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Crítica

O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares | Crítica

Bestseller de Ransom Riggs apresenta conceito brilhante com execução conservadora

Caio Soares
27.09.2016
12h19

No universo criativo, high concept é um termo que representa o que todo escritor ou roteirista busca atingir: uma premissa original e única. Formado em Cinema e TV, Ransom Riggs parece ter aprendido bem as lições na universidade. Em O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares (Editora LeYa), primeiro de uma trilogia que já vendeu mais de 6 milhões de livros pelo mundo e adaptado nos cinemas por Tim Burton, Riggs apresenta um high concept certeiro.

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A jornada de Jacob, um adolescente aparentemente comum até um remoto orfanato habitado por crianças dotadas de habilidades peculiares (soa familiar?) e gerenciado pela misteriosa Srta. Peregrine (Professor Xavier?) é de fácil assimilação e apelo entre o público jovem. Riggs é brilhante na construção do universo. O conceito de personagens que podem viajar no tempo através de uma fenda é uma idéia que abre um grande leque de possibilidades dentro do enredo. Além disso, as assustadoras fotografias antigas em preto e branco que ilustram a capa e o miolo da obra captam rapidamente a atenção.

Porém, o que o leitor recebe em Orfanato da Srta. Peregrine não condiz com o que o livro promete entregar. Após um começo forte, com o desenvolvimento do relacionamento de Jacob e seu avô e a apresentação do conflito principal, o enredo não deslancha e cai em um lugar comum, falhando no desenvolvimento dos personagens e com Ransom colocando grande parte do esforço narrativo em momentos de ação com pouco brilhantismo.

Definidas por suas peculiaridades, as crianças do orfanato não ganham a profundidade que poderiam (mesmo com Riggs forçando um estranho romance entre Emma e Jacob). Porém, o maior problema está no desenvolvimento do protagonista principal. Filho de pais ausentes e testemunha ocular de um terrível acontecimento que muda sua vida, Jacob começa o livro com uma personalidade ansiosa e naturalmente sofrendo as consequências de um evento tão marcante. No entanto, sua complexidade emocional desaparece ao longo da trama e dá lugar à reações previsíveis. Apesar de ser exposto a outros momentos de violência e situações potencialmente traumatizantes, Jacob é transformado em um personagem impassível que sempre consegue arrumar a solução heróica.

O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares é um fenômeno dentro do gênero. Com um conceito vencedor e um produto sedutor, o livro fascinou milhões de leitores e ganha ainda mais força com a adaptação nos cinemas. Porém, ao abrir mão da potencial complexidade do enredo e do tom mais sombrio que as fotografias indicam, Ransom Riggs acaba entregando uma obra sem riscos e dentro de sua zona de conforto.

Nota do Crítico
Regular

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