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Crítica

Darth Vader | Crítica

Série perde fôlego no meio do caminho mas é um exemplar estudo de um personagem difícil

Marcelo Hessel
07.11.2016
15h40
Atualizada em
29.06.2018
02h45
Atualizada em 29.06.2018 às 02h45

Ao longo das suas 25 edições, a série de Darth Vader, dos títulos de Star Wars que a Marvel Comics publica desde o começo de 2015, foi um belo exemplo do tipo de narrativa fechada que tem se tornado um interessante modelo de negócio nos quadrinhos americanos de linha, com fases que se organizam como temporadas de séries de TV e, a cada recomeço de numerações zeradas, podem dar lugar a novos criadores e atrair mais leitores.

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Quando analisamos as primeiras edições de Darth Vader (série que se encerrou agora em outubro nos EUA), o destaque ficava por conta da recuperação do mistério do vilão: o roteirista Kieron Gillen deixava em segundo plano os dramas que ainda atormentavam Anakin e privilegiava a impassividade e a força represada do lorde sith, cuja tragédia de perder sua humanidade e viver para sempre aprisionado numa couraça preta sem expressão, similar a uma armadura samurai, dava-lhe a inesperada vantagem de ser um personagem absolutamente indecifrável.

Esse trunfo - o que Vader deseja e esconde de todos, a busca pelo filho que ele não sabia ter - é motivo de uma sucessão de reviravoltas que, por cerca de dez edições, tornaram Darth Vader a melhor dentre as séries de Star Wars que a Marvel publica. Embora os desenhos de Mike Deodato Jr. tenha dado um novo gás à HQ durante a história de crossover "Vader Down", a segunda metade da série teve dificuldade em manter o ritmo inicial, mesmo porque as reviravoltas deram lugar à amarração das pontas e ao encaminhamento para a conclusão.

Ainda assim, é notável o trabalho que Gillen realizou para tornar empolgantes as histórias de um personagem de difícil empatia. Todos tememos Vader, e o admiramos por sua imponência, mas não é fácil transmitir para o leitor o ponto de vista do vilão com o limitado arsenal de recursos que o roteirista tem à mão: as frases curtas, diretas e definitivas de Vader, suas demonstrações de força, o potencial escondido dos seus ressentimentos. Ao contrário das outras HQs da linha, que dependem muito da presença dos heróis rebeldes consagrados, Darth Vader se bastava com seu protagonista, na forma como escondia suas intenções (e eventualmente suas emoções) sob demonstrações constantes de eficiência e inclemência.

O formato da narrativa fechada, com a trama que se encerra e se justifica depois da vigésima edição ao resgatar elementos da premissa do início da série, é um dos fatores que permitiram a Gillen ter tanto domínio sobre sua história. Repetem-se muitas situações ao longo do percurso - sempre cenas de armadilhas e ataques em que "falhar não é uma opção" - que acabam deixando a HQ bem previsível, mas em nenhum momento Darth Vader perde seu foco: o esforço de entender que por trás dessa máquina misteriosa que é o carrasco do Imperador ainda há um humano forçado ao improviso, à memória, à emoção.

Nota do Crítico
Ótimo