não venho aqui. 

— Eu sei, mas você sempre vinha quando estava sobrecarregado. Tipo, logo antes de alguma prova… ou se estivesse incomodado com alguma coisa. — Hum.  

Até fazia sentido, embora eu nunca tivesse reparado. Girei o cinzeiro estampado com uma cabeça de unicórnio, uma versão menor do vitral da  divisória ao lado da porta.  

— Não sei por quê — continuei. — Aliás, por que você acha que tem algo me incomodando? 

— Eu me lembrei daquela sua paranoia com o dia 30 de abril, por causa de um ou outro acidente. 

— Não foi só um ou outro. Nunca contei sobre todos eles. 

— Então você ainda acredita nisso? 

— Acredito. 

Luke encolheu os ombros. O garçom se aproximou e encheu nossas xícaras de café. 

— Certo — respondeu ele, enfim. — Já aconteceu hoje? 

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— Não. 

— Que pena. Espero que não comprometa seu raciocínio. 

Tomei um gole de café. 

— Não tem problema. 

— Ótimo. 

Ele deu um suspiro e se espreguiçou antes de acrescentar:  

— Aqui, acabei de voltar para a cidade ontem… 

— A viagem foi boa? 

— Bati um novo recorde de vendas. 

— Maravilha. 

— Enfim… Só descobri que você tinha saído quando cheguei na empresa. 

— Pois é. Pedi demissão há um mês, mais ou menos. 

— Miller tentou falar com você. Mas, como a sua linha está desativada, ele não conseguiu ligar. Chegou até a visitar algumas vezes, mas você não  estava em casa. 

— Que pena. 

— Ele quer que você volte. 

— Já encerrei por lá. 

— Espere até ouvir a proposta, pode ser? Brady vai ser promovido e você vai ser o novo chefe de Design, com um aumento de vinte por cento. Foi isso  que ele me pediu para contar. 

Dei uma risada de leve. 

— Na verdade, até que não parece nada mal. Mas, como eu disse, já encerrei. 

— Ah. 

Os olhos dele brilharam enquanto me lançava um sorriso malicioso.  

— Você está com planos de ir para outro lugar, é isso? — perguntou. —  

Miller estava na dúvida. Bom, se for isso, é para você levar a oferta dos outros caras, seja qual for. Ele vai fazer de tudo para cobrir. 

Balancei a cabeça. 

— Acho que não fui claro o bastante — insisti. — Já encerrei por lá. Ponto.  

Não quero voltar. E não vou trabalhar para mais ninguém. Para mim, chega.  Estou cansado de computadores. 

— Mas você é muito bom. Vai dar aula? 

— Não. 

— Como assim, cara? Precisa fazer alguma coisa. Recebeu uma herança? 

— Não. Acho que vou viajar um pouco. Já fiquei tempo demais em um lugar só. 

Luke levantou a xícara e a tomou de um gole só. Depois se ajeitou na cadeira, cruzou as mãos na frente da barriga e abaixou um pouco as pálpebras. Ficou em silêncio por um tempo. 

— Você falou que encerrou — comentou, por fim. — Queria dizer só o emprego e sua vida aqui, ou mais alguma coisa? 

— Não entendi. 

— Você dava umas… sumidas na faculdade também. Desaparecia por algum tempo e depois, de repente, voltava do nada. E também nunca tocou  muito nesse assunto. Parecia que estava levando uma vida dupla. Isso tem  relação com o que está acontecendo? 

— Não sei do que você está falando. 

Ele sorriu. 

— Óbvio que sabe — rebateu e, como não respondi, acrescentou: — Bom, boa sorte… seja lá o que for. 

Sempre em movimento, raramente parado, ele começou a mexer no chaveiro enquanto tomávamos a segunda xícara de café, fazendo as chaves e  um pingente de pedra azul chacoalharem. Nossos pedidos enfim chegaram,  e comemos em silêncio por algum tempo. 

E então Luke perguntou: 

— Você ainda tem o Supernova? 

— Não. Vendi no outono do ano passado. Eu andava tão ocupado que não tinha tempo para velejar. Não gostava de ver o barco parado. 

Ele assentiu com a cabeça. 

— É uma pena. A gente se divertiu bastante com ele na época da faculdade. E depois também. Teria sido bom velejar de novo, pelos velhos tempos. 

— Pois é. 

— Aliás, faz um tempo que você não vê a Julia, né? 

