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Crítica

Secret Wars | Crítica

Marvel promove a pancadaria obrigatória de toda saga - mas na forma de uma tragédia shakespeareana

Marcelo Hessel
14.01.2016
11h40
Atualizada em
29.06.2018
02h39
Atualizada em 29.06.2018 às 02h39

Depois de uma primeira metade cheia de promessas de dilemas shakespeareanos - leia nosso artigo de primeiras impressões - a nova Guerras Secretas da Marvel Comics se encerra depois de nove edições com a boa e velha pancadaria, obrigatória em toda saga grandiloquente de Marvel ou DC. A diferença nesta Secret Wars, no traço do desenhista Esad Ribic, que valeu todo o atraso da entrega da minissérie, é que a quebradeira nunca pareceu tão majestosa.

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Enquanto o cinema se pergunta como vai fazer para encaixar tantos super-heróis nos próximos filmes dos Vingadores, a nova Secret Wars multiplica isso por 10 e reúne todo o multiverso numa releitura da típica trama de invasões bárbaras ao reino medieval - é como se fosse A Batalha dos 30 Exércitos, com todos os subreinos divididos do Battleworld rumando ao castelo de Dr. Destino, epicentro da ação, para um final apoteótico.

No fim, a decisão de estender a minissérie de oito para nove edições acaba só dando mais tempo para preparar esse desfecho. Depois da armação das intrigas e dos conflitos, as edições intermediárias passam a construir um suspense que prenuncia o final mais grandioso de todos, à medida em que oferece as armas de um clímax com uma combinação de arsenais conhecidos e outros novos: a Manopla do Infinito, o poder contido dos Beyonders, a fúria do Coisa, os exércitos que chegam, dezenas de Thors, dezenas de Hulks. Edições se encerram oferecendo sempre uma nova peça destruidora no tabuleiro, e o roteirista Jonathan Hickman se esforça para esticar a trama enquanto segue essa estrutura formulaica de saga.

Como o Reed Richards Ultimate diz, quando discute com o Sr. Fantástico sobre a derrota de Deus, ele quer dizer "a destruição" de Deus. Porque mesmo que passe na cabeça de todos os protagonistas que um embate periga destruir todo o novo mundo que eles habitam, isso não os impede de guerrear - uma luta que ganha contornos trágicos por ter começado não no momento das incursões mas sim, tão mesquinhamente, na hora em que um vilão decidiu roubar a esposa de um super-herói. O que se segue é um canto do cisne apocalíptico, em que a maioria dos atores em cena se limita a entoar seus gritos de guerra e prometer "dizimar um deus" ou "quebrar o mundo".

A trama palaciana do início, que no fim das contas resume toda a saga a uma questão de ciúme, é uma premissa boa o suficiente para legitimar a carnificina que Ribic desenha com tanto apuro; no mais, a oportunidade de desafiar Deus - quem sabe destroná-lo - sempre foi o bastante para mover os mortais da sua inércia em direção a um martírio que os liberte. A bela finalização do colorista croata Ive Svorcina - cujo trabalho complementa mais uma vez os desenhos de seu compatriota Ribic - dá a esses tantos sacrifícios a dramaticidade que eles merecem, ainda que sejam sempre breves.

"Isto é um belo show. É como teatro", diz Valeria Richards, como sempre entendendo mais do que os outros heróis aquilo que presencia. Embora essa Secret Wars tenha surgido dos conceitos intrincados de Hickman na trama das incursões nas séries dos Vingadores, a saga em si e sua resolução não poderiam ser mais simples: tudo opera em nome do espetáculo. (E aparentemente neste espetáculo específico não existe um número limite para gigantes em cena.)

Perto do final, o recurso de um personagem repetir a fala de outro logo em seguida (no dialogo de T'challa e Destino, e depois de Destino e Reed) significa que a retórica e os diálogos rebuscados ficaram para trás, e só sobraram os duelos, perfeitamente equiparados.

É tudo muito simples, mas pode também ser entendido como simplista. Porque se a saga começa bastante complexa para um gibi de super-heróis - com Destino questionando sua validade como Deus, seus poderes e sua responsabilidade com o mundo de sobreviventes que criou - na hora em que os heróis entram em cena suas motivações se resumem a velhas noções de bom mocismo e de virtude. Esse desequilíbrio foi decidido quando Doutor Estranho - o perfeito contraponto moral de Destino - saiu de cena. Mesmo o inteligentíssimo Reed Richards não consegue justificar direito por que está jogando sua guerra santa para cima desse novo mundo: ele diz que Destino até fez coisas boas mas se apegou demais...

A impressão que fica é que Secret Wars, seguindo os preceitos shakespeareanos, como uma boa tragédia, no fim está apenas castigando Destino por suas imperfeições. O vilão sai da saga maior do que entrou, um protagonista complexo que raramente ganha histórias à altura do seu potencial.

No mais, o final é perfeito como sinal da identificação de Hickman tem com o Quarteto - primeiro na forma como aproveita na história a Fundação Futuro (criada em 2010, é o seu grande legado para a mitologia da equipe) e depois na maneira como celebra o Quarteto como elemento fundador do Universo Marvel. Ao mesmo tempo em que bota a equipe na geladeira por conta de questões comerciais que não têm nada a ver com o que acontece dentro das histórias, a editora celebra o Quarteto como sua pedra fundamental.

Nota do Crítico
Ótimo