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25 anos da revista <i>Quadreca</i>

25 anos da revista <i>Quadreca</i>

Waldomiro Vergueiro
09.12.2002
00h00
Atualizada em
21.11.2016
10h10
Atualizada em 21.11.2016 às 10h10

A revista Quadreca, publicada pela Editora-Laboratório Com-Arte do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, completa 25 anos de vida.

Criada em 1977, a partir de uma iniciativa visionária da Profa. Sonia Luyten, ela representa um exemplo de persistência e crença na força das histórias em quadrinhos em ambiente universitário. E, também, de evolução: a partir de um início humilde, com poucos exemplares, impressão canhestra, conseguiu sobreviveu ainda que a duras penas e passou por períodos em que não alcançou ser publicada, dando a impressão, em alguns momentos, de que seria descontinuada. Felizmente isso não aconteceu. Neste final de ano, graças ao esforço e dedicação dos alunos do Curso de Jornalismo e Editoração, com a coordenação e orientação dos professores Plínio Martins Filho e Ricardo Amadeo, ela chega ao seu número 13. Que, absolutamente, não é, no caso dela, um número de azar. É quase um presente de natal antecipado...

Por estar próximo a seus editores e desenhistas, talvez o autor desta resenha seja um pouco suspeito para afirmar tal coisa, mas não é possível deixar calar o que qualquer exame visual poderá comprovar: a cada número publicado, a revista Quadreca aprimora sua qualidade gráfica e intelectual. Sinal de que os alunos do Curso de Editoração, responsáveis por ela, estão assumindo uma postura profissional em sua elaboração. E este última edição surpreende a partir da capa. Lindíssima. Em tons avermelhados, atrai imediatamente a atenção e certamente irá se destacar em meio a outras. O desenho de Mário Mancuso, buscando inspiração nas capas de revistas da linha Vertigo, certamente uma de suas grandes influências, promete uma atmosfera de mistério, suspense e encantamento aos leitores que se sintam predispostos a abrir a revista. Uma promessa que é devidamente cumprida.

Como em vezes anteriores, o número 13 da Quadreca apresenta uma interessante mescla de histórias em quadrinhos e matérias informativas. Mais das primeiras do que das últimas, é claro, pois os leitores desejam muito mais ler histórias em quadrinhos do que ouvir falar sobre elas, mas não tanto a ponto de deixar insatisfeitos aqueles que gostam de matérias de conteúdo opinativo ou jornalístico. São doze histórias em quadrinhos, duas delas coloridas. Naquelas em preto e branco, prevalece o tom escuro e a temática séria.

A história Remissão, de Endrigo Pinotti, é uma das poucas exceções ao que se afirmou acima: em uma história de apenas uma página, enfoca, de forma bem humorada, as desagruras de um bandeirinha - ou, como se diz hoje em dia, um assistente do juíz... - em um jogo de futebol. Endrigo é um evidente apreciador dos quadrinhos de linha clara, uma técnica que ele domina com maestria. O mesmo tom bem humorado vai aparecer em sua outra história na revista, Revelação, embora nesta última o estilo gráfico seja um pouco diferente, mais para a linha do underground norte-americano. Já a história Casualidade, de Adams Carvalho, uma das histórias a cores na revista, surpreende pelo final inesperado, fazendo abrir um sorriso no rosto do leitor que já havia se preparado para um final negativo. Brilhante. A outra história em cores, Caso, de Adams, explora o erotismo como temática.

O tom escuro é levado ao extremo nos desenhos de Samuel Casal para a história Love bytes, com roteiro de Marcelo de Andrade, e na história de Marcelo dSalete, Putaria e classificados. O gênero do suspense surge na história Último bonde, cujo autor, sugestivamente, utiliza o pseudônimo Morte; o surrealismo, com Ad Infinitum, do veterano quadrinhista Gazy Andraus e a ficção científica na história de Marco A., sem título. Completam a revista as histórias Conversa sincera, de Adams, com uma proposta bastante modesta, e Blues da decepção, contribuição de Mario Mancuso, o desenhista da capa da revista, com arte final de Fabrício Sena, para o belo roteiro de Daniel Esteves, que explora os meandros da inspiração de um compositor de blues.

