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Crítica

Bom de Briga | Crítica

Paul Pope mistura Jack Kirby e Charles Dickens em aventura lúdica

Marcelo Hessel
24.07.2014, às 04H23
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 15H22
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 15H22

Há uma cena que se repete em Bom de Briga (Battling Boy), HQ do quadrinista Paul Pope criada em 2013 e que agora sai no Brasil. Crianças estão jogando bola, e depois de um lance mais forte ela se perde escadaria abaixo. Um dos garotos precisa buscá-la - momento de solidão que mistura a preguiça de refazer uma ação banal, pegar a bola, e o medo do desconhecido: tudo o que há no mundo além daqueles poucos metros de convívio seguro entre meninos.

O fato de essa cena ser contada duas vezes - uma entre garotos na cidade de Arcópolis e depois entre jovens deuses numa espécie de Olimpo que gravita no espaço - não altera seu sentido. Mesmo que Bom de Briga envolva monstros e deuses, é de todo adolescente de 12 anos e das incertezas do amadurecimento que Pope trata nesta sua pequena aventura.

Conhecido por desenhar minisséries de Batman na DC Comics, como Year 100, Pope nos apresenta aqui o Bom de Briga do título, filho de deuses que é enviado à Terra para defender a pobre cidade de Arcópolis de monstros e, sob essa provação, então tornar-se um adulto. O quadrinista coloca seu inconfundível traço expansivo a serviço de uma história com alguns toques steampunk, e com vilões e situações que parecem uma mistura de Jack Kirby (especialmente no visual dos monstros e na ação) com Charles Dickens (a cidade oprimida, a gangue que rapta crianças à Oliver Twist).

A principal qualidade deste primeiro volume (Bom de Briga termina com um gancho e deve ganhar não só uma continuação mas também prelúdios pela editora First Second Books) é tornar essa mistura de referências bastante harmoniosa. Pope visivelmente aposta nos aspectos mais lúdicos da aventura (as armas todas são cartunescas, da pistola de Haggard West e do canhão de Arcópolis ao relâmpago dos deuses), como um antídoto ao impacto das cenas mais grandiosas de duelos.

O eventual fetiche da violência não interessa a Pope, apenas o comentário sobre outros fetiches, aqueles desde sempre relacionados às histórias modernas de super-heróis, dos desfiles de propaganda ao arsenal de armas. Como não deixaria de ser, esses comentários passam pela obrigatória capa vermelha - mesmo crianças que desconhecem Superman já devem ter brincado com uma - e Bom de Briga sem dúvida ainda precisará dela no futuro.

Nota do Crítico
Bom

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