— Desde que a gente terminou. Acho que ela ainda está saindo com um  cara chamado Rick. E você, teve notícia dela? 

— Tive, sim. Dei uma passada lá ontem à noite. 

— Por quê? 

Ele deu de ombros. 

— Ela fazia parte da turma… e todo mundo acabou se afastando nos últimos anos. 

— Como ela estava? 

— Linda como sempre. Perguntou de você. E pediu para eu entregar isto aqui. 

Ele tirou um envelope lacrado do bolso do casaco e me entregou. Tinha o meu nome, escrito na letra dela. Rasguei a aba e li: 

Merle, 

Eu estava errada. Sei quem você é e que o perigo é real. Preciso ver você.  

Tenho algo de que vai precisar. É muito importante. Por favor, me ligue ou  passe aqui assim que possível. 

Com amor, 

Julia 

— Obrigado — respondi, abrindo a mochila para guardar a carta. 

Era estranha, inquietante. Muito. Eu teria que decidir o que fazer mais tarde.  

Ainda tinha mais carinho por Julia do que gostaria de admitir, só não sabia se  queria vê-la outra vez. Mas o que ela quis dizer com saber quem eu sou? 

Assim, eu a tirei da cabeça, de novo. 

Fiquei observando o trânsito por um tempo, bebi café e pensei em como conheci Luke, no primeiro ano da faculdade, no Clube de Esgrima. Ele era  incrivelmente bom. 

— Ainda pratica esgrima? — perguntei. 

— De vez em quando. E você? 

— Às vezes. 

— Nunca chegamos a descobrir quem era o melhor. 

— Agora não dá tempo . 

Ele riu e deu umas estocadas com a faca na minha direção. 

— Acho que não. Quando você vai viajar? 

— Só amanhã, acho. Estou resolvendo umas pendências. Assim que terminar, eu vou embora. 

— Vai para onde? 

— Lá e cá. Ainda não decidi tudo. 

— Você é maluco. 

— Sim, sim. Antigamente chamavam isso de Wanderjahr, um período sabático. Nunca tive o meu, e agora quero. 

— Na verdade, até que parece uma ótima ideia. Talvez eu também experimente algum dia. 

— Talvez. Mas achei que você já tivesse aproveitado o seu em parcelas. 

— Como assim? 

— Eu não era o único que costumava sumir com frequência. 

— Ah, aquilo. 

Luke fez um gesto de indiferença com a mão.  

— Era a trabalho, não a prazer — retomou. — Tive que resolver alguns assuntos para pagar as contas. Vai visitar a família? 

Pergunta estranha. Nunca tínhamos falado dos nossos pais antes, só de passagem. 

— Acho que não — respondi. — Como vai a sua? 

Ele encontrou meu olhar, e seu sorriso crônico ficou um pouco mais largo. 

— Difícil dizer. A gente não tem muito contato. 

Também sorri. 

— Sei como é. 

Terminamos de comer, tomamos um último café. 

— Então você não vai procurar Miller? — quis saber ele. 

— Não. 

Outro dar de ombros. A conta chegou, e ele a pegou. 

— Pode deixar que eu pago — ofereceu. — Afinal, estou trabalhando. 

— Obrigado. Talvez eu possa retribuir no jantar. Onde você está hospedado? 

— Espere. 

Ele enfiou a mão no bolso da camisa, tirou uma cartela de fósforos, jogou para mim.  

— Aí. Hotel New Line. 

— Que tal eu dar uma passada lá pelas seis? 

— Pode ser. 

Luke pagou a conta, e nos despedimos na rua. 

— Até mais — disse. 

— Até. 

Tchau, tchau, Luke Raynard. Sujeito estranho. Fazia quase oito anos  que nos conhecíamos. Tivemos alguns momentos de diversão. Competimos em vários esportes. Saíamos para correr juntos quase todos os dias. Nós dois tínhamos participado do time de atletismo. Às vezes, saíamos  com as mesmas garotas. Pensei nele de novo… forte, esperto e tão reservado quanto eu. Havia algum vínculo entre nós, algo que eu não compreendia muito bem. 

Fui andando de volta para o estacionamento do meu prédio e conferi embaixo do capô e do chassi do carro antes de jogar a mochila no banco  e dar partida. Dirigi devagar, observando as coisas que tinham sido novidade oito anos antes enquanto me despedia de tudo. Na última semana,  eu tinha me despedido de todas as pessoas com quem eu me importara. Menos Julia. 

