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Crítica

El Héroe - Libro Dos | Crítica

Herdeiro de Jack Kirby é espanhol

Érico Assis
15.03.2013
13h44
Atualizada em
21.09.2014
14h55
Atualizada em 21.09.2014 às 14h55

No prefácio de El Héroe - Libro Dos, Craig Thompson diz que só consegue ver "a pura virilidade do rock 'n' roll" nos quadrinhos de três autores atuais: Paul Pope, Rafael Grampá e David Rubín. Antes de ler o resto da resenha, dê uma olhada neste preview do álbum e sinta o rock.

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Rubín é um quadrinista espanhol já com alguns álbuns no currículo e que pensou El Héroe como sua obra máxima. No total, são quase 600 páginas, que ele roteirizou, desenhou e coloriu em quatro anos. À primeira vista, é uma releitura dos Doze Trabalhos de Hércules. Em poucas páginas você percebe que é mais: é uma homenagem a todos os heróis, dos mitos, dos livros, dos filmes, dos games e, claro, principalmente dos quadrinhos.

E para falar de heróis de quadrinhos, nada melhor que invocar Jack Kirby. Assim como as narrativas da antiguidade começavam com a invocação ao deuses, Rubín invoca na primeira página de sua HQ (lá no Libro Uno, que já foi comentado por aqui) e também encerra com ele. A moda kirbyana, a narrativa kirbyana, as máquinas megalomaníacas kirbyanas e o rock'n'roll kirbyano perpassam El Héroe.

Enquanto o primeiro volume mostrou infância e chegada da maturidade de Hércules, o segundo já abre com ele na meia idade, prestes a cumprir os trabalhos restantes. Rubín segue com a mesma ideia do início da saga: Hércules é o primeiro e é todos os heróis, e vai passar não só pelos Doze Trabalhos, mas por todas as provações comuns (até clichês) às narrativas heroicas.

Prova disso é a abertura do primeiro capítulo do segundo volume: 18 páginas sem texto algum nos quais Hércules conhece o amor de sua vida, casa-se, tem filhos gêmeos e, numa noite de tranqulidade doméstica, é possuído pela vilã Hera e mata toda a família. A cena brutal, sangrenta, impactante e clichê dramático está nas 18 páginas de abertura do álbum justamente para mostrar que o herói vai passar pelo pior do que passam todos os heróis que já conhecemos.

Rubín não bebe só em Kirby, mas também se diz devoto de Jim Steranko, John Romita e Gil Kane. Quem lê também encontra referências a gente mais contemporânea, como Paul Pope, Frank Quitely, Bryan Lee O'Malley. Tem cenas que lembram gibi de super-herói norte-americano, outras que lembram álbuns de fantasia franco-belgas, outras que são puro mangá. Mas tudo volta ao mesmo ponto: se estivesse na ativa hoje, Jack Kirby também estaria bebendo de todas estas influências.

Também é uma curtição do álbum ver as brincadeiras anacrônicas do autor com o mito grego: a história se passa numa Grécia antiga onde Hércules corre de Adidas no pé e iPod na orelha (e cheira carreiras de cocaína quando está na pior), onde Prometeu é um astronauta que faz experimentos biotecnológicos e onde sobram máquinas futuristas, carros hipervelozes e robôs gigantes.

Para os que têm problemas com o politicamente correto, o álbum também pode assustar: Rubín não se segura em cenas de sexo, colocando até Hércules a transar com seu parceiro-mirim (deturpação-clichê dos clichês). Numa das cenas mais fortes da HQ, talvez até da história dos quadrinhos, a vilã Hera mutila o próprio clitóris para fazer um feitiço contra o herói. Como as boas narrativas heroicas, tem que haver os momentos chocantes.

Quadrinhos não têm trilha sonora. Porém, quando uma HQ consegue capturar sua atenção e inserir você na história, é inevitável imaginar os sons, a batida, o ritmo que conduz a ação - uma música própria. El Héroe tem guitarra, baixo e bateria a todo volume na sua cabeça, numa música que só ela ativa. Você tem que concordar com o Craig Thompson: é quadrinho puro rock 'n' roll.

Nota do Crítico
Bom

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