Ayako | Crítica

Créditos da imagem: Divulgação/Editora Veneta

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Ayako | Crítica

Um retrato realista de um dos períodos mais instáveis da história do Japão, que choca e encanta na mesma proporção

Gabriel Avila
14.05.2018
20h16
Atualizada em
15.05.2018
09h03
Atualizada em 15.05.2018 às 09h03

“Deus do mangá” e “Walt Disney japonês”, são alguns dos apelidos de Osamu Tezuka. Porém, apesar da carreira já consolidada com grandes títulos do calibre de Astro Boy e A Princesa e o Cavaleiro, nos anos 70 ganhou uma outra alcunha, a de “Tiozinho dos mangás”. Uma forma maldosa de dizer que o autor estava ultrapassado. Como resposta, Tezuka se viu obrigado a se reinventar. Em uma safra de novas obras, nasceu Ayako.

A história gira em torno dos Tenge, uma família disfuncional de poderosos aristocratas em decadência devido ao conturbado período que passam após a segunda guerra mundial. O pós-guerra foi um período de instabilidade para o Japão, que saindo como perdedor sofreu uma série de sanções e teve de se reconstruir sob a supervisão (e interesses) dos EUA. Em Ayako esse contexto histórico se torna a atração principal.

Osamu Tezuka usa os personagens centrais como representação para situações muito comuns nesse período: o dono de terras que se sente revoltado ao ter de repartir suas posses com quem perdeu tudo, o soldado que é visto com desonra por não ter perdido sua vida no campo de batalha, a jovem ativista política, dentre outros. Personalidades diversas que são colocadas dentro da mesma casa, aumentando o potencial dramático da obra. Cada integrante esconde sua própria cota de segredos e imoralidade, mas quando a situação complica, é a caçula Ayako quem paga pelos pecados de sua linhagem.

O núcleo familiar se torna o ponto de partida para um retrato complexo da sociedade japonesa dos anos 50. Após a apresentação dos personagens, o foco do enredo se expande, intercalando questões familiares dos Tenge com o cenário instável da sociedade japonesa. Temas como herança, violência doméstica e legado se misturam a intrigas políticas e criminalidade, e esse choque de camadas proporciona que o drama flerte com outros gêneros, como a espionagem.

Osamu era criança durante a Segunda Guerra e, tendo vivido o horror do combate e a miséria após seu término, usou toda a carga pessimista para traduzir esse cenário de forma autêntica. Alguns momentos até mesmo soam mais chocantes que o necessário, porém mesmo esse choque é um reflexo dos tempos. A partir dos anos 60, a crescente ameaça de censura levou Tezuka, antes conhecido por suas obras infantis e inocentes, a ampliar seu leque em defesa do mangá enquanto linguagem. Ayako foi publicado originalmente de 1972 a 1973 e se vale do grande nome de seu autor para tecer duras críticas sociais sem que tenha seu conteúdo alterado.

Uma trama tão complexa exige uma arte caprichada, e nesse campo Tezuka nunca deixa a desejar. Seu característico design de personagens ainda está lá, mas pela temática tem formas mais próximas ao realismo. Assim como na trama, o cenário é extremamente importante, retratando detalhadamente de paisagens rurais a fábricas. Quadros e até páginas inteiras são dedicadas não apenas a ambientar a trama, mas a dar identidade.

Um retrato assombrosamente realista de um dos períodos mais instáveis da história do Japão, que em mais de suas 700 páginas choca e encanta na mesma proporção. Osamu Tezuka põe seus limites à prova e constrói uma obra que apesar de classificada como menor em sua vasta carreira, segue extraordinária quase cinco décadas depois.

Originalmente publicado quinzenalmente na Big Comic Magazine, Ayako foi concebido como uma trilogia e chega ao Brasil em um luxuoso volume único publicado pela editora Veneta - leia mais.

Nota do Crítico
Excelente!