Minha Coisa Favorita é Monstro

Créditos da imagem: Divulgação/Cia das Letras

HQ/Livros

Crítica

Minha Coisa Favorita é Monstro

Aos 55 anos, autora estreante cria uma obra-prima das HQs

Marcelo Forlani
03.04.2019
15h30

Ao ser picado por uma aranha radioativa, Peter Parker ganhou poderes e força proporcionais a de um aracnídeo. Ao ser picada por um mosquito, Emil Ferris ganhou uma infecção em função do vírus do Nilo Ocidental. Em 80% das pessoas, esta picada não levaria a nada. Nos outros 20%, aparecem febre, dores de cabeça, fadiga, dores musculares, perda de apetite, náusea, vômitos. E se você está com imunidade baixa - porque cuida da filha pequena durante o dia e trabalha de noite para pagar os boletos - o bichinho pode levar a doenças neurológicas. No caso de Emil, em três semanas ela estava paralisada da cintura para baixo, sem poder falar e seu braço direito não estava mais funcionando. Detalhe, ela era uma ilustradora freelancer que não tinha mais como desenhar.

Sem grandes poderes, mas com a enorme responsabilidade de mãe-solo aos 40 anos, Emil resolveu voltar para a escola e começar a aprender um novo ofício. E assim começou a estudar a escrita. Eventualmente, ela conseguiu voltar a desenhar - ainda que sem a mesma destreza de antes, segundo ela própria. Mas sem desistir da arte, ela lançou em 2017 o seu primeiro livro, a graphic-novel Minha Coisa Favorita é Monstro (My Favorite Thing is Monsters), que acaba de chegar no Brasil pela Cia das Letras, após ganhar merecidos prêmios e elogios por todos os cantos, incluindo na lista o Eisner (o Oscar das HQs americanas) de Melhor nova Graphic Novel, Melhor Artista/Roteirista, Melhor Colorista.

O livro conta a história de Karen Reyes, que além de toda a confusão hormonal de uma menina de 10 anos quase chegando à adolescência, ainda resolve investigar o assassinato de uma moradora do seu prédio e tem que enfrentar algo muito mais grave em sua própria casa. A narrativa é feita na forma de um diário montado pela própria Karen, em que ela se autorretrata como uma… lobismenina (tudo bem eu me recusar a escrever lobismoça?). Apaixonada por monstros, como o título da HQ já deixa bem claro, Karen sonha em se transformar em um, para assim fugir da realidade, onde sofre bullying, perde sua melhor amiga (que prefere ir para a turma das populares), tenta desvendar um mistério, etc.

Mas resumir a trama em cinco linhas chega a ser um desserviço. Há muito mais ali naquelas 416 páginas. A forma como Ferris vai contando a história de Karen viaja de forma muito leve entre o presente e o passado, com paradas na Alemanha nazista, presença de mafiosos na Chicago do fim dos anos 60, hippies e lindas visitas aos Instituto de Arte da cidade. Karen e seu irmão mais velho, Diego, conversam muito e nestes diálogos vamos descobrindo mais sobre a criança e vamos sabendo os motivos que a levam a sonhar com o dia em que finalmente se transformará na personagem que ela tanto ama ver na TV nos sábados de noite. Estão ali presentes discussões feministas, críticas à objetificação da mulher e muitos questionamentos que ficam entre a inocência e perspicácia de uma menina que está tentando entender o mundo em que terá de sobreviver.

O livro, traduzido aqui no Brasil por Érico Assis, é apenas a primeira parte da história. A segunda está programada para chegar às livrarias dos Estados Unidos entre setembro e outubro, a tempo do Dia das Bruxas. Até lá, você vai poder desfrutar esta que é uma das melhores e maiores obras feitas recentemente para a nona arte e adaptada pela Cia das Letras com muito cuidado e carinho. A versão nacional tem um papel com gramatura menor do que a americana, mas segue o design da lombada formada por vários cadernos grudados. E ainda conta com uma fonte criada para mimetizar a letra de Ferris, sem contar com a reconstrução das páginas que abrem cada capítulo, que recriam capas de HQs de monstros e tiveram seus títulos redesenhados.

Fora isso, é preciso ainda elogiar a arte de Ferris, feita utilizando caneta Bic e que vão do caricato ao realista e ainda brincam com os espaços das páginas de caderno. Suas visitas ao Instituto de Arte de Chicago (local que a autora frequentou com seus pais, ambos artistas) são maravilhosas - ao mesmo tempo em que reproduz uma obra e dá uma aula de história da arte, vai também desenrolando a história. Mesmo inacabada, fica difícil não tentar colar a esta graphic novel o selo de obra-prima.

P.S. Preferia que o título nacional tivesse mantido os monstros no plural, como no título original.

Nota do Crítico
Excelente!