HQ/Livros

Crítica

O Outro Lado da Bola

HQ mostra de forma visceral o preconceito dentro do futebol

Camila Sousa
10.10.2018, às 17H12

A primeira página de O Outro Lado da Bola, HQ assinada por Álvaro Campos, Alê Braga e Jean Diaz, já dá o tom de como será a história. Após uma disputa acirrada de bola, um jovem reclama do joelho, mas rapidamente é corrigido pelo pai: “Futebol é jogo pra homem”. É com essa dureza que a publicação aborda o preconceito dentro do futebol e todos os problemas que acontecem nos bastidores e quase ninguém vê.

Capa de O Outro Lado da Bola
O Outro Lado da Bola/Record/Divulgação

Na trama, Cris é jogador de um famoso time de São Paulo e, motivado por uma grande injustiça, ele revela ao mundo que é gay. A partir de então sua vida vira do avesso, em uma espiral de violência e corrupção que atinge até mesmo sua filha adolescente.

Um dos maiores pontos positivos do texto de Alê Braga e Álvaro Campos é a capacidade de mostrar à fundo os diferentes núcleos envolvidos na história. Em uma trama como essa seria muito fácil focar apenas em Cris e seus conflitos (que já são pesados o suficiente), mas aqui também são mostrados os dramas das famílias de quem está no meio de tanta violência, com destaque para o papel das mães, sempre retratadas com um olhar triste por Jean Diaz.

Em um desses trechos, por exemplo, o quadrinho foca em como o ódio surge em uma pessoa. Seja pelo ambiente dentro de sua casa, seja por uma constante validação de preconceitos por pais e mães, a verdade é que um jovem que cresce vendo somente violência em sua rotina tende a devolver isso para o mundo. Nada disso é mostrado como uma justificativa, mas é um retrato triste e verdadeiro das falhas de uma sociedade, e uma adição enriquecedora para a trama.

O traço de Diaz é outro ponto que merece destaque. Com expressões duras, os desenhos evidenciam um mundo violento e confuso. Todas as páginas são repletas de elementos ao redor dos personagens, o que causa incômodo, mas a impressão que fica é que a ideia era essa mesmo: deixar o leitor desconfortável tanto pelos absurdos e injustiças que acontecem ali, quanto pelo caos daquela realidade.

Um dos grandes pontos negativos de O Outro Lado da Bola são as mudanças de ambientes e passagens de tempo entre os quadrinhos. Enquanto certos momentos ficam claros, outros trechos da HQ mudam de tempo e lugar sem nenhum indicativo, algo que torna a leitura confusa em vários momentos. Outro detalhe são balões extremamente grandes. Embora estejam ali para expressar as ideias e opiniões dos personagens, alguns discursos ficam realmente grandes quando colocados no papel e isso tira parte da fluidez da história.

Mas apesar desses detalhes técnicos, a HQ acerta ao abordar um tema que dificilmente é mostrado de forma tão visceral. Em sua jornada, Cris sente medo e culpa pela repercussão de suas escolhas, mas por fim ele entende que por mais que o mundo seja violento, a pior violência que existe é a que você comete com você mesmo quando não se aceita.

Nota do Crítico
Ótimo

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