Era uma daquelas tarefas que eu tinha vontade de adiar, mas não dava tempo. Era agora ou nunca, e minha curiosidade havia sido atiçada. Entrei no estacionamento de um shopping e encontrei um telefone público, mas  ninguém atendeu quando liguei para o número dela. Imaginei que talvez  tivesse voltado a trabalhar no turno diurno, ou podia só ter ido tomar banho  ou ao mercado. Decidi ir até a casa dela para descobrir. Não era tão longe.  E, seja lá o que ela pretendia me entregar, buscar em pessoa seria uma boa  desculpa para nos encontrarmos uma última vez. 

Dei uma volta no bairro por alguns minutos até achar uma vaga. Tranquei o carro, voltei até a esquina e virei à direita. O dia tinha esquentado um pouco. Em algum lugar, cachorros latiam. 

Caminhei pelo quarteirão até aquela enorme casa vitoriana que tinha sido convertida em apartamentos. Não dava para ver as janelas dela da rua. 

Julia morava no último andar, nos fundos. Tentei reprimir as lembranças  ao percorrer a calçada na frente, mas não adiantou. Pensamentos sobre os  momentos que vivemos juntos vieram em disparada, junto a um bando de  emoções antigas. Parei. Era uma bobagem vir aqui. Por que me dar ao trabalho, por algo do qual eu nem sentia falta? Ainda assim… 

Droga. Eu queria ver Julia uma última vez. Não ia desistir assim. Subi os degraus e cruzei o pórtico. A porta estava entreaberta, então entrei. 

O saguão continuava idêntico. O vaso de violetas permanecia ali, as flores com um aspecto cansado e as folhas cobertas de poeira, em cima do  aparador diante do espelho com moldura dourada… aquele que havia refletido nosso abraço, meio distorcido, tantas vezes. Meu rosto se deformou  quando passei por ele. 

Subi a escada com carpete verde. Um cachorro começou a uivar em algum lugar nos fundos. 

O primeiro andar estava igual. Avancei pelo pequeno corredor, passei pelas gravuras desgastadas e pelo aparador antigo, virei e subi outro lance de escada. No meio do caminho, ouvi o barulho de algo raspando no andar de cima,  acompanhado do som de uma garrafa ou vaso rolando sobre o piso de madeira. E depois silêncio de novo, interrompido por algumas rajadas de vento  ao redor do beiral do telhado. Uma leve apreensão despontou no meu peito, e  apertei o passo. Parei no último degrau , e nada parecia incomum, mas, ao respirar fundo, captei um odor estranho no ar. Não consegui identificar a origem,  suor, bolor, talvez terra molhada… com certeza algo orgânico. 

Fui até a porta de Julia e esperei alguns instantes. O cheiro parecia mais forte ali, mas não escutei nenhum outro ruído. 

Bati de leve na madeira escura. Por um momento, tive a impressão de escutar alguém se mexer lá dentro, mas logo passou. Bati de novo. 

— Julia? — chamei. — Sou eu… Merle. 

Nada. Bati com mais força. 

Algo caiu e fez barulho. Tentei a maçaneta. Trancada. 

Girei e puxei e arranquei a maçaneta, o espelho da fechadura, o mecanismo de tranca inteiro. Em seguida, fui para a esquerda, junto do batente  no lado com as dobradiças. Estendi a mão esquerda e apliquei uma ligeira  pressão no painel superior com a ponta dos dedos. 

Empurrei a porta alguns centímetros e parei. Não houve nenhum ruído novo, e avistei apenas uma réstia da parede e do chão, com vislumbres de  uma aquarela, do sofá vermelho, do tapete verde. Abri um pouco mais a  porta. Mais do mesmo. E o cheiro se tornou ainda mais forte. 

Dei meio passo para a direita e apliquei uma pressão constante. 

Nada, nada, nada… 

Puxei a mão de repente quando ela apareceu à vista. Caída. No meio do cômodo. Ensanguentada… 

Havia sangue no chão, no tapete, uma bagunça sangrenta perto do canto à minha esquerda. Móveis derrubados, almofadas rasgadas… 

Reprimi o impulso de entrar correndo. 

Dei um passo lento, depois outro, com todos os sentidos em alerta. Cruzei a soleira. Não havia mais nada/ninguém no cômodo. Frakir se apertou  em torno do meu pulso. Eu devia ter dito algo nesse momento, mas minha  mente estava em outro lugar. 

