HQ/Livros

Crítica

A Arte | Crítica

Como falar de arte sem incorrer em pedantismo

Érico Assis
29.10.2013
00h00
Atualizada em
04.11.2016
11h03
Atualizada em 04.11.2016 às 11h03

Existe muita gente entendida de Arte que, na melhor das intenções, tenta explicar Arte a quem não "entende" de Arte e se esforça para não usar conceitos e palavras complicadas, sem aquilo que muitos enxergam como pedantismo. Apesar das boas intenções, poucos conseguem. O discurso segue distante, deslocado do mundo real e, acima de tudo, a Arte continua lá, com "A" maiúsculo.

Juanjo Sáez trata a arte com "a". Sua proposta em A Arte: Conversas Imaginárias com Minha Mãe é minar ao máximo o perigo do pedantismo. Ao invés de um livro de arte ou didático, fez um livro em quadrinhos. Ao invés de dar uma aula, diz que quer fazer uma conversa sobre o que ele, pessoalmente, pensa da arte. Ao invés de imaginar um leitor em algum ponto entre o entedido e o desentendido da arte, resolve conversar (imaginariamente) com a mãe - que só conhece cozinhar, cuidar da avó doente e admirar igrejinhas de cidade pequena. Mas que é sua mãe, e mãe merece respeito.

A arte, para Sáez, é Joan Miró, Pablo Picasso e Andy Warhol. Mas também é seu amigo Rafa, que sai pela rua comendo seu prato de arroz com salsichas, pois havia acabado de preparar o jantar e queria acompanhar o amigo até o metrô. A arte, nesse sentido, é tudo que provoque uma emoção de que você goste, seja pelo descompasso com a realidade ou por dar um novo jeito de ver as coisas. E o importante é que VOCÊ goste.

No caso do autor, ele não tem problema algum em dizer que não gosta de Salvador Dalí, nem de vários artistas da geração atual que apelam para o choque. Os curadores, os museus, as bienais, os críticos podem olhar, apontar e dizer "isto é arte" e "isto não é arte". Para Sáez, num dos pontos altos do álbum, o melhor museu do mundo está na cabeça de cada um.

X-Men, Kim Gordon do Sonic Youth, Lars Von Trier e clipes do White Stripes pelo Michel Gondry também fazem parte da seleção pessoal do autor do que é arte, ajudando-o a explicar à mãe que emoções eles conseguem provocar, pelo menos nele. A comparação que ele faz entre as escolas de arte e a Escola para Jovens Superdotados do Professor Charles Xavier é das mais divertidas e mais verdadeiras da HQ.

Sáez tem 40 anos e uma carreira na ilustração, nos quadrinhos e na publicidade na Espanha. Sua produção de livros é mais recente. Fora A Arte, que está saindo em várias partes do mundo, ele alcançou mais destaque recentemente com Viviendo del Cuento, por enquanto só no país natal - e virou um dos expoentes do mercado fértil de HQs que pulula por lá.

Pela característica do desenho do autor, que faz as letras à mão e ainda deixa os rabiscados das palavras ou trechos que escreveu errado, a tradução e o letreiramento são um desafio especial para as editoras que se arriscam a verter a obra para outro idioma. Por isso, o trabalho cuidadoso de Lilian Mitsunaga nas letras é um destaque da edição brasileira, também cuidadosa em todos os outros aspectos.

Nota do Crítico
Bom

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados para as finalidades ali constantes.