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Cartas da Metrópole: <i>Tintin e a Alph-Art</i>

Cartas da Metrópole: <i>Tintin e a Alph-Art</i>

Atualizada em 25.02.2017, ÀS 10H59
"Tintin e a Alph-Art"
Formato álbum - 62 páginas
Difusão Verbo
Roteiro e arte: Hergé

2 ovos

Quem diria? Décadas após a morte de seu criador Hergé (em 1983), um novo álbum de Tintim de sua autoria foi publicado em português. Novo álbum? Como é possível? Bom, é possível por uma razão bem simples: Este não é um "álbum" na definição precisa do termo. Esta publicação é uma coleção de esboços (alguns detalhados, a maioria não) de uma aventura que Hergé não terminou.

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A história, ou o que há dela - já que, pelo visto, Hergé não costumava planejar suas histórias até o final antes de começar a trabalhar - é até interessante. Tintim investiga misteriosas mortes ligadas ao artista Ramo Nash, o criador de uma revolucionária forma de arte moderna, a "Alph-Art", que se baseia na reprodução estilizada de letras do alfabeto! Nash, por sua vez, parece estar ligado a um culto liderado pelo misterioso guru Endaddine Akass. A investigação coloca o repórter topetudo e seu inseparável parceiro, o Capitão Haddock, em uma série de aventuras, nas quais aparece boa parte do elenco da série (inclusive alguns dos personagens mais obscuros) e uns interessantes personagens novos - inclusive a primeira personagem feminina jovem a ter um papel digno de nota em uma história de Tintim! E é isso, a história termina repentinamente deixando os leitores abandonados no meio de uma trama bastante promissora.

É um tanto quanto surreal ler uma "HQ" que tem início, mas não final (e termina de forma muito pouco satisfatória), que não passa de uma seqüência de esboços e tem ainda uma série de inconsistências que provavelmente seriam corrigidas na versão final. Mais absurdo ainda é que, apesar de tudo isso, os editores acreditaram que tinham em mãos um material em condições de ser publicada. Inacreditável!

Claramente a Fundação Hergé (que administra as criações do falecido autor) estava querendo faturar um pouco mais às custas dos fãs incondicionais do personagem. Publicar a aventura neste estado, sem sequer chamar alguém para terminá-la ou, ao menos, para transformar os esboços já prontos em arte publicável (como o principal assistente de Hergé, Bob de Moor, desejava fazer quando ainda era vivo, mas foi proibido pela Fundação) é uma clara falta de respeito com os leitores. Mais ainda por ser lançada como parte da coleção de álbuns da série (que agora conta com 24 volumes), como se fosse um trabalho finalizado!

Mas há alguns atrativos na publicação. Ela dá aos leitores uma rara visão do processo criativo de Hergé, mostrando esboços e, em alguns casos, páginas já desenhadas a lápis. Estudos de personagens e de roteiro. Várias versões de diálogos (infelizmente nem todas traduzidas na versão em português). Ironicamente, deixa todo o percurso aberto para quem quiser terminar o álbum...

E alguns fãs mais determinados fizeram isso mesmo! Diversas edições piratas do álbum finalizado foram publicadas (de forma clandestina) desde então, a mais famosa delas criada por Yves Rodier, que deu ao álbum (e a toda a série!) um final digno do nome. Seria uma aquisição bem mais interessante para o leitor médio do que esta versão incompleta, mas é dificílima de encontrar (e, claro, está disponível apenas em francês!).

A edição portuguesa é a melhor possível dadas as condições. Ela reproduz fielmente a mais recente versão francesa, traduzindo todos os textos do álbum mas, por razões óbvias, deixando as anotações manuscritas de Hergé nos esboços (de onde foram tirados esses textos) sem tradução. Como nem tudo que Hergé escreveu nos esboços está nos textos que os acompanham, só um leitor fluente em francês e com bons olhos (para ler a caligrafia miudinha de Hergé) aproveitará ao máximo o álbum.

No final das contas, mesmo o prazer incomparável de se ver uma nova aventura do intrépido repórter assinada por seu criador é capaz de compensar a frustração de se gastar um bom dinheiro para comprar pouco mais que um caderno de esboços incompleto. Então posso apenas recomendar este "álbum" para fãs incondicionais de Tintim ou criadores em potencial interessados em encarar o desafio de terminar uma aventura incompleta do personagem (boa sorte!).

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