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Crítica

Nick Fury #1 | Crítica

Frenética estreia da série emula a espionagem e a psicodelia dos anos 70

Marcelo Hessel
25.04.2017
17h50
Atualizada em
29.06.2018
02h42
Atualizada em 29.06.2018 às 02h42

Assim como Joselito, que não sabe brincar, a Marvel Comics às vezes não sabe quando parar. Se as sagas dão certo, a editora faz várias na sequência, uma ligada à outra. Se a diversificação de seus super-heróis rende leitores e elogios, a Marvel transforma seu elenco em marcas franqueáveis. O mesmo vale para estilos de narrativa.

Nick Fury #1 acaba de chegar às bancas e comic shops nos EUA, com a promessa de contar, pela primeira vez, as primeiras aventuras de um jovem Nick Fury, a encarnação saída do Universo Ultimate que, uma vez definitivamente associada com Samuel L. Jackson por conta dos filmes da casa, acabou substituindo no imaginário popular o velho Nick Fury grisalho (hoje castigado pelos Vigias a ser uma criatura acorrentada à Lua, como mostrado em Pecado Original em 2014), de quem é filho.

A HQ do roteirista James Robinson vai ao passado não para lidar com essa relação familiar bizarra, e sim para criar uma aventura com cara de filme de espionagem setentista. Há James Bond transpirando por todas as páginas de Nick Fury #1, dos gadgets caros (o tapa-olho custou o mesmo de um aeroporta-aviões, diz Fury) aos embates com vilãs cheios de tensão sexual. Nicholas Fury Jr. surge em cena com um terno fino como um dândi, e obviamente termina a rápida edição sem amassá-lo.

Evidentemente há um conceito visual disposto nas páginas de Nick Fury que é consistente com essa premissa e com o contexto histórico. O desenhista ACO aperfeiçoa os grafismos que havia empregado na HQ do Meia-Noite na DC para oferecer uma narrativa que dialoga com os desenhos que Jim Steranko fazia na Marvel entre os anos 60 e 70 no auge da psicodelia. Algumas páginas duplas de Nick Fury #1 são Steranko puro, quando nos mostram as salas do cassino de forma bastante horizontalizada e com pontos de fuga profundos. Se o 007 que Robinson emula é aquele de Roger Moore, com seus veículos voadores, faz todo o sentido que a HQ também busque resgatar os anos 1970 da Marvel.

O problema é o excesso. Toda escolha de Robinson e ACO nesta edição parece pensada primeiro pelo impacto visual, e só depois pela sua função narrativa. À parte a homenagem a Steranko, Nick Fury #1 deriva do que tem dado certo hoje nas HQs mais estilizadas da Marvel (as soluções geométricas parecem David Aja, os ângulos e o dinamismo da ação remetem a Chris Samnee, as cores e as fisionomias lembram o Surfista Prateado de Mike Allred) numa mistura hipersensorial que não dá tempo para o leitor se acomodar.

O excesso de quadros cheios de elipses entre um e outro (mesmo quando um relógio aparece no topo para nos dar a dimensão exata do tempo) contribui para que a edição passe como um flash de luz, sem se firmar. Para ficar na comparação com James Bond, é como se essa frenética primeira edição fosse a sequência de créditos iniciais de um 007, à base de grafismos, silhuetas e cores todos planejados unicamente para nos seduzir. Só ficou faltando uma canção-tema.

Nota do Crítico
Bom