Cena do curta Kitbull

Créditos da imagem: Kitbull/Pixar/Reprodução

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Oscar 2020 | Conheça os curtas animados indicados

Quase todos os candidatos ao prêmio se voltam para as relações familiares

Mariana Canhisares
07.02.2020
16h59
Atualizada em
09.02.2020
15h11
Atualizada em 09.02.2020 às 15h11

É curioso pensar que quase todos os indicados a Melhor Curta Animado no Oscar 2020 se dedicam, em alguma medida, a analisar as relações familiares. Ora com um olhar mais otimista, ora com um pesar mais intenso, as produções se voltam para casamentos, laços fraternos e relacionamentos entre pais e filhas não apenas para gerar identificação com o espectador, mas também tomar posições políticas e ousar nas experimentações estéticas.

Para entender a abordagem dos diretores e seus respectivos objetivos com os projetos, conheça um pouco do processo de desenvolvimento de cada um dos candidatos deste ano:

HAIR LOVE

Em um dia que promete ser importante, a pequena Zuri acorda determinada a criar um penteado especial para a ocasião. Mas, sozinha, ela não consegue fazê-lo. Ela precisa da ajuda do seu pai, para o desespero do homem. São tantos cremes e elásticos, como lidar?

Em Hair Love, Matthew A. Cherry leva para as telas uma situação que, embora não viva - ele ainda não é pai -, reconhece nas famílias dos seus amigos, mas não somente. Em 2016, quando o projeto começou a tomar forma, Cherry observou o boom dos vídeos de pais justamente cuidando dos cabelos das filhas, todos repletos de comentários tratando a atitude como se fosse algo, no mínimo, surpreendente. Para os espectadores, isso não seria algo “esperado” dos homens.

"Pais negros têm uma das piores representações em termos de estereótipos - somos preguiçosos, não estamos presentes. As pessoas que conheço são extremamente envolvidas nas vidas dos seus filhos", explicou o roteirista e codiretor ao New York Times sobre por que decidiu narrar essa história. "Queria ver uma jovem família negra no mundo da animação".

Embora a premissa seja interessante, Cherry precisou recorrer ao crowdfunding para que sua primeira animação saísse do papel. Com o apoio de anônimos e famosos, como Jordan Peele e Gabrielle Union, ele levantou US$ 300 mil. Mas, além disso, ele teve a colaboração de dois veteranos para que Hair Love tomasse forma. São codiretores do curta Bruce W. Smith, que trabalhou em Tarzan, A Princesa e o Sapo e Space Jam, e Everett Downing Jr., que tem uma bagagem e tanto na Pixar.

KITBULL

A inusitada amizade entre um gatinho desconfiado e um pitbull dócil começou como um projeto pessoal de Rosana Sullivan, uma maneira de desestressar. Mas, aos poucos, foi tomando rumos mais pessoais. "Percebi que na minha infância sempre fui muito sensível e tímida. Tinha problemas para estabelecer conexões, fazer amigos. Então me identifiquei com esse gatinho, porque nunca saiu da sua zona de conforto", contou em um vídeo dos bastidores.

A primeira inspiração veio daqueles famosos vídeos dos bichinhos fazendo todo tipo de coisa, um verdadeiro vício na vida da artista. Quando decidiu dar o pontapé no projeto, viu a oportunidade de retratá-los com mais realismo - não necessariamente nos traços, mas em termos de movimentos e atitudes -, uma lacuna que percebeu nas demais animações com os bichanos.

Por seis anos ela foi desenvolvendo o curta no seu tempo livre até que surgiu o SparkShorts, programa da Pixar em que artistas do estúdio têm a chance de desenvolver curtas independentes. Com respaldo do estúdio, Sullivan teve um orçamento limitado e seis meses para desenvolver os oitos minutos de animação. Para compensar o prazo apertado, ela pode contar com a colaboração de diferentes artistas do estúdio, como o veterano Bill Cone, que trouxe o visual pastel à produção.

"Trabalhei nisso por tanto tempo, no meu tempo livre. Nunca esperei que chegaria a um padrão de qualidade tão grande, nem atingiria um público tão grande”, afirmou ao Deadline. “Sempre pensei que seria meu projeto pessoal, no meu próprio tempo".

