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Crítica

Acme Novelty Library #20 | Crítica

Cris Ware e mais uma obra-prima dos quadrinhos

Érico Assis
05.01.2011
22h28
Atualizada em
08.11.2016
08h05
Atualizada em 08.11.2016 às 08h05

Jimmy Corrigan: o Garoto Mais Esperto do Mundo chegou ao Brasil em 2009, depois de muito atraso. Lançado há 10 anos nos EUA - ou ainda antes disso, em capítulos -, a graphic novel de Chris Ware tornou-se um marco do potencial dos quadrinhos pela exploração da linguagem própria da mídia e pelos prêmios literários que ganhou.

Mas chegou atrasada, porque desde Jimmy Corrigan, Ware já produziu muito mais. E Acme Novelty Library #20, que está nas listas de melhores HQs de 2010, é uma amostra de como o autor conseguiu desenvolver-se dentro de seu próprio, hermético, regrado e minucioso estilo. Ware publica a revista desde a década de 90, geralmente com periodicidade anual. Cada edição tem formato gráfico diferente, além de conteúdo inesperado. Esta é horizontal e tem capa dura, lembrando um almanaque antigo.

Acme Novelty Library #20

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A edição 20 da Acme dedica-se a contar a vida de Jordan W. Lint, figura até então secundária na longa narrativa (iniciada em Acme #16) do personagem Rusty Brown. Brown, porém, pouco aparece.

O livrão abre com um diagrama em que Ware explica a relação entre sua criação ser resultado do que ele observa sobre o universo. Ao lado, uma árvore genealógica vai dos avós aos netos de Jordan W. Lint, e aprendemos que ele nasceu em 1958 e morrerá em 2013. É toda essa vida que será contada nas páginas a seguir.

A abertura é um marco na história dos quadrinhos: em 7 páginas, Ware conta a infância de Lint desde o momento em que se percebe como pessoa - são dois pontinhos rosa, que se percebem uma cabeça, que depois começam a perceber as pessoas em volta e seu próprio corpo, desenvolve a linguagem e começa a ter um entendimento das coisas ao seu redor ("mamãe", "pai", "carro", "bola", "casa", "grama", "formiga").

A história vai até os últimos momentos da vida de Lint, e os recursos narrativos de Ware são diferentes a cada nova página - quando não totalmente originais. Parece que o autor dedica a edição inteira a inventar novas formas de contar histórias em quadrinhos.

Uma dessas criações narrativas mais impactantes está perto do final. Lint está lendo a autobiografia de seu filho, Gabriel, que é um ataque ao pai e às memórias de terror da infância. Para retratar o livro - ou a experiência de Lint lendo-o -, Ware muda completamente de estilo, utilizando um traço infantil e somente tinta vermelha. Há uma lógica brilhante nisto: se o mundo "real" da história é representado nas figuras geométricas e nas cores pastel típicas de Ware, o mundo criado numa obra literária tem que ter outra representação gráfica (e não ser apenas letrinhas no papel).

Como já foi comentado por aí, pode ser complicado ler uma HQ de Ware - ele nem deixa clara a ordem de leitura dos quadros, deixando a confusão como parte da leitura (e isso é um mérito que só quem é muito bom consegue fazer). Se você está acostumado com Turma da Mônica, entende-se a dificuldade. Mas quem já tem cancha nos quadrinhos, mesmo que somente os de super-heróis, consegue ver que existe muita coisa que pode ser feita com a linguagem das HQs. São avanços assim que acontecem em cada edição de Acme Novelty Library. O problema, porém, é que, depois de ver Ware inventando novos estilos brilhantes de fazer HQ, todos os outros quadrinhos parecem ultrapassados.

Acme Novelty Library #20 foi lançada em novembro pela Drawn & Quarterly nos EUA e custa US$ 23,95 (R$ 41). A edição faz parte da "saga" de Rusty Brown, que pode virar seu próprio livro, como Jimmy Corrigan, quando terminada - mas ninguém, nem mesmo Ware, sabe quando vai terminar.

Nota do Crítico
Bom

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