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Crítica

Black Science | Crítica

O primeiro arco da HQ da Image Comics revela um universo hipnótico de desgraças em potencial

Marcelo Hessel
17.09.2015
18h39
Atualizada em
29.06.2018
02h40
Atualizada em 29.06.2018 às 02h40

Da meia-dúzia de séries de ficção científica espacial que a Image Comics tem lançado nos últimos anos na tentativa de repetir o sucesso de Saga, Black Science talvez seja aquela que trabalha de forma mais arrojada e consistente esse subgênero "união familiar colocada sob teste na imensidão imprevisível do espaço sideral".

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Na trama escrita por Rick Remender - que depois de 16 edições encerrou seu primeiro arco e agora só volta nos EUA em dezembro - Grant McKay é um cientista contratado por uma organização para criar um portal para outras dimensões. Como em clássicas histórias de viagem no tempo à moda Ray Bradbury, bastam alguns minutos numa realidade paralela para a primeira missão tripulada perceber que nem tudo vai correr como o planejado. E não demora em Black Science para a interferência num realidade provocar uma reação em cadeia nas demais.

Na comparação direta com os quadrinhos do Quarteto Fantástico, Grant McKay se parece mais com o Reed Richards do Universo Ultimate do que com o Sr. Fantástico consagrado no universo regular da Marvel, porque é a desestruturação da sua família que desencadeia as desgraças que se acumulam em Black Science. "Cada escolha que fazemos é um evento quântico", diz o personagem na abertura da primeira edição antes dos créditos iniciais, uma frase que ecoará ao longo dessa jornada de redenção.

A HQ lida com esses temas de forma consistente porque sabe conciliar muito bem o lado fatalista e o lado otimista da exploração espacial: embora os saltos seguidos do portal representem um universo cada vez mais corrompido, cada mundo visitado coloca aos criadores e aos leitores novas oportunidades de imaginação. O medo inerente do desconhecido, elemento essencial da scifi espacial, é usado em Black Science como combustível de ação e suspense e como instrumento de sadismo, porque em nenhum momento esta deixa de ser a história da expiação dos pecados do infiel Grant McKay.

Embora Remender parta de clichês do gênero - como criar uma equipe com estereótipos como o negro piadista e o burocrata engravatado - ele sabe usar o humor a seu favor (o negro, por exemplo, literalmente reconhece sua descartabilidade e brinca que não fará falta no grupo) e incorporar esses estereótipos ao conceito da série, já que as realidades mudam a cada salto do portal mas não alteram a função estabelecida desses personagens. Escapar ou não da predestinação é o arco dramático que cabe aos coadjuvantes que cercam Grant, e os melhores momentos de Remender na HQ são justamente esses (quando Shawn se liberta da eterna coadjuvação ou quando Ward retorna para reviver sua sina de soldado, por exemplo).

E como os narradores vão se alternando nos recordatórios, temos a oportunidade de examinar os motivos de cada um dos integrantes da tripulação. Porém, uma crítica que se faz à série é que essas motivações mudam ao sabor das edições, e Remender se entrega com frequência a frases de efeito e seu irmão mais velho, o Motivo Nobre. Todo mundo em Black Science tem seu minuto de nobreza, às vezes mais de um. Por exemplo, numa edição Kadir coloca sua promessa a Grant acima de tudo, e na edição seguinte seu motivo nobre já tem outra justificativa, o amor por uma mulher. (Remender deve acreditar que, ao mudar as motivações de seus personagens, está "descancando a cebola" - para ficar numa analogia que a série usa - das coisas que movem seus heróis, mas o resultado na prática é um tanto irregular.)

Black Science não seria uma série tão viciante se não fossem, porém, os desenhos de Matteo Scalera. A noção de um paraíso maculado que permeia toda a HQ é representada de forma bastante inventiva com os riscos e as gotas de nanquim que dão aos quadros um caráter mais palpável e urgente e impregnam os fundos de aquarela como se algo estivesse manchado por essa "ciência negra". Enquanto Scalera constroi a narrativa com seu traço dinâmico, a arte-final de Dean White (e depois de Moreno Dinisio no volume três, mais dramática, cheia de tons terrosos) fornece o colorido necessário para tornar essa viagem ao desconhecido realmente hipnótica. A paleta de cores de Black Science não fica devendo nada à de Saga - aliás, nem todo o restante da HQ.

Nota do Crítico
Ótimo