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Crítica

O Espadachim de Carvão | Crítica

Novo livro de Affonso Solano traz um dos melhores universos mitológicos já criados por um brasileiro

Thiago Romariz
19.03.2013, às 00H00
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 14H55
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 14H55

Nos últimos anos, a literatura fantástica brasileira combate o preconceito do leitor nacional contra a própria língua. Com alguns exemplares de qualidade, esta barreira foi ultrapassada com vendas significativas e a exportação de direitos autorais, por exemplo. O legado desse bom momento está refletido no criativo e original universo de O Espadachim de Carvão, de Affonso Solano.

O autor carioca conta a história de Adapak, um ser de pele negra e olhos brancos, filho de um dos deuses de mundo de Kurgala. Além de ser cria divina, o protagonista obteve conhecimento teórico da história de sua terra e foi treinado pela doutrina dos Círculos de Tibaul - uma centenária e mortal técnica de espadas. Após viver durante anos em uma ilha sagrada, Adapak é surpreendido por criaturas que invadem o local e tentam o assassinar, forçando-o a fugir e buscar respostas para o ocorrido.

O apreço de Solano pelo detalhamento dos ambientes e criaturas o faz escrever de forma mais rebuscada que o estilo dominante na literatura atual, deixando a obra com um aspecto mais clássico. Com esse tom, as histórias das antigas eras de Kurgala, a variedade de raças e as línguas originais daquele mundo ganham uma aura legitimamente épica, principalmente nos dois primeiros atos. Estes são compostos por capítulos longos e explicativos, recheados de referências à contos não só do passado de Adapak, mas também daquela mitologia em si, dando um passado real aos locais visitados pelo protagonista.

Se a introdução e o desenvolvimento da história têm um tom surpreendentemente original, as resoluções descritas no terceiro ato descambam para o simplório, tal qual clássicos da aventura contemporânea, como Harry Potter, por exemplo. Assim como a série de J.K. Rowling, O Espadachim Carvão usa diálogos extensos em seu ato final para explicar alguns acontecimentos dos capítulos anteriores. As últimas páginas parecem mais apressadas do que o restante da obra, apresentando e resolvendo questões de maneira rápida, sem o aprofundamento dado a outras questões do início da trama.

Ainda que tenha uma abordagem ortográfica mais adulta, Solano não deixa de tocar em temas recorrentes à vida adolescente, como bebida, drogas e sexo. Adapak trata tais assuntos com estranheza, pois viveu seus 19 anos de vida recluso como um nerd antiquado, viciado em livros e com uma curiosidade natural pelo desconhecido. Além do impacto causado pela inexperiência, a aura divina do espadachim o faz lidar de forma politicamente correta com todas as questões propostas e com os personagens que encontra durante a jornada.

Adapak, por exemplo, encontra prostitutas e as questiona do porquê de venderem seus corpos; em outro momento,  discute com um companheiro de cela sobre a necessidade de se embriagar para esquecer seus problemas. Sem querer impôr uma visão moralista, o autor deixa a inocência das perguntas nas palavras do espadachim e a visceralidade do mundo real para os personagens secundários. Dessa maneira, são expostas fraquezas comuns da sociedade atual, constantemente confundidas com entretenimento. Em tempos de sexismo, perda de valores e desvalorização feminina, são bem-vindos protagonistas que tragam lembranças de alguns conceitos outrora esquecidos.

As descrições clássicas e o ritmo narrativo contemporâneo de O Espadachim de Carvão o definem como um dos melhores frutos do novo momento da literatura fantástica tupiniquim. Por trás das criaturas de Solano, existe um conto de princípios permeado por trechos de ação bem explorada e referências a ícones da fantasia moderna. Neste livro, o leitor será apresentado não apenas à aventura de um exímio espadachim, mas também a um dos melhores universos mitológicos criados por um autor brasileiro.

Nota do Crítico
Bom

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