Estreia de The Circle Brasil reforça potência dos reality shows da Netflix

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

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Estreia de The Circle Brasil reforça potência dos reality shows da Netflix

Versão brasileira da competição de popularidade mantém as surpresas em meio à celebração da superficialidade virtual

Henrique Haddefinir
14.03.2020
12h53

Desde que o mercado de streaming se abriu fortemente nos últimos dois anos, a Netflix, pioneiro na categoria, luta para se manter em primeiro lugar com o máximo possível de produções originais. Durante muito tempo, séries e filmes foram o foco absoluto da empresa. Contudo, com o sucesso dos reality shows terceirizados que chegavam ao catálogo, o reconhecimento do gênero começou a abrir os olhos dos executivos da plataforma e logo um sortimento de títulos começou a aparecer no catálogo, ampliando o alcance midiático da plataforma e produzindo alguns bons trechos de cultura pop contemporânea.

Os primeiros investimentos originais não datam de tanto tempo assim. Em 2016, White Rabbit Project e Chasing Cameron falharam na sua chegada discreta no catálogo. Algumas poucas tentativas depois e lá estava Queer Eye, em 2018, uma remontagem do clássico que fazia makeovers com homens heterossexuais. O sucesso começou a revelar seus vislumbres e as porteiras se abriram... Nailed It (2018), Sugar Rush (2018), Dating Around (2019), entre outros, começaram a chamar a atenção dos espectadores. Isso sem falar em queridinhos terceirizados como RuPaul's Drag Race (2009), Instant Hotel (2017) e Back With The Ex (2018).

Só agora, em 2020, realities como Next in Fashion e Love is Blind tiveram uma presença bastante digna na plataforma e também na cobertura midiática. A fascinação do público pelo holofote que se acende, subitamente, na cara de anônimos, surgiu no início dos anos 2000 e houve quem dissesse que aquela seria uma “febre passageira”. O Survivor está na sua temporada número 40, o Big Brother Brasil na sua vigésima – e incrivelmente bem sucedida – temporada. Já dá para perder as contas de quantos anos de The Voice se passaram e nenhum desses programas parece nem um pouco disposto a acabar. Há algo de hipnótico na ideia de recortar a vida em pedaços editados que geralmente refletem nossos comportamentos proibidos. O Reality Show tem espelhos por onde pode ser desconfortável olhar.

A mais nova investida da Netflix é a versão brasileira do reality britânico The Circle. No dia 1º de janeiro deste ano, a versão americana chegou na plataforma e foi um grande sucesso. Foi o empurrãozinho necessário para antecipar o apelo da versão brasileira, gravada ainda em 2019 nos mesmos apartamentos da versão norte-americana. Apresentado por Giovanna Ewbank, a versão nacional tem os mesmos moldes do original e um time de participantes que são o “fino trato” do que vemos nas redes sociais todos os dias. E eles precisam competir pelo título de mais populares do The Circle, o que garante uma grana e a certificação de que venceu sendo você mesmo ou enganou pessoas por vários dias com um perfil fake. No segundo caso, o programa dá 300 mil reais para quem contar a melhor mentira.

Abre a rodinha

Em torno desse estranho conceito estão os primeiros nove participantes, distribuídos entre sincerões e dissimulados. Marina Gregory, Raphael Dumaresq, Loraiyne Oliver e Gabriel Cardoso, são alguns que estão jogando com perfis verdadeiros. Gregory e Dumaresq são de longe os mais interessantes. Ela é uma mulher plus size que (ao contrário do que aconteceu na versão americana) não se esconde e não se intimida. Ele, estilosíssimo, gay e quase um sincericida. Confronta outros participantes como não vimos antes no formato. Lorayne e Cardoso ainda não disseram a que vieram nos quatro episódios já disponíveis na plataforma. Ana Carla, João Akel, Jp Gadelha, e Rayssa também jogam com perfis reais, mas sem muita expressividade.

Entre os mentirosos estão Rob Vulcan, um urso cuteleiro que entra como Julia, uma também cuteleira, que tem rosto de uma mulher moderna e a personalidade de um “tio do churrasco”, grosseira, tarada e inconveniente. É o caso mais grave de falta de noção, sem dúvida. Paloma, uma lésbica “caminhoneira”, como ela mesma diz, aparece como Lucas, um rapaz com um visual de modelo influencer e zero complexidade. E ainda há os gêmeos Lucas e Marcel, que entram como Luma, uma influencer sensual e polida.

Seguindo a métrica do original, os participantes são confinados nos apartamentos e só podem se comunicar através da rede The Circle. Eles passam algum tempo conversando entre si e ao comando da rede, precisam se classificar do mais popular para o menos popular. Os que ficam no topo do ranking escolhem qualquer um dos outros para ser bloqueado e eliminado da competição. Os episódios, então, tentam preencher um longo tempo de tela com as conversas, enquanto o público aguarda pelos picos de tensão, que são as classificações, os eliminados e mais importante: quem os eliminados vão visitar antes de irem embora (eles podem escolher um apartamento para entrar na noite em que partem). A revelação de quem é ou não fake é o ápice do programa e o julgamento dos integrantes do reality nem sempre é realmente sensível ou atento.

Nem tudo é diversão, entretanto. Pessoas que foram sinceras o tempo todo são acusadas de estarem mentindo, outros que são naturalmente tímidos passam os episódios fingindo uma personalidade extravagante e o flerte acontece como método de sedução o tempo todo. Qualquer sinal de autenticidade pode ser punido e poucos conseguem passar pelo programa contornando a pressão pelo enquadramento. A contrapartida é o desconforto dos mentirosos quando são descobertos. De repente, os planos de ganhar 300 mil passando a perna nos colegas ficam um pouco nebulosos. Confinados e envolvidos, muitas vezes eles se abrem totalmente com quem não tem nada de genuíno. E por mais estranho que seja admitir o apelo dessa ideia, a observação desses comportamentos acaba ficando – como em bons realities – irresistível.

Os interessados podem conferir os quatro primeiros episódios já disponíveis. A cada quarta-feira mais quatro serão disponibilizados até os 12 que compõem a primeira temporada. Há algo de verdadeiramente estranho em The Circle Brasil, algo que soa ligeiramente opressor do ponto de vista emocional, visto que essa necessidade de aprovação que ronda a internet, produz pequenos monstros de personalidade indefinida, bradando aos quatro ventos sobre como eles são autênticos. Não é incomum ver lágrimas de rejeição rolarem. Porém, tudo isso também é fascinante e diz muito sobre como somos nós, os observadores, os verdadeiros propulsores do show da realidade. Assim, sem nenhuma aspa.