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Crítica

Forrest Gump | Crítica

História que inspirou filme clássico com Tom Hanks apresenta um dos personagens mais carismáticos da cultura pop

Fernando Miranda
03.02.2017
14h39
Atualizada em
03.02.2017
15h53
Atualizada em 03.02.2017 às 15h53

Deixa eu te dizer uma coisa: a edição de 30 anos de Forrest Gump da Editora Aleph é uma deliciosa caixa de chocolate. Quer dizer, é um livro delicioso. Bom, você entendeu, certo? Com tradução inédita e projeto gráfico de tirar o fôlego, o romance de Winston Groom dá chance aos cinéfilos e leitores vorazes de conhecer o espectro literário de um dos personagens mais carismáticos da cultura pop.

Durante a leitura, saberemos como Forrest salvou o regente chinês Mao Tsé-Tung da morte por afogamento ou como embarcou em um foguete para ver a Terra do espaço ao lado de um orangotango chamado Sue. Ou mesmo como jogou xadrez com um aborígene canibal (e letrado em Yale) na selva, entre outras aventuras que ficaram de fora da adaptação para o cinema.

A trajetória do personagem é contada em primeira pessoa (como no filme) e de forma linear, em um grande arco que abarca pequenas histórias, quase contos. Novos e peculiares personagens vão entrando e saindo da narrativa. É divertido perceber a fórmula criada pelo autor nos primeiros capítulos e vê-la repetida nos próximos com alterações, ora sutis, ora bruscas, desenhando situações cada vez mais cômicas e improváveis. Groom termina parágrafos chave da trama com frases tão impactantes que por vezes emocionam ou fazem gargalhar descontroladamente.

Sobre a adaptação para o cinema, de 1994, é importante dizer que o roteiro criado por Eric Roth para o filme de Robert Zemeckis é extremamente competente. Nele, Roth cria novas histórias e atualiza alguns assuntos para a época do lançamento e seu público. Estrelada por Tom Hanks (Náufrago, Sully) e com Robin Wright (House of Cards) e Sally Field (Uma Babá Quase Perfeita), a produção ganhou diversos prêmios, incluindo estatuetas para Zemeckis, Roth e Hanks. Porém, o roteirista escolheu remover bons trechos e até personagens chave da trama do livro. Para compensar a decisão, Roth adicionou eventos cativantes e personagens tão carismáticos quanto os do livro, deixando a história "redonda", perfeita para a Academia.

Alguns dos momentos e artifícios mais marcantes da película foram criados por Roth: o grito de "Corra, Forrest, Corra" dado por Jenny a plenos pulmões e o tênis Nike que seria usado por Forrest na corrida pelos EUA, talvez a inserção comercial mais épica da história do cinema. Foram alterados também os arcos de personagens importantes da trama, como Jenny Curran e o Tenente Dan. Com tantas alterações, realmente entendemos a expressão "baseado na obra de", que aparece nos créditos iniciais.

Com o livro, Groom não só deu vida a uma das figuras mais icônicas da literatura norte-americana como subverteu o conceito comum de inteligência ao brincar com o arquétipo literário do idiota. Forrest Gump personifica então, na obra de Groom, a ideia definitiva de bondade, onde expõe notáveis preconceitos da cultura ocidental. Esses argumentos ficam claros no texto dos editores Daniel Lameira, Bárbara Prince e Andréa Bergamaschi, que funcionam com uma espécie de prefácio, uma nota para situar o leitor na trama.

Também é importante mencionar o esforço colossal de Aline Storvo Pereira, responsável pela tradução inédita, em adaptar para o português a linguagem ousada impressa pelo autor, que suprime letras, varia tempos verbais e coloca tropeços gramaticais e ortográficos. O projeto gráfico e a tipografia, feitas por Pedro Inoue e Pedro Henrique Barradas, respectivamente, são um espetáculo à parte. A capa extra, com duas faces, traz alguns dos elementos do livro e do filme. No lado vermelho, temos o capacete usado por Forrest durante os jogos no time de futebol americano. No lado azul, a raquete usada durante os jogos na China Vermelha.

Na capa principal, toda branca e com tipografia em relevo, aparece ressaltado o banco de praça, conhecido dos fãs e visto na capa do filme, bem como a pena, também na cor preta. Na área interna, as stars and stripers, estrelas e listras da bandeira norte-americana. Para completar, as ilustrações de Rafael Coutinho tornam Forrest mais próximo da descrição do autor na obra e ajudam os fãs a abstraírem o rosto marcante de Tom Hanks durante a leitura.

Para os que desejam ir fundo na pesquisa sobre as diferenças entre o livro e adaptação cinematográfica, o livro ainda conta com o o artigo "Da página à tela: a reformulação de Forrest Gump" de Isabelle Roblin, especialista em literatura contemporânea anglófana e professora assistente na Université du Littoral-Côte d'Opale, na França.

Nascido em Mobile, Alabama, Winston Groom pretendia tornar-se advogado, serviu o exército de 1965 a 1969 e passou boa parte de seu tempo combatendo na Guerra do Vietnã. Mais tarde, trabalharia para o Washington Star como repórter colaborando na editoria policial do jornal. Se aposentou aos 35 anos e, a partir daí, devotou seus dias a escrever histórias sobre guerras norte-americanas. Forrest Gump foi publicado em 1986, mas só alcançou status de best-seller com a adaptação para o cinema, e todo mundo sabe que Groom odiou a adaptação. Forrest Gump é um livro recomendadíssimo, que merece ser lido, relido, presenteado ou guardado com carinho em nossas prateleiras, entre nossos livros, dvds e HQs favoritos.

Nota do Crítico
Excelente!