HQ/Livros

Notícia

Aqui Dentro e Lá Fora (12 de maio de 2010)

Jambocks! e Wilson

Érico Assis
12.05.2010, às 21H57
ATUALIZADA EM 06.11.2016, ÀS 20H06
ATUALIZADA EM 06.11.2016, ÀS 20H06

As colunas AQUI DENTRO e LÁ FORA se fundiram e ganharam uma periodicidade semanal, dando mais vazão para as coisas que saem no Brasil e manter você também atualizado sobre o que está acontecendo longe das nossas bancas.

Veja os destaques da semana:

AQUI DENTRO: JAMBOCKS! Vol. 1

O QUÊ: Uma história da aeronáutica brasileira na Segunda Guerra Mundial, do ponto de vista de um soldado brasileiro convocado em 1942. A história completa será publicada em quatro volumes. O projeto recebeu verba de um edital de apoio a quadrinhos do Governo do Estado de São Paulo.

QUEM: O roteirista Celso Menezes e o desenhista Felipe Massafera.

POR QUÊ: Jambocks tem diferenciais em relação à leva de quadrinhos brasileiros que têm saído pelas médias e pequenas editoras: roteiro e desenhos feitos por gente com experiência e sensibilidade para as minúcias da linguagem de HQ.

Essa experiência, contada em currículo, talvez nem seja tão grande. Felipe Massafera já está despontando há alguns anos no mercado norte-americano, com alguns trabalhos publicados lá fora. Celso Menezes, vem de alguns roteiros de HQs indie. Mas, nas primeiras páginas do álbum, você já percebe que a narrativa flui na concepção de cenas, nos diálogos e na movimentação dos quadros. Mesmo sem longo currículo, são caras que pensam e sabem como se faz uma HQ.

Este grande ponto positivo de Jambocks, porém, fica à sombra de um outro, negativo: o volume 1 corresponde a trinta e poucas páginas de uma história que se alongará por mais três volumes - e o segundo ainda nem foi anunciado pela editora. Considerando os exemplos do mercado nacional que se têm, fica inclusive a dúvida se estes outros volumes vão sair.

Mas a questão está na história em si ficar dependente dos próximos volumes. O primeiro capítulo não fecha um arco que justifique que ele seja um capítulo. É uma apresentação - e o centro da história ainda não está ali. Em outras palavras: era uma história que merecia ser publicada completa.

É óbvio que publicar uma HQ totalmente colorida de cento e poucas páginas significaria um preço bem maior. Mas a opção por publicar em volumes gera três problemas: o preço total dos quatro volumes será maior do que o de um volume único; o leitor não tem noção de seu interesse pela história se o primeiro volume não lhe compra o suficiente; por fim, os dois problemas iniciais podem levar a baixas vendas e à dúvida da editora em publicar os seguintes, para evitar jogar dinheiro fora.

Jambocks, enfim, é uma boa promessa, mas também uma aposta que você faz ainda com uma dose de receio. E espera-se que as editoras deem mais atenção a histórias completas - ou pelo menos com um plano de publicação bem definido.

ONDE E QUANTO: Jambocks está nas livrarias. O preço sugerido é de R$ 30,00. Compre aqui. Veja preview.

LÁ FORA: WILSON

O QUÊ e QUEM: Novo trabalho de Dan Clowes, autor de Ghost World e Como uma Luva de Veludo Moldada em Ferro. Wilson é um cara de meia idade que tem opiniões sobre tudo e adora se meter na vida dos outros.

POR QUÊ: Dan Clowes tem uma obsessão por - ou identificação, ou se propõe como desafio - personagens absurdamente chatos, que desafiam a compaixão do leitor. Tem Enid de Ghost World, David Boring, mais vários exemplos de Como uma Luva de Veludo Moldada em Ferro e Ice Haven. Wilson talvez seja o ápice dos personagens detestáveis: um ser criado apenas para se meter em todo tipo de assunto e reclamar de todo tipo de pessoa.

A misantropia de Wilson é vista não numa história contínua, mas em uma sequência de histórias de uma página. E cada uma é desenhada em um estilo diferente, de acordo com o que pede a situação. Há o estilo detalhado, carregado nas sombras, já conhecido de Clowes, há outro estilo mais cartunesco, há outro com linhas mais soltas e sem cores. Eles se repetem, de acordo com o aspecto que vemos da vida de Wilson.

A criatividade de Clowes na narrativa é sensacional, não há dúvida. Soma-se a isso o próprio design do álbum, um livrão de 29 x 21cm. É o elemento de surpresa que o autor usa desde Eightball, a série cuja edição seguinte era sempre imprevisível (inclusive no quesito “quando vai sair?”).

A imprevisibilidade, porém, acaba por aí. Wilson pode ser o personagem mais chato de Clowes, mas também cheira a fórmula esgotada. Mais que isso: uma fórmula que o quadrinista já usou tantas vezes que nem se dá mais ao trabalho de caprichar na execução. Compare Wilson a edições antigas de Eightball e você vai ver um apuro muito menor no desenho e mesmo no texto - reduzido, rápido, telegráfico e simplista.

Há grandes momentos, claro - como no qual Wilson comenta como é triste um trintão ver profundidade dramática em filmes de super-herói. Mas são momentos já esperados de um personagem de Dan Clowes, sem o frescor ou a rebeldia que seus personagens principais tinham.

Aliás, fica a dica: depois do insucesso de Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro, as editoras nacionais parecem não querer tocar em algo de Clowes, considerado um dos luminares dos quadrinhos lá fora. É por isso que suas obras-primas - Ghost World, definitivamente, e outras como Ice Haven - continuam inéditas por aqui. Esta na hora de redescobrir Clowes.

ONDE E QUANTO: Wilson custa US$ 21,95 (R$ 39).

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