Bone | Oito razões para ler a obra-prima de fantasia

Créditos da imagem: Divulgação/Todavia

HQ/Livros

Lista

Bone | Oito razões para ler a obra-prima de fantasia

HQ de Jeff Smith foi relançada no Brasil em 2018

Marcelo Hessel
27.02.2019
17h30

A série Bone, criação mais famosa do quadrinista americano Jeff Smith, ganhou uma reedição no Brasil em 2018. É a promessa de termos pela primeira vez não apenas a versão colorizada da HQ como também sua versão integral - Bone nunca foi publicada por inteiro no país.

A HQ conta a história de três primos, Fone Bone, Phoney Bone e Smiley Bone, que são expulsos de sua cidade, Boneville. Os três partem em uma jornada em busca de um novo lugar para viver, mas acabam se perdendo. A fantasia é um recordista de prêmios nos EUA, e na galeria abaixo nós listamos oito motivos para ler Bone.

O humor

O humor está muito presente no texto, com jogos de palavras, em piadas literais e de costumes, mas ele também se traduz eficientemente nos desenhos de Smith. Quando o inverno chega, por exemplo, ele cai como um grande disco de neve, e o efeito cômico (que o leitor talvez esperasse já que todo mundo avisa Fone Bone que o inverno chega rápido) ganha outra dimensão com o espírito cartunesco do jogo desenho-quadro-página.

Os personagens

O carisma dos personagens e a inversão de expectativas tradicionais das histórias de fantasia geram tipos memoráveis como a esquentada vovó Ben, que não faz o tipo benevolente e inofensivo dos contos de fada, embora pareça sempre bonachona com seu sorriso pequeno, como uma versão feminina de Popeye.

O drama

A ameaça do vilão remete ao imaginário dos magos malvados e coloca um pouco de tempero de O Senhor dos Anéis em Bone, já sugerindo no primeiro volume que a história dos três primos envolverá tentações, potenciais traições e outras provações morais, ou pelo menos uma trama cheia de mistérios e revelações. Smith sabe usar bem a emoção quando menos se espera, como na splash page em que quebra o coração apaixonado de Fone Bone antes da corrida de vacas.

As viradas visuais

Boa parte do humor de Bone passa por quebrar visualmente nossas expectativas sobre esse mundo de fantasia. Insetos podem se revelar gigantes, embora chapados em profundidade, assim como abelhas em árvores agigantadas não se diminuem e sim se aumentam com a mudança de perspectiva. Smith brinca com anatomia e perspectiva para gerar situações cômicas que sempre reorganizam o mundo da HQ como uma terra de surpresas.

A familiaridade

Prever o comportamento dos personagens, como num bom desenho animado de sábado de manhã, que envolve a repetição de dinâmicas estabelecidas, é uma das graças de ler Bone. Quando as ratazanas perseguem Fone Bone, por exemplo, é quase certo que a cena de ação descambará para uma confusão que termina com a frase de efeito mais conhecida da HQ: "Stupid, stupid rat creatures!".

As brisas

Bone envereda por metalinguística e referências literárias mas não de um jeito pedante, nem exige que o leitor entenda tudo de Moby Dick. Quando brinca com o caráter épico dessas histórias, Jeff Smith pega emprestado para si um pouco da grandiosidade e a traduz visualmente em brisas de impacto como a splash page com o dragão no sonho de Fone Bone. Os sonhos dentro da HQ, de modo geral, são grandes momentos de terror e maravilhamento com o mundo de fantasia de Bone.

Os conceitos

Bone joga o tempo todo com mudanças de status quo: os primos Bone que precisam lidar com uma realidade sem a bonança em Boneville, o reino no vale que não pode se reestabelecer, a família real que aprende a viver como fazendeiros. Essas mudanças se resumem em um conceito de fantasia quase quântico, que é a existência, ao mesmo tempo, dos velhos tempos gloriosos de cavalaria (o mundo dos sonhos) e os tempos atuais, e a princesa Thorn é capaz de transitar entre os dois. Essa ideia consagra Bone como uma HQ que, numa brincadeira de metalinguagem, presta homenagem aos clássicos do gênero.

A previdência

Bone começou a sair em 1991, e quando a HQ já estava quase na metade, em 1997, bem antes do 11 de setembro e do governo Bush, Phoney Bone já lucrava nos seus negócios incentivando o medo e a paranoia dos humanos simplórios de Barrelhaven. O fato é que a criação de Jeff Smith envelhece bem falando sobre coisas diversas como capitalismo, e seus temas - não apenas aqueles que lidam com arquétipos atemporais de narrativa fantasiosa - continuam atuais demais.