DCERA (DAUGHTER)

Mesclando stop-motion com movimentos de câmera inspirados em Ondas do Destino, de Lars von Trier, a diretora Daria Kashcheeva investiga em Dcera (Daughter) o relacionamento entre um pai e sua filha. O ponto de partida para a história veio em alguma medida da sua própria experiência durante a infância.

"Lembro de momentos em que precisei de algo dos meus pais e eles não tinham tempo", contou ao Deadline. "Ia para meu quarto me sentindo insultada. Tive ótimos pais, mas acho que toda criança tem momentos em que precisam de mais amor e atenção e está tudo bem".

Ao longo de mais de um ano e meio, Kashcheeva se dedicou ao projeto, construindo ela mesma os personagens e os sets. Curioso pensar que animação sequer é a primeira formação dela. A diretora começou sua carreira como designer de som, mas insatisfeita com a profissão decidiu se arriscar e ir estudar cinema em Praga. Dcera (Daughter), então, foi seu trabalho de conclusão de curso.

O projeto sofreu resistência de professores da universidade, que acharam a visão de Kashcheeva ousada e impossível de ser efetivamente posta em prática. Contradizendo as expectativas, Dcera (Daughter) participou de diferentes festivais ao redor do mundo e é um forte candidato ao Oscar deste ano. Assista ao trailer acima.

MEMORABLE

Bruno Collet traz um olhar inédito para os efeitos que o Alzheimer pode causar na vida de uma pessoa no sensível Memorable. Acompanhando o processo de envelhecimento de um pintor, o diretor foca não em como as pessoas ao redor reagem ao agravamento da sua doença, como é convencional, mas sim em como isso muda a percepção do próprio indivíduo afetado.

Diferentemente dos demais curtas, cujos diretores tiveram algum tipo de inspiração na própria experiência para criar suas tramas, aqui Collet usou a vida do artista William Utermohlen como ponto de partida. "Ele foi um pintor que tinha Alzheimer e fez autorretratos ao longo da sua vida, mesmo quando estava muito doente", explicou ao Deadline. "É muito tocante, porque se você observar suas obras dá para ver a evolução da doença do começo ao fim".

De modo análogo, o diretor usa a arte para colocar o espectador no lugar do seu protagonista. Inicialmente, apenas o médico é retratado de uma forma curiosa - assustadora, até. Depois, seus filhos ganham traços abstratos. Quando a doença chega ao seu estágio mais avançado, sua esposa, isto é, sua grande musa, se torna meros pingos de tinta.

Para este projeto, Collet combinou stop-motion e efeitos 3D feitos em computador - veja os bastidores no vídeo acima. O resultado, desenvolvido no correr de nove meses, já foi premiado como Melhor Curta no Festival de Cinema de Animação de Annecy.

SISTER

O impacto da chamada política do filho único - medida adotada na China para frear o crescimento populacional entre 1979 e 2015 - é o foco do curta da diretora Siqi Song. Ao contrário do seu protagonista, a cineasta é a segunda filha, algo bastante incomum. No seu círculo de amigos, por exemplo, ela foi a única a ter crescido com um irmão e, por isso, ela se considera bastante privilegiada. Sua intenção com o projeto era, portanto, fazer com que o público aprecie mais sua relação com seus irmãos.

Assim, a história do menino que imagina como sua vida seria diferente se tivesse tido uma irmã teve inspiração em várias histórias que ouviu ao longo dos anos, inclusive do seu colega na CalArts que empresta a voz ao seu protagonista. Não à toa, ela dedica à obra "aos irmãos que nunca tivemos".

Foram três anos de desenvolvimento do projeto com um desafio muito específico por ter decidido usar lã para criar suas personagens e cenários. "Em stop-motion, é realmente importante manter tudo parado", contou ao Deadline. "Mas com feltro, isso é impossível. A lã se move com o ar ou se eu tocasse em qualquer coisa".

Curiosamente, sua estratégia para contornar esse obstáculo foi tocar em tudo em todos os frames. "Isso foi meio um acidente, mas deu aos personagem um toque mais vivo. Foi mais trabalhoso, mas criou um visual bem diferente".

Assista ao curta no Vimeo clicando aqui.