Capa de A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes

Créditos da imagem: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes/Rocco/Divulgação

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Artigo

Vale a pena ler A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes?

História sobre Coriolanus Snow é mais interessante do que parece

Camila Sousa
23.06.2020
15h14
Atualizada em
26.06.2020
10h58
Atualizada em 26.06.2020 às 10h58

Quando Suzanne Collins anunciou que lançaria um novo livro de Jogos Vorazes com uma história anterior à de Katniss, os fãs ficaram empolgados. Será que ela mostraria os Jogos de Finnick Odair ou o Massacre Quartenário vencido por Haymitch Abernathy? A escolha não poderia ser mais improvável quando foi anunciado que A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes contaria a história de ninguém menos do que Coriolanus Snow, o conhecido Presidente Snow. No entanto, ao contrário do que muitos podem imaginar, o livro não comete o erro de tentar fazer com que os fãs gostem de Snow e funciona mais como um retrato de quem ele era e quem se tornou.

Na história de A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, a guerra entre os distritos e a Capital terminou há aproximadamente 10 anos. Coriolanus tem 18 anos agora e lembranças muito claras de como foi vivenciar a guerra ainda criança. Pior do que isso, a família Snow, considerada uma das poderosas da Capital, perdeu tudo quando o Distrito 13 foi atacado e todos os seus recursos, que estavam no local, foram destruídos. Vivendo com a avó e a prima após as mortes do pai e da mãe, Coriolanus faz de tudo para manter as aparências e nunca demonstrar que agora a família tem dificuldades até para conseguir uma refeição reforçada.

A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes mostra que naquela época os Jogos Vorazes eram bem diferentes. A ideia de tirar jovens à força de seus distritos para uma batalha de vida ou morte surgiu quase como uma brincadeira, mas foi colocada em prática da maneira mais sórdida possível. Antes de serem colocamos em uma arena totalmente destruída para a batalha, os tributos eram exibidos em uma jaula no zoológico e os habitantes da Capital tinham medo deles, como se as pessoas dos Distritos fossem perigosas e selvagens.

É aí que entra a participação de Coriolanus Snow. Em um movimento para atrair mais audiência para os Jogos - e deixar clara a sua dominação - a Capital escolheu jovens da Academia da cidade para serem mentores dos tributos da 10ª edição. Para Snow, o movimento é uma oportunidade de se sobressair e ganhar uma bolsa para a faculdade, algo que poderia devolver o status ao sobrenome de sua família. Ele espera ser escolhido como o mentor dos jovens dos distritos mais próximos, mas acaba com a garota do Distrito 12, a jovem Lucy Gray, que parece não ter grandes chances de vencer.

Foto de A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes
EW/Divulgação

Suzanne Collins acerta bastante ao dar menos destaque ao conflito em si. A 10ª edição dos Jogos começa aproximadamente no meio do livro (que tem 571 páginas), deixando bastante espaço para mostrar a mente dos idealizadores dos jogos antes do evento em si e também mostrando a vida de Snow e as consequências após o anúncio do vencedor. Ao fazer isso, a publicação cria uma linha do tempo interessante para quem viu os primeiros livros e filmes e fica fácil imaginar como os Jogos foram de um evento precário em uma arena de eventos, ao acontecimento grandioso mostrado na trilogia principal.

Visão de mundo

Como dito no começo deste texto, A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes não tem o objetivo de fazer os fãs gostarem de Coriolanus Snow. A ideia da publicação soa mais como um retrato do que levou o jovem ambicioso a se tornar o presidente de uma Panem que vive à base do medo e massacre. Para fazer isso, Collins não se exime de mostrar os pensamentos mais profundos do personagem. Snow, por exemplo, não gosta da chegada de novas famílias ricas na Capital após o término da guerra. Para ele, era um desperdício que pessoas que cresceram nos distritos e tiveram uma ascensão social pudessem bancar luxos dos quais ele próprio sentia falta. Um dos grandes medos de Coriolanus Snow era perder sua posição e se tornar “uma pessoa comum”. 

Ao longo de suas páginas, o livro mostra que Snow não é alguém desprovido de sentimentos - ele se preocupa de verdade com o bem-estar da prima e da avó, por exemplo - mas sua forma de lidar com isso é ter uma constante sensação de injustiça. Com um dos sobrenomes mais fortes da Capital, Coriolanus cresceu acreditando que tinha direitos garantidos nessa sociedade, e se sentiu realmente mal quando precisou provar seu valor. Em certo momento, por exemplo, ele usa a frase: “Por que tudo é uma batalha pra mim?”, quando precisa, mais uma vez, se provar dentro da Academia.

A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes traz ainda pontos curiosos para os fãs da franquia Jogos Vorazes. Além da ideia de tornar os Jogos mais grandiosos e um programa obrigatório nos Distritos, a publicação mostra a ligação de Snow com as rosas, um ponto marcante na trilogia principal, seu envolvimento com o Distrito 12 e como Katniss Everdeen e o símbolo do tordo lhe despertaram memórias ruins. 

Em certos momentos, o livro parece levar Snow por um certo caminho, mas muda totalmente em suas páginas finais, mostrando a verdadeira natureza do personagem. Ao chegar ao final da publicação, fica o sentimento de que Suzanne Collins cumpriu seu objetivo ao revelar todas as nuances do personagem. Coriolanus Snow não era um monstro completo. Assim como acontece na vida real, ele era um jovem com sentimentos e esperanças, mas que deixou seus medos e uma visão distorcida de mundo moldarem seu caminho para o futuro. Após terminar o livro, surge uma vontade de revisitar tanto os livros, quanto os filmes da franquia principal e, talvez, esse seja o momento certo para isso.