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Crítica

O Escultor | Crítica

Scott McCloud coloca em prática seus anos de estudo de quadrinhos em história cheia de dilemas

Marcelo Forlani
21.09.2015
16h33

Ainda na faculdade, David Smith alcançou sucesso ao cair nas graças de um mecenas moderno. Da mesma forma que foi alçado às festas mais badaladas de Nova York, em pouco tempo estava sozinho e depressivo no dia de seu aniversário, com algumas poucas notas amassadas no bolso. Enquanto olha o fundo de uma xícara de café vazia, ele é surpreendido por um tio que há muito tempo não via. Começam a relembrar dos dias que passaram, o gibi que o pequeno David havia feito e vendido para toda a família e conversar sobre vida e morte.

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É assim que começa O Escultor (The Sculptor), primeira graphic novel escrita e desenhada por Scott McCloud em quase 20 anos. O processo de criação deste tijolo de quase 500 páginas - que está ganhando uma edição em português pela Marsupial Editora, que trará McCloud para a CCXP 2015 - levou meia década. É um relato bastante pessoal, embora totalmente ficcional. Ao contar a história de David e as pessoas que ele conheceu antes e depois daquele seu aniversário, McCloud fala de amor, arte, apostas, depressão, poder, fama, vaidade e outros temas sem deixar a leitura pesada. A leveza da coloquialidade de seus balões dá o tom.

Para quem não conhece McCloud, vale um parágrafo para explicar que por anos ele se dedicou a estudar e desmistificar os quadrinhos, provando-o como arte. Em 1993 ele lançou o livro Desvendando os Quadrinhos e depois seguiu sua pesquisa com Reinventando os Quadrinhos e Desenhando Quadrinhos. Os três livros (em formatos de histórias em quadrinhos) são obrigatórios para quem quer entender e/ou fazer HQs, e foram lançados no Brasil pela editora M. Books.

Voltando à história, David está frente a frente com seu próprio Morpheus. As opções são voltar para o interior, lecionar arte e morar numa casa perfeitinha com mulher, filhos e um labrador, até ficar velho...
- "Este não sou eu", diz o jovem.
- "Vocês jovens são muito mimados. Sabe, bilhões morreriam para ter uma vida dessas", ouve em resposta.
Mas tudo o que David pensa é na sua arte e, por ela, está disposto a dar sua vida. E tem seu pedido atendido. A escolha, porém, tem seu preço: David tem apenas mais 200 dias de vida.

Todo este dilema, as digressões com flashbacks e alucinações, tomam cerca de metade do primeiro capítulo, e o livro não dá pistas do caminho a ser percorrido a seguir. A história tem reviravoltas, referências pop (Totoro) e cult (O Sétimo Selo) e brinca muito com o que não é dito, com composições, "movimentos de câmera", contraluz e, obviamente, passagem do tempo - como é lindo o quadro em que David anda por uma calçada em formato de calendário!

Ao colocar em prática toda a teoria que estudou e tentou ensinar em seus livros, McCloud mostra que o ditado "faça o que eu diga, não faça o que eu faço" não se aplica a ele.

Nota do Crítico
Ótimo