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Clube da Luta: 20 anos | Por que continuamos a falar sobre o clássico de Chuck Palahniuk?

Duas décadas depois, a explosiva obra continua encontrando ecos na sociedade

Caio Soares e Natália Bridi
04.01.2017
15h03
Atualizada em
29.06.2019
08h40
Atualizada em 29.06.2019 às 08h40

“Nas montanhas da Bolívia (...), todo ano, as pessoas mais pobres se reúnem em vilas no alto dos Andes para celebrar o festival ‘Tinku’. Lá, os homens do campo arrebentam uns aos outros na porrada. Bêbados e ensanguentados, eles socam uns aos outros apenas com os punhos e cantam: ‘Nós somos homens. Nós somos homens. Nós somos homens...’ Os homens lutam com os homens. Eles lutam do mesmo jeito que têm feito há séculos”

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Assim Chuck Palahniuk encerra o posfácio da reedição de 2012 de Clube da Luta. A obra, publicada originalmente em 1996, conta a história de um homem medíocre que busca um sentido para a vida em lutas clandestinas em porões empoeirados na cidade onde mora. Anti-herói cínico e autodestrutivo, Tyler Durden transforma a vida do narrador, apresentando um mundo fora dos limites de uma sociedade fútil e consumista. O narrador encontra alívio e redenção após horas de luta, mas o relacionamento com Tyler se transforma em algo muito pior.

Para comemorar o aniversário de 20 anos do lançamento do livro nos Estados Unidos, a LeYa, em parceria com o Omelete, preparou uma edição comemorativa para colecionadores em capa dura, com o roteiro completo do filme de David Fincher e uma entrevista de Chuck Palahniuk realizada durante a San Diego Comic-Con de 2014.

* Chuck Palahniuk: Muito além de Clube da Luta

Do papel para a tela

O conto original de sete páginas, criado por Chuck em um curso de escrita criativa, descreve a icônica cena em que o narrador senta em sua cadeira de trabalho e, visivelmente ferido, chama a atenção de seu chefe. Porém, obedecendo às regras do Clube da Luta, não pode revelar nenhum detalhe sobre o que faz depois do expediente. A cena, que se tornou uma das mais famosas do livro, chamou a atenção de editores norte-americanos, e Chuck escreveu a primeira versão da obra em três meses após receber um pequeno adiantamento.

O livro foi bem-recebido pela crítica norte-americana, sendo considerado por muitos uma atitude corajosa da editora publicar um livro de temática incômoda, original, violenta e hilária. Com o início bem-sucedido de vendas do livro, o interesse de Hollywood em uma possível adaptação começou a aumentar. Responsável por transformar em filme o romance de Palahniuk, o diretor David Fincher se interessou pelo projeto depois que o agente Josh Donen lhe apresentou o trecho em que Tyler Durden faz um de seus “sacrifícios humanos”, colocando uma arma na cabeça de Raymond K. Hessel, funcionário de uma loja de conveniência, para convencê-lo a voltar para a faculdade.

Depois de ler o livro todo em uma única noite, Fincher decidiu que precisava comandar a adaptação - “Eu não conseguia parar de rir. Quem não quer ver empresas de cartão de crédito explodindo?”. O cineasta tentou então comprar os direitos do romance, que já estavam com a 20th Century Fox. Coincidentemente, o estúdio buscava alguém para comandar o roteiro do novato Jim Uhls. Antes de chegar em Fincher, porém, a vaga passou pelas mãos de Peter Jackson, que estava ocupado com Os Espíritos; Bryan Singer, que recebeu, mas não chegou a ler o livro; e Danny Boyle, que leu o livro e chegou a se encontrar com o produtor Ross Bell, mas preferiu seguir com outro projeto.

O modesto orçamento inicial de US$ 23 milhões se transformou em US$ 63 milhões para atender à visão do diretor, que também convenceu o estúdio a manter a narração em off (considerada “vulgar” pelos produtores, mas a fonte do humor do livro, segundo Fincher) e a ter Edward Norton como protagonista (Matt Damon era o primeiro nome cotado para a vaga). Cifras de uma produção hollywoodiana que para Palahniuk têm a mesma essência do ponto de virada do livro: “A piada final era a ideia que o capitalismo comeria as próprias fezes para fazer dinheiro, que faria piada consigo mesmo se pudesse lucrar com isso”.

