Quinta-feira de FIQ: a formação de um novo público leitor

Créditos da imagem: Fora do Plástico - Pedro Ferreira

HQ/Livros

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Quinta-feira de FIQ: a formação de um novo público leitor

Escolas e crianças fazem festa na edição deste ano

Omelete
4 min de leitura
05.08.2022, às 10H34
ATUALIZADA EM 09.08.2022, ÀS 17H34
ATUALIZADA EM 09.08.2022, ÀS 17H34

Olhar atento, corredores agitados, barulho: tem criança no evento. Muitas crianças, a maioria alunos de escolas inscritas para visitas à 11ª edição do Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte. De acordo com a organização do evento, são mais de 100 escolas neste ano. Elas se empolgam, pegam as HQs, reconhecem personagens estampados nas mesas dos artistas, fazem festa. E é isso mesmo que o FIQ quer, que essa garotada possa conhecer os quadrinhos, possa se interessar por esse universo amplo. Esse é um dos caminhos para a formação de um novo público leitor, uma preocupação constante na cena. “Acho que formar leitores seja a parte mais importante do evento, porque a gente só mantém o campo de quadrinhos, da maneira como nos estruturamos aqui, se tivermos pessoas para ler”, destaca o diretor artístico do FIQ-BH 2022, Gabriel Nascimento

“Como evento público, a verba destinada ao FIQ retorna à população. E como fazemos isso? Contemplando o maior número de pessoas possível e com a formação de leitores”, diz Gabriel. Leitores que são essenciais em um país que lê poucos livros e que lê ainda menos quadrinhos. A circulação das muitas obras lançadas é uma preocupação da cena, mas não apenas isso, há o desejo de uma formação cidadã, que vai além do acesso aos quadrinhos no evento, mas se complementa também nas oficinas, mesas de debate, no contato direto com quadrinistas.

HQs no evento e dentro da escola

O uso dos quadrinhos em sala de aula é apontado por pesquisadores da área como uma das principais maneiras de conquistar novos apaixonados pela mídia. Esse uso já existe, e tem crescido qualitativamente, explorando a linguagem de quadrinhos e toda a sua complexidade ao trazer texto e imagem combinados. É o que aponta a historiadora e quadrinista Line Lemos, que contou na HQ Fessora! um pouco de suas experiências, no período que foi professora na rede pública de ensino. 

Line também participou, na manhã da quinta-feira, de uma mesa dedicada ao tema: “Os quadrinhos vão à sala de aula – e não deviam sair de lá!”, ao lado da pesquisadora Natania Nogueira e do professor Luciano Jorge. Esse encontro entre sala de aula e evento resulta em um contato entre crianças e quadrinhos que estimula a “autonomia dos alunos de se expressar, de seguir seu caminho e conhecer outros bens culturais”, como reflete Line. 

Ou até mesmo de produzir seus próprios quadrinhos no futuro, quem sabe? Quem vai fazer quadrinho no Brasil daqui a alguns anos? O quadrinista Gabú Brito aponta, de imediato, a resposta: é quem lê quadrinhos hoje. “Se isso é apresentado às crianças, em um momento futuro serão elas que estarão produzindo quadrinhos também. E essas obras vão conversar com a própria realidade delas, seja ela periférica, seja ela com recorte racial, de gênero, dos mais variados. Tem que ter todo tipo de pessoas fazendo quadrinhos”. A sua própria trajetória envolve um contato promovido pela acessibilidade de quadrinhos em bibliotecas. Morador da periferia de São Miguel, em São Paulo, Gabú conta que leu Sin City, de Frank Miller, e Maus, de Art Spiegelman, porque encontrou essas obras na biblioteca pública de lá. Uma vez que já havia explorado as obras disponíveis, passou a percorrer a cidade de trem ou ônibus, até a Gibiteca Henfil. O autor de Crianças Selvagens, HQ que fez parte do projeto Narrativas Periféricas da editora Mino, encontrou os quadrinhos e se tornou quadrinista porque pôde ter acesso a eles, de forma gratuita, como reflete.

Por parte dos pequenos visitantes do FIQ, a festa está garantida. Como se fosse necessário, a monitora de música da Escola Integrada da Prefeitura de Belo Horizonte, Sheila Alves de Jesus, destaca que as crianças estão maravilhadas com o universo dos quadrinhos. Ao redor dela, dezenas de meninos e meninas conversam, folheiam mangás e se divertem com o simples fato de estarem ali. “Aqui os alunos trabalham o lado lúdico, eles reconhecem os super-heróis que assistiram, veem as diferentes formas de fazer quadrinhos… Ficam encantados”, diz Sheila. 

Há ainda um longo caminho para que os quadrinhos sejam de fato acessíveis, mais presentes em bibliotecas e para que um novo público leitor, um público diverso, seja formado. "É difícil", aponta Gabriel Nascimento, principalmente em um mercado editorial em transformação. “Mas se conseguirmos ir movendo essa corrente aos poucos, vamos estar em um cenário melhor. E depende da gente, não adianta pensar que alguém vai vir e solucionar tudo isso. Depende da gente, não enquanto indivíduo, mas enquanto coletivo”.

Você pode ficar por dentro do FIQ, durante os cinco dias de evento, com a cobertura do Fora do Plástico e do Omelete.

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