As matérias informativas, em menor número, são abertas com um texto quase autobiográfico de Sonia Luyten, em que a pesquisadora de quadrinhos e mentora da revista Quadreca lembra os pontos altos e baixos do quarto de século dessa publicação. Sonia, de uma forma sintética e objetiva à qual não deixam de faltar momentos de ternura, relembra as motivações do início, as propostas ousadas que ela personificou, a quase derrocada quando do afastamento de sua criadora para outras terras e a retomada pela iniciativa dos alunos do Curso de Jornalismo e Editoração, concluindo, em uma análise otimista, com a reafirmação do objetivo da Quadreca, ou seja, o de buscar soluções para a redescoberta nacional, fazendo com que esse exercício constante da busca de sua própria identidade, do olhar para dentro de suas raízes, continue dando espaço para os novos desenhistas e fomente a pesquisa das histórias em quadrinhos no Brasil. Amém, Sonia!

Na tradicional seção de entrevistas da Quadreca, os jovens editores Marcelo Salles e Leonardo Miyahara resolveram inovar e partiram em busca da voz de uma das pessoas mais influentes na área editorial de histórias em quadrinhos no Brasil nos últimos vinte e cinco anos, João Paulo Lian Branco Martins, mais conhecido como Jotapê, um dos sócios da Editora Via Lettera. Ao escolhê-lo, os alunos buscaram valorizar um pouco mais o trabalho de quem publica HQs no Brasil e tem coragem de investir em gente nova, requisitos que Jotapê, também tradutor de quadrinhos e coordenador do site Omelete, preenche com galardia. Não é de admirar, portanto, que sua entrevista represente uma contribuição valiosa e esclarecedora para todos aqueles que se interessam pela publicação de histórias em quadrinhos no país.

As matérias informativas completam-se com um texto dedicado ao mestre Flávio Colin, um dos maiores artistas brasileiros a se dedicar à linguagem seqüencial, recentemente falecido. Ao incluir o texto na revista, os responsáveis pela Quadreca demonstraram saber reverenciar os verdadeiros mestres e dar-lhes o devido valor. Este é, sem dúvida, um sinal auspicioso para jovens editores e artistas que futuramente estarão à frente de publicações do gênero, permitindo acreditar que, se depender deles, as perspectivas podem ser melhores do que normalmente se ousa esperar.

No entanto, como toda revista elaborada e desenvolvida em ambiente universitário, a Quadreca 13 não deixa de apresentar uma limitação. É pequena, com certeza, e não chega a empanar o brilho da revista. Mas ela existe e pode trazer a alguns leitores alguma decepção, como trouxe ao autor desta resenha, que dela sai frustrado por não poder identificar todos os que participaram da revista. Quem está, por exemplo, por trás do pseudônimo Morte, utilizado pelo autor de uma das histórias mencionadas. Quem são os outros autores? De onde vêm? O que fazem? Não deixa de ser um pouco frustrante pensar que apenas aqueles que deles estão mais próximos podem saber que Marcelo dSalete é aluno do Curso de Artes Plásticas da ECA, Daniel Esteves estuda na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e Gazy Andraus está agora cursando pós-graduação na ECA, onde desenvolve uma tese de doutoramento sobre histórias em quadrinhos. Uma pequena nota de rodapé na primeira ou na última página das histórias teria resolvido essa questão sem grandes dificuldades. Os editores talvez não se tenham dado conta de que isto poderia agregar valor à revista. Ou, então, os próprios autores, por modéstia, preferiram não alardear suas biografias, o que para alguns até possa ser meritório. Para aqueles que, como Sherlock Holmes, não incluem a modéstia no rol das virtudes, certamente deixará na boca um gosto de curiosidade não satisfeita. Mas isso é bom, ao final: a Quadreca tem algo para melhorar no número 14!

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