De inimigo à "vítima" do capitalismo

Apesar do rótulo de filme “anti-encontro romântico”, Clube da Luta chegou a estrear nos EUA em primeiro lugar no fim de semana de 15 a 17 de outubro de 1999, fazendo US$ 11,03 milhões no fim de semana, um pouco acima de Risco Duplo (Double Jeopardy, 1999, que fez  US$ 10,23 milhões na sua quarta semana em cartaz, e do outro estreante A História de Nós Dois (The Story of Us, 1999), com US$ 9,67 milhões. Falhando em agradar o público geral para ganhar o necessário boca a boca, o filme teve uma queda de 42,6% no segundo fim de semana (fazendo US$ 6,33 milhões). Fechou sua arrecadação nos EUA depois de 11 semanas em cartaz com apenas US$ 37,03 milhões. Internacionalmente, fez US$ 63,82 milhões, totalizando uma bilheteria mundial de US$ 100,85 milhões.

O sucesso veio apenas com o pioneirismo em outra mídia: Clube da Luta vendeu 13 milhões de cópias em DVD desde o seu lançamento. Fincher esteve envolvido com o novo formato desde a embalagem, sendo um dos primeiros cineastas a supervisionar a transição de um longa para o home video. Com o êxito nas vendas, US$ 55 milhões somados em locações e uma bilheteria internacional razoável, Clube da Luta fechou a conta no positivo, cobrindo o seu custo, deixando um lucro de US$ 10 milhões para o estúdio e transformando Palahniuk em um autor de alcance mundial.

Do êxito também vieram as deturpações da mensagem, como temiam a mídia à época do lançamento e como reclamou Fincher na Comic-Con 2014: “Clube da Luta é sobre a coisa mais perigosa de todas: ideias ”. Uma vez expostas, essas podem ser semeadas, mesmo que o objetivo fosse evitar o seu cultivo. Tyler Durden se tornou o correspondente para os descontentamos do novo milênio assim como Travis Bickle (o personagem de Robert De Niro em Taxi Driver, de 1976) fora uma voz no pós-Guerra do Vietnã. Ao invés de entender o personagem como a consequência extrema de uma crítica social, parte do público assumiu a identidade da transgressão como a necessidade de quebrar as regras que o tornavam infeliz. Tyler não é o vilão, é o herói. Assim nasceram clubes da luta de verdade pelo mundo, formados por tipos variados, de profissionais da indústria de tecnologia a meros adolescentes.

Ironicamente, ao criar o retrato dessa “geração infeliz e violenta", Clube da Luta também se tornou um produto de consumo de massa. Uma promessa de felicidade tão embalada quando os móveis comprados pelo narrador. É essa inconsistência que torna o livro e seus produtos ainda mais especiais, uma possibilidade metalínguistica única em que a obra de arte é ao mesmo tempo “solução” e problema. Assim, o livro que critica o modo de vida do capitalismo foi comprado e catapultado por Hollywood. Seu criador, antes inspirado pela falta de interesse social pôde finalmente se tornar escritor em tempo integral depois que o público abraçou com entusiasmo a sua história.

O legado

Lançado como uma resposta masculina à títulos de agregação feminina em voga na literatura norte-americana da época, Clube da Luta estendeu sua influência além das barreiras de gênero, representando um momento cultural. Clamou que as “coisas que você tem acabam tendo você”, mas continua a figurar como produto nos mais variados meios. A raiva e o senso de humor de Palahniuk despertaram uma geração, que não se libertou das amarras do capitalismo, mas se tornou mais consciente.

Clube da Luta prega uma volta às origens, a vida em pequenas comunidades, com a realização de trabalhos manuais (como o sabão produzido na casa em Paper Street), e a expulsão dos sentimentos mais animais e viris como forma de expurgar o ódio; trabalhar o corpo e transformar o consumo fútil em algo ultrapassado. Duas décadas depois, a mensagem de Chuck segue encontrando ecos. No posfácio do livro, o autor diz que, mesmo após uma extensa obra publicada, homens e mulheres comuns ainda o questionam sobre onde podem encontrar um clube onde possam lutar uns com os outros.

O contrato social continua em vigor, com as coisas, incluindo os produtos relacionados a Clube da Luta, preenchendo espaços, vazios de uma vida cada vez mais virtual, mais teórica do que prática. Novas edições especiais, paródias, bonecos, séries de TV, continuações, obras inspiradas e artigos sobre o legado de Clube da Luta vão surgir. Vamos continuar falando sobre isso, quebrando e criando novas regras - “Essa é a sua vida”.