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Crítica

Cavaleiro das Trevas III | Crítica

Terceira minissérie do Batman de Frank Miller sacramenta o triunfo da vontade

Marcelo Hessel
13.06.2017
14h51
Atualizada em
29.06.2018
02h35
Atualizada em 29.06.2018 às 02h35

Depois de um começo grandiloquente, que ofereceu espaço para interpretações sobre a islamofobia de Frank Miller, Cavaleiro das Trevas III - A Raça Superior finalmente chegou ao fim, depois de um ano e meio de edições bimestrais. Se o desfecho das nove edições não tem o mesmo gás do princípio, talvez seja porque esta terceira minissérie de O Cavaleiro das Trevas seguiu menos um caminho de enfrentamento e mais de conformação das ideias que Miller faz dos heróis da DC Comics.

Embora a DC tenha colocado Brian Azzarello para escrever a HQ com Miller, num esforço de controle de danos depois da controversa segunda minissérie, de 2001, DK3 transpira Miller, antes de mais nada, pelo volume. A história da invasão kandoriana na Terra, que envolve os nomes principais da Liga da Justiça, permite não apenas uma ação de grande escala - que Andy Kubert desenha com sua habitual competência - como também oferece veículo para o gosto de Miller pela pancadaria.

Esse gosto nunca se perdeu desde a primeira minissérie, de 1986. No miolo de DK3, as edições 5 e 6, o prazer do combate se mistura à catarse de assistir à manifestação do poder de destruição dos deuses - poder que no entendimento de Miller é a primeira coisa que separa os deuses dos mortais. Do Flash com as pernas quebradas ao sadismo de afogar Superman em camadas de coisas, o que temos aqui é uma demonstração da capacidade de Miller para pensar esse tipo de situação sem se repetir demais.

Nos pequenos momentos de triunfos, como a estilingada de kriptonita, e quando vemos o sorriso no rosto de Batman quando ele diz que "demos um belo susto nesses malditos aliens", é que Miller se torna transparente. Seu Batman sempre gostou da briga, vive por ela, e por impor sua autoridade. A população de Gotham se envolve, os recursos de mediação a que a HQ recorre (embora mais no começo: as redes sociais, a TV) implicam que todas as esferas se envolvem também, e isso passa uma impressão de que a HQ está falando de cidadania, mas no fundo o que importa para Miller é ressaltar o orgulho e a força.

Mulher-Maravilha age assim também, diz que as amazonas lutarão até a morte e matarão porque são feitas de vontade pura. Pode soar como uma definição simplista dos motivos do super-heroísmo, mas não deixa de ser uma escolha de impacto. Embora a minissérie tenha transcorrido de uma forma inesperada, dando protagonismo a Lara e Robin/Batgirl e colocando a perspectiva feminina no primeiro plano, essa perspectiva se funde com a masculina quando trata das justificativas do combate. Para Miller é isso que define o american way, independente de gênero.

Nesse sentido, subjugar-se a um deus seria negar que a vontade é o que move o homem (e a mulher). Talvez seja por isso Miller sempre se afeiçoou ao Batman e ao não Superman, mas uma das visíveis concessões que ele faz aqui para tornar essa minissérie menos disruptiva que a anterior é aceitar a trindade como epicentro do Universo DC e tratá-la com reverência (ainda que ao final ele torne Superman um imitador de Batman no combate). Se na cabeça de Miller entender Superman, Batman e Mulher-Maravilha como algo equivalente ao Pai, Filho e Espírito Santo fosse uma relação ruidosa no passado, DK3 desfaz a leitura problematizante e transcorre como uma HQ até bastante fraterna, em que as diferenças entre Batman e Superman são trabalhadas com humor como se eles fossem os Dois Velhos Rabugentos.

O que acontece de mais significativo quando Batman se ausenta - à parte os trechos que servem para manter a trama andando, do lado dos vilões e dos heróis - são os diálogos em que os coadjuvantes discutem os meios de Batman, seu impacto no mundo, sua suposta importância. Dá para dizer muito sobre a forma como Frank Miller enxerga o vigilantismo, e é possível até argumentar que sua visão de mundo é bastante sóbria em relação a isso - entender o vigilantismo como uma conquista pessoal, acima de tudo - mas não dá pra dizer que ele foge do assunto.

Há uma fala da Comissária Yindel que é muito sintomática: ela diz que os heróis não simplesmente inspiram, eles também evidenciam. Que essa conclusão parta da personagem mais cínica da HQ não pode passar em branco. Tudo o que se discute em DK3, mesmo nos instantes de catarse pueril, é o sentido de ser super-herói, que se torna transparente em meio à ação. O fato de Batman terminar a HQ como se encerrasse um ciclo e estabelecesse um novo ponto de partida para si significa que Miller também acredita que sua argumentação é definitiva.

Nota do Crítico
Bom