Cheguei mais perto e me ajoelhei ao lado dela. Quase passei mal. Da porta, não tinha como ver que ela havia perdido o braço direito e metade do  rosto. Não respirava, e sua carótida estava inerte. O roupão cor de pêssego  estava rasgado e ensanguentado; um pingente azul adornava seu pescoço. O sangue que tinha escorrido para além do tapete até o assoalho de madeira estava marcado e pisado. Mas não se tratava de pegadas humanas, e  sim marcas grandes, compridas, com três dedos grossos e garras. 

Uma corrente de ar da qual eu tinha apenas uma leve consciência, vinda da porta aberta do quarto atrás de mim, diminuiu de repente, e o odor se  intensificou. Senti mais uma palpitação rápida no pulso. Não ouvi nada. Silêncio absoluto, mas eu sabia que estava ali. 

Saí da minha posição ajoelhada com um giro, ainda curvado, e me virei… 

Vi uma bocarra cheia de dentes enormes, lábios sangrentos escancarados.. Eles preenchiam o focinho de uma criatura de aparência canina com  centenas de quilos, coberta por uma pelagem amarela grossa com aspecto  bolorento. As orelhas pareciam bolotas de fungo, e os olhos amarelos estavam arregalados e selvagens. 

Como eu não tinha a menor dúvida quanto às intenções da criatura, arremessei a maçaneta, que estivera segurando sem perceber. Passou de raspão  na têmpora esquerda, sem qualquer efeito visível. Ainda em silêncio, a fera saltou sobre mim. Nem houve tempo para dizer uma palavra a Frakir… 

Quem trabalha em abatedouros sabe que há um ponto específico na testa de todo animal, localizado ao se traçar uma linha imaginária da orelha  direita ao olho esquerdo, e outra da orelha esquerda ao olho direito. O golpe  do abate deve ser feito uns três ou quatro centímetros acima da interseção  dessas linhas. Aprendi isso com meu tio. Ele não trabalhava em abatedouro. Só era bom em matar coisas. 

Então virei o corpo para a frente e para o lado enquanto a criatura saltava e desferi um murro forte no ponto letal. Ela era ainda mais rápida do  que eu tinha imaginado. Quando meu punho a atingiu, já estava passando por mim. Os músculos do pescoço ajudaram a amortecer o impacto do  meu golpe. 

Mas com isso ela emitiu o primeiro som: um ganido. Sacudiu a cabeça, virou-se com grande velocidade e veio para cima de mim outra vez. Um  rosnado baixo e grave saía do peito dela, e o pulo foi alto. Eu sabia que não  conseguiria me esquivar de novo. 

Com meu tio, também aprendi a agarrar um cão logo abaixo da mandíbula, nas laterais do pescoço. Se o cachorro for grande, a força do aperto  deve ser maior e aplicada no ponto certo. Não havia muita escolha na  hora. Se eu tentasse chutar e errasse, a criatura provavelmente arrancaria  meu pé fora. 

Joguei as mãos para a frente, torci o corpo para cima e me preparei para a colisão. A fera era mais pesada que eu, sem dúvidas, então precisei compensar pelo impulso dela também. 

Veio a mim a imagem de dedos perdidos, ou uma das mãos, mas consegui agarrar o bicho pela mandíbula, segurei a pele e apertei. Mantive os  braços esticados e inclinei o corpo para receber o impacto. A força do ataque  me abalou, mas consegui ficar com a mão firme e absorver o impulso. 

Enquanto escutava os rosnados e observava o focinho espumando a poucos centímetros do meu rosto, eu me dei conta de que não tinha pensado em  uma estratégia além desse ponto. Com um cachorro, talvez fosse possível  bater a cabeça do animal em alguma superfície dura por perto; as carótidas  eram profundas demais para tentar nocautear o bicho com pressão direta. Mas aquela criatura era forte, e minhas mãos já estavam começando a escorregar conforme ela se debatia, frenética. Enquanto eu mantinha a mandíbula  longe de mim e a empurrava para cima, também percebi que ela era mais  alta do que eu na vertical. Eu poderia arriscar um chute na barriga macia,  mas aí perderia o equilíbrio e afrouxaria a pegada, e então minha virilha  ficaria vulnerável aos dentes.  

