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Crítica

Com Um Final de Cinema, John Green destrói a muralha entre “nós” e “eles”

Novo livro do autor de A Culpa é das Estrelas aborda bastidores de Hollywood com maturidade

Omelete
3 min de leitura
01.10.2026, às 08H00.
Um Final de Cinema (Reprodução/Intrinseca)

Créditos da imagem: Um Final de Cinema (Reprodução/Intrinseca)

Da última vez que John Green lançou um livro de ficção (Tartarugas Até Lá Embaixo, de 2017), a pandemia de covid-19 ainda não tinha acontecido, o TikTok ainda era um app exclusivamente chinês chamado Douyin, e, talvez mais chocante, o Brasil era governado por Michel Temer. Não só nesses parâmetros mas em muitos outros, o mundo que recebe a sua nova obra, Um Final de Cinema, é bem diferente daquele que recebeu a última. Por isso, detecta-se no ar uma certa dúvida sobre a eficiência da ficção jovem, gentil e analógica de Green em um mercado literário governado pelos aplicativos, para um público fascinado pela vida real sórdida de influencers que estão metidos em uma rusga diferente a cada semana.

Ler Um Final de Cinema é sentir essa dúvida evaporando a cada página.

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O primeiro golpe de esperteza de Green está justamente na ambientação de sua nova história: os bastidores de Hollywood. É lá que os jovens atores Juniper Castillo e Kai Laramie se conhecem, enquanto filmam um longa independente sobre os últimos dias de Andy Warhol (interpretado por outro ator, Matthew Malone, construído por Green à imagem e semelhança de Robert Downey Jr.). Ela é uma ex-estrela mirim batalhando com uma carreira adulta decepcionante, e com as memórias de uma mãe negligente; ele, um novato brilhante que guarda seus próprios traumas à sete chaves.

Green divide o livro ao meio entre o ponto de vista de Juniper e Kai  Não é forma de falar: cada um dos protagonistas assume duas das quatro partes nas quais Um Final de Cinema é organizado. E não demora para que o leitor se veja fisgado por essa história na base da pura curiosidade. Afinal, se páginas de fofoca fazem sucesso nas redes sociais, e listas de curiosidades sobre os ricos e famosos são fenômeno no SEO do Google, é porque elas exercem um poder de atração virtualmente irresistível sobre o público. Green, que além de escritor é também um dos YouTubers mais bem-sucedidos de sua geração, sabe muito bem disso.

O mais legal de Um Final de Cinema é notar aos poucos, no entanto, para quê o autor está usando o nosso interesse quase obsessivo por um dos poucos universos ainda inacessíveis na era da informação. A partir de uma reflexão que sem dúvida nasceu de décadas navegando uma vida pública, Green criou uma história desenhada para demolir as muralhas de irrealidade que nos separam uns dos outros diante da cultura da celebridade que se tornou indissociável do ethos ocidental.

Espiar a vida de Juniper e Kai conforme eles se aproximam, se descobrem, se apaixonam, se decepcionam e entendem o que realmente querem de suas vidas (e como é difícil saber o que queremos, dissociar-se do que “deveríamos querer”) é um exercício de empatia – mas não da maneira piegas que pode levar alguém a dizer que “celebridades são gente como a gente”. Um Final de Cinema entende e reconhece as diferenças entre uma vida comum e uma vida incomum, e está cheio de observações cortantes sobre a estridência, crueza e futilidade de Hollywood… mas também reconhece que estamos todos nesse mesmo barco.

A máquina dessa indústria que ele retrata com tanta precisão (tendo tantos de seus livros adaptados para o cinema, nem é de se espantar que ele conheça tão bem suas engrenagens) já não é só dela. Ela está por todo lado. Não é à toa que um arrepio de reconhecimento sobe pela espinha quando Um Final de Cinema poetiza sobre o sistema que “transforma realidade em ficção e ficção em realidade” e despersonaliza os cantos mais pessoais de nossas vidas e histórias. Todo mundo que tem uma conexão com a internet conhece essa ladainha, conscientemente ou não. Quando qualquer um pode “criar conteúdo”, todo mundo é conteúdo. E conteúdo não é gente.

Acima de tudo, Green acerta em cheio aqui ao usar a escrita como forma de devolver pessoalidade ao processo. E o melhor: envoltos na fofoca, a gente mal percebe que está engajando com o oposto dela.

Nota do Crítico

Um Final de Cinema

2026
Roteiro: John Green

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