Shangri-La / A Bela Morte

Créditos da imagem: Reprodução/SESI-SP

HQ/Livros

Crítica

Shangri-La / A Bela Morte

Mathieu Bablet se mostra minucioso e estiloso em HQs focadas em crítica social e world-building

Érico Assis
06.06.2019
12h35

Uma das coisas que a ficção-científica mais valoriza é o world-building: se é para ter uma sociedade futurista ou alienígena ou alternativa ou o que for, que o autor ou a autora invista em algum nível de complexidade, consistência e lógica interna no mundo que essa gente habita. Às vezes isso pode beirar o exagero, como as centenas de páginas de descrição do mundo em Tropas Estelares. Às vezes podem ser detalhes, como o “metal encardido” que é marca visual de Star Wars.

Pois acaba de aparecer um novo world-builder da ficção científica, com cabeça criativa, fôlego e preparo físico para montar – e desenhar – mundos complexos, além de convencer o leitor a passear por lá. É o quadrinista francês Mathieu Bablet.

Seus dois trabalhos mais famosos foram publicados há pouco no Brasil. O mais recente foi A Bela Morte – sua primeiríssima HQ, de 2011, quando ele tinha apenas 24 anos, chegou aqui na versão revisada e expandida que saiu na França em 2017. No ano passado, saiu por aqui sua maior obra até agora: Shangri-La, publicada, alardeada e indicada a prêmios na Europa em 2016.

As duas obras unem-se não só pelo sci-fi, mas pelo fundo pós-apocalíptico. Em A Bela Morte, um trio de sobreviventes percorre uma cidade grande logo após insetos aliens gigantes matarem quase todo mundo. Em Shangri-La, o que resta da humanidade mora em uma estação espacial que orbita a Terra porque o planeta ficou inabitável.

Terceiro ponto de união entre as obras: desenho e cores de embasbacar. Para o leitor acostumado ao quadrinho norte-americano, só as dimensões do típico quadrinho francês já impressionam. A página é da altura do seu antebraço e os artistas sabem aproveitar cada centímetro quadrado.

Bablet nem é do desenho realista e preciso que muitos europeus têm, mas não deixa de ser minucioso e estiloso. Os cenários são vastos e carregados de minúcias, seja num labirinto de prédios ou no maquinário da estação espacial. As cores também pegam detalhes, mas têm a dupla função de codificar a emoção de cada cena. No meio de tanto detalhe, de vez em quando a narrativa para em um quadro gigante mostrando a imensidão do vácuo e um personagem pequenino na página gigante.

O traço de A Bela Morte é mais caricato, lembrando o mangá (um dos protagonistas, aliás, tem cabelos que lembram Naruto Uzumaki). O enredo também tem um certo ritmo de mangá, focada mais em imagens acachapantes do que numa explicação linear e textual do apocalipse que destruiu aquele mundo – e do que resta pela frente.

Divulgação/SESI-SP

Mundo, aliás, que pode se perder por completo se o trio de sobreviventes não der um jeito. Os protagonistas fazem contato com uma dissidência no coletivo alien-insetoide-gigante e ganham uma chance de salvar o planeta. Mas a questão é mais psicológica do que de força bruta (apesar de uma mega-bazuca ajudar). A leitura se sustenta, apesar de ser rápida.

Já Shangri-La é Bablet com mais fôlego. Após uma introdução enigmática fora do sistema solar, o leitor vai tateando o mundo da estação espacial administrada pela megacorporação Tianzhu (“Pai Celestial” em chinês) – um espaço colossal, com centenas de milhares de pessoas, que lembra uma metrópole no espaço. A humanidade vive lá vestindo roupas iguais, trabalhando até altas horas, vivendo em microapartamentos, esperando uma promoção para comprar a nova geração de tablets e que, embora a ciência continue avançando, só aguardam o fim da civilização. Lembrou alguma coisa?

Nosso protagonista é Scott, o cara que sente algo de podre na Corporação Tianzhu e vai puxar o fio que deslinda tudo.

Embora o world-building seja tão meticuloso quanto seu traço, Bablet é mão pesada na crítica social. O consumismo que ele denuncia na propaganda onipresente na estação espacial e nas massas manipuladas a comprar o último gadget são exagerados. A Tianzhu poderia muito bem fazer as vezes de uma Apple do futuro, mas a Apple do nosso mundo real é bem mais sutil na sua proposta de consumismo, propaganda e obsolescência programada.

Divulgação/SESI-SP

Em contraste à mão pesada, o álbum tem alguns momentos W.T.F., como os relacionados aos híbridos homem-animal que convivem com os humanos e um epílogo tão enigmático quanto a introdução. O espetáculo visual inclui cenas de gore.

Uma das influências declaradas do autor francês é Akira, de Katsuhiro Otomo. Tal como Akira, os mundos de A Bela Morte e Shangri-La são vastos, detalhados, sujos, violentos e convidam você a um passeio nada tranquilo. Mathieu Bablet é uma promessa de vários mundos que nem estes nos anos e quadrinhos por vir. Comece por aqui.

Nota do Crítico
Ótimo