A criatura se torceu e escapou da minha mão esquerda, e fui obrigado a usar a direita para não a perder. Assim, empurrei com todas as forças e  recuei de novo. Estava procurando uma arma, qualquer uma, mas não havia  nada útil por perto. 

Ela atacou de novo, mirando direto no meu pescoço, rápido e alto demais para que eu conseguisse chutar a cabeça. E não tinha como sair do caminho. As patas dianteiras estavam na altura do meu diafragma, e torci para meu tio ter razão quanto a isto também, pois eu as agarrei e girei para trás  e para dentro com todas as forças, dobrando um joelho para evitar aquela  mandíbula, de queixo abaixado para proteger o pescoço e a cabeça recuada.  Ossos estalaram e rangeram conforme eu torcia, e a criatura abaixou a cabeça quase de imediato para atacar meus punhos. Mas a essa altura eu já  estava me levantando, avançando, partindo para cima. 

A fera caiu para trás, revirou-se e quase se recompôs. Quando as patas tocaram o chão, ela emitiu um som entre um ganido e um rosnado e tombou  para a frente. 

Eu estava prestes a desferir outro golpe no crânio quando a criatura recuperou o equilíbrio, mais rápida do que parecia possível. Na mesma hora,  levantou a pata dianteira direita e se equilibrou nas outras três, ainda rosnando, com os olhos cravejados nos meus e a mandíbula molhada de saliva.  Avancei um pouco para a esquerda, certo de que ela me atacaria outra vez,  inclinei o corpo e me posicionei de um jeito que não aprendi com ninguém,  porque às vezes também tenho ideias originais. 

Dessa vez, ela saltou um pouco mais devagar. Talvez eu pudesse ter acertado o crânio. Não posso afirmar, porque não tentei. Agarrei o pescoço  dela de novo, e dessa vez eu já sabia com o que estava lidando. Ela não se  soltaria como antes, bem no momento mais crucial. Sem conter o embalo  da criatura, virei o corpo, depois me abaixei e empurrei e puxei, acrescentando um pouco de direção à trajetória. 

Ela girou no ar, as costas acertando a janela. Atravessou o vidro com um barulho de estilhaços e estalos, levando junto a maior parte da moldura, da  cortina e do varão que a prendia. 

Ouvi quando atingiu o solo, três andares abaixo. Quando me levantei e olhei pela janela, eu a vi se estrebuchar algumas vezes antes de ficar imóvel,  bem ali no pátio de concreto onde Julia e eu muitas vezes compartilhamos  uma cerveja à meia-noite. 

Voltei para o lado de Julia e segurei sua mão. Comecei a perceber minha raiva. Alguém devia estar por trás daquilo. Seria E de novo? Seria esse o meu  presente de 30 de abril deste ano? Tive a impressão de que o palpite estava certo, e quis dar a E o mesmo destino que eu havia acabado de oferecer à criatura que cumprira suas ordens. Tinha que haver algum motivo, alguma pista. Fiquei de pé, fui até o quarto, peguei um cobertor e o coloquei em cima de Julia. No automático, limpei minhas digitais da maçaneta caída enquanto  começava a vasculhar o apartamento. 

Em cima da lareira, entre o relógio e uma coleção de livros sobre ocultismo, eu as encontrei. Assim que toquei a superfície e senti a frieza, percebi  que a situação era ainda mais séria do que eu imaginava. Só podiam ser  aquilo que Julia dissera pertencer a mim, algo de que eu iria precisar… Na  verdade, não eram minhas. Ao folhear cada uma delas, eu as reconhecia e  me sentia confuso. Eram cartas, arcanos, parecidas e diferentes de qualquer outra que eu já tivesse visto. 

Não era um baralho completo. Apenas algumas cartas, e estranhas. Eu as guardei depressa no bolso quando ouvi a sirene. A jogatina de paciência  teria que ficar para depois. 

Desci as escadas correndo e saí pela porta dos fundos, sem encontrar ninguém no caminho. Totó continuava caído no mesmo lugar, e os cães da  vizinhança estavam fofocando sobre sua queda. Pulei por cima de cercas e  pisoteei canteiros de flores, cortando caminho por quintais conforme avançava para a rua secundária onde havia deixado meu carro. 

Minutos depois, já me encontrava a quilômetros de distância, tentando apagar da memória as pegadas sangrentas da criatura.

Tradução: Leonardo Alves
Páginas: 880
Editora: Intrínseca
Livro impresso: R$ 139,90
E-book: R$